O verão de 2026 tornou-se mais uma prova para a aviação russa, em plena guerra na Ucrânia: multiplicam-se atrasos e cancelamentos de voos e as companhias operam sob vários fatores de crise.
O presidente russo, Vladimir Putin, admitiu pela primeira vez em público que, devido à evolução das operações militares, o país poderá não cumprir as metas de volume de transporte aéreo de passageiros previstas nos objetivos nacionais de desenvolvimento. Numa reunião sobre o desenvolvimento do setor da aviação, realizada na semana passada, o presidente russo referiu que, perante o aumento da procura de voos associado às novas realidades, encarregou o Ministério dos Transportes de rever a previsão do fluxo de passageiros para este ano.
A crise nacional de combustíveis, provocada por ataques ucranianos destinados a neutralizar a máquina de guerra russa, combinada com atrasos e cancelamentos massivos de voos, limitações temporárias ao funcionamento de aeroportos, falta de aeronaves de reserva e forte pressão sobre as transportadoras aéreas, leva cada vez mais a perturbações nos horários.
À medida que a crise dos combustíveis vai paralisando progressivamente o país, este verão tornou‑se mais uma prova de fogo para o setor, evidenciando até que ponto o sistema de transporte aéreo é vulnerável à combinação de fatores internos e externos.
Cancelamentos e atrasos de voos
Uma das principais dificuldades da época têm sido as perturbações regulares nos horários. Em várias regiões da Rússia, sobretudo em Moscovo, os aeroportos impõem periodicamente limitações temporárias às chegadas e partidas de aeronaves por razões de segurança ligadas a ameaças de drones. Mesmo o encerramento por períodos curtos do espaço aéreo provoca um efeito dominó: os aviões não chegam a tempo ao destino seguinte, as tripulações ultrapassam o limite legal de horas de serviço e os horários sofrem novas derrogações.
Para os passageiros, isto traduz‑se não só em horas de espera pelo embarque, mas também no adiamento de voos de ligação, com alterações dos planos de viagem e eventuais penalizações financeiras. Uma parte dos russos opta por trocar o avião pelo comboio ou pelo automóvel.
Escassez de frota aérea
No tradicional pico de verão, a limitação da frota sente‑se de forma ainda mais aguda.
Após as sanções impostas na sequência da invasão em grande escala da Ucrânia, as companhias aéreas russas continuam a operar as aeronaves disponíveis ao máximo. A substituição rápida dos aparelhos que têm de ser enviados para manutenção tornou‑se permanentemente difícil.
Desde 2022, a Rússia adquire componentes de aviação através de canais de importação paralela, contornando as sanções e pagando preços 40% a 100% acima dos de mercado. Além disso, algumas peças podem já apresentar desgaste, o que aumenta ainda mais os riscos.
A frota reduz‑se também por outro motivo, conhecido no setor como “canibalização” de aeronaves: as companhias veem‑se obrigadas a usar alguns aviões como fonte de peças sobresselentes para manter outros em operação.
Substituição de importações não resulta
Numa declaração recente sobre o estado do setor da aviação, Vladimir Putin afirmou que “a Rússia foi obrigada, mas conseguiu substituir integralmente todas as importações”. Mas será mesmo assim?
Segundo o Serviço Federal de Estatística, a produção da indústria aeronáutica russa em abril deste ano cresceu 117%, mais do que duplicando o valor registado um ano antes.
Este crescimento deve‑se, porém, sobretudo ao segmento militar da indústria aeronáutica, em particular à produção de drones de que a Rússia necessita para prosseguir a guerra na Ucrânia.
O resultado é uma pressão crescente sobre a frota civil. Até 2030‑2035, a Rússia previa substituir quase um terço da sua frota de aviões ocidentais. Mas, nos últimos três anos, conseguiu trocar apenas 13 dos 120 aparelhos previstos para esse período.
Venda de ações da Aeroflot
A agência federal Rosimushchestvo prepara‑se para vender 23,76% das ações (fonte em russo) da transportadora aérea nacional Aeroflot. O Estado pretende, contudo, manter o controlo da empresa: atualmente detém uma participação de 73,8%.
Em 2022, o Estado subscreveu uma emissão adicional de ações da Aeroflot, utilizando 52 mil milhões de rublos do Fundo Nacional de Bem‑Estar (FNB). Isto foi necessário para apoiar a companhia aérea num contexto de sanções. No final da operação, a participação pública aumentou de 57,34% para 73,8%.
Segundo analistas, a venda de ações da Aeroflot pode sinalizar novas dificuldades financeiras na economia russa e um esgotamento gradual dos recursos. Além disso, calcula‑se que o orçamento federal deixe de encaixar cerca de 170 milhões de dólares com a operação: em 2022 o Estado pagou 0,85 dólares por ação, enquanto o preço de mercado ronda agora apenas 0,66 dólares.
Impacto de fatores externos
Nas rotas internacionais, alterações de trajetos aéreos devido a restrições em partes do espaço aéreo representam um encargo adicional. Após a invasão da Ucrânia, a União Europeia fechou o seu espaço aéreo às companhias russas e, com o conflito contínuo no Médio Oriente, os transportadores são obrigados a procurar percursos alternativos. A necessidade de evitar zonas interditas aumenta a duração dos voos, o consumo de combustível e obriga a ajustar horários, o que se traduz em mais constrangimentos para os passageiros.
Redução de voos internacionais diretos
No verão, é possível sair da Rússia em voos diretos para cerca de três dezenas de países, menos do que no período de inverno, refletindo a tendência dos últimos anos.
No inverno, a Rússia tinha ligações aéreas diretas com 43 países, mas, até junho, vários destinos desapareceram por motivos sazonais, pelo impacto dos custos de combustível e de fatores geopolíticos, bem como pelas limitações ligadas à crise no Médio Oriente.
Atualmente, as companhias aéreas russas têm autorização para voar para: Azerbaijão, Arménia, Afeganistão, Bahrein, Bielorrússia, Vietname, Hong Kong (China), Geórgia, Egito, Israel, Índia, Indonésia, Jordânia, Irão, Cazaquistão, Qatar, China, Coreia do Norte, Quirguistão, Maldivas, Marrocos, Mongólia, Emirados Árabes Unidos, Omã, Arábia Saudita, Sérvia, Tajiquistão, Tailândia, Turquemenistão, Turquia, Uzbequistão, Etiópia.