O secretário-geral da ONU alerta que os meios de comunicação estão a ser alvo de ataques em todos os cantos do mundo, onde “a verdade é ameaçada pela desinformação e pelo discurso de ódio”.
Por ocasião do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, neste domingo, 3 de maio, a ONU alerta para as ameaças que pesam sobre os jornalistas: censura, perseguição judicial, violência e assassinatos.
"Toda a liberdade assenta na liberdade de imprensa. Sem ela, não pode haver direitos humanos, desenvolvimento sustentável nem paz", declarou António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, numa mensagem em vídeo. O secretário-geral da ONU diz que os últimos anos têm sido marcados por um aumento do número de jornalistas mortos, em particular em zonas de guerra.
Guterres denunciou também que 85% dos crimes cometidos contra profissionais do setor continuam sem esclarecimento e sem julgamento, um nível de impunidade que classifica como "inaceitável".
De acordo com a contagem da UNESCO (fonte em francês), 14 jornalistas perderam a vida desde o início de 2026. Em 2025, foram mortos 129 jornalistas e outros profissionais da imprensa ao longo de todo o ano, segundo o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).
A "liberdade da imprensa é o fundamento da democracia", António José Seguro
Numa nota a marcar o Dia da Liberdade de Imprensa, o Presidente da República Portuguesa sublinhou que a morte dos referidos 129 jornalistas e profissionais da comunicação social em todo o mundo "não é uma estatística. É uma acusação".
António José Seguro alertou para a regressão democrática em várias regiões do globo, "a pressão das autocracias sobre os media independentes, a precariedade económica das redações, a concentração da propriedade e a proliferação de desinformação que contamina o espaço público – por vezes seduzindo os próprios media que deveriam ser o seu antídoto", pode ler-se.
O Presidente alerta para o enfraquecimento dos media e para a forma como o espaço informativo disputa o espaço do espectáculo, naquilo que José Seguro classifica de "circo mediático".
António José Seguro defende o jornalismo como pilar da democracia, pois, quando se cala um jornalista, quem perde é a população. "Defender a Liberdade de Imprensa é, por isso, uma responsabilidade de todos – não apenas dos jornalistas ou das empresas de comunicação social. É uma prioridade de cidadania. Porque quando uma voz jornalística se cala por medo, por impossibilidade económica ou por captura, não é apenas ela que perde. Perdemos todos", escreveu o Presidente da República.
Os alertas sobre a decadência da liberdade de imprensa e a escalada da violência contra os jornalistas multiplicam-se em vários países europeus.
"É nosso dever recordá-lo sempre, e tanto mais hoje, num momento histórico marcado por uma escalada contínua da violência e por violações repetidas do direito internacional humanitário [...]: as pessoas que não participam nos conflitos – civis, pessoal médico e humanitário e jornalistas – não devem ser atacadas", declarou Rosario Valastro, responsável da Cruz Vermelha Italiana.
A diplomacia francesa condenou, por sua vez, este domingo, "os ataques e violências cometidos contra jornalistas e profissionais dos media", prestando homenagem "a todos os que, ainda demasiados este ano, foram mortos no exercício da sua profissão, em todo o mundo, na Palestina, na Ucrânia, no Sudão e noutros locais".
Segundo Paris, quatro jornalistas morreram desde março em bombardeamentos do exército israelita no sul do Líbano. "O ataque deliberado a jornalistas, quando comprovado, constitui crime de guerra", afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês.
O Quai d'Orsay saudou também a memória de Antoni Lallican, fotojornalista francês de 37 anos, morto em 3 de outubro passado num ataque com drone russo perto de Kramatorsk, na Ucrânia. "A Rússia fez da liberdade de informar um alvo", prossegue o comunicado.
A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) qualificou (fonte em francês) o ataque de "deliberado", numa altura em que Antoni Lallican se encontrava no terreno com o seu colega ucraniano, Georgiy Ivanchenko, que ficou gravemente ferido no ataque.
A libertação de jornalistas detidos arbitrariamente é imperativa
Segundo a ONU, cerca de 330 jornalistas estão atualmente detidos em todo o mundo, aos quais se somam 500 jornalistas, cidadãos e bloguistas defensores dos direitos humanos.
Há também sinais de esperança. No final de abril, o jornalista Andrzej Poczobut recuperou a liberdade após cinco anos de detenção na Bielorrússia. Correspondente do diário polaco Gazeta Wyborcza e figura da minoria polaca no país, cumpria uma pena de oito anos de prisão por ter "incitado a ações que colocariam em perigo a segurança nacional".
Após a libertação, no quadro de uma troca, foi recebido na fronteira polaca pelo primeiro-ministro da Polónia, Donald Tusk.
Neste domingo, 3 de maio, o presidente Karol Nawrocki condecorou o antigo prisioneiro de Aleksandr Lukashenko com a Ordem da Águia Branca, a mais alta distinção polaca (fonte em francês), pela sua "atitude inabalável face às manifestações de regimes totalitários em renascimento".
Em França, Christophe Gleizes não é esquecido.
O governo francês "continua a atuar junto das autoridades argelinas" para obter a libertação do jornalista desportivo, condenado em recurso, em dezembro de 2025, a sete anos de prisão por "apologia do terrorismo" e "posse de publicações com o objetivo de propaganda prejudicial ao interesse nacional". A sua detenção, durante uma estadia na Cabília, alimentou as tensões entre Paris e Argel.
O dia 3 de maio foi proclamado Dia Mundial da Liberdade de Imprensa pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1993, após a recomendação (fonte em francês) da UNESCO em 1991 e o apelo de jornalistas africanos que adotaram a Declaração de Windhoek (fonte em francês) pelo pluralismo e pela independência dos meios de comunicação.