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Ilhas de calor agravam canícula já insuportável

Calor aperta na cidade
Cidade enfrenta onda de calor Direitos de autor  AP Photo
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De Anna Flori & Euronews & HungaroMet
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Nas grandes cidades, o betão não deixa a noite aliviar a vaga de calor: sofrem pessoas, animais e plantas. Especialistas alertam para soluções possíveis, se o problema for encarado com seriedade.

Há muito que se sabe até que ponto a qualidade de vida nas cidades se degrada, sobretudo no verão, quando o calor se torna, ano após ano, mais insuportável em toda a Europa. As ondas de calor deste ano tornam inevitável encarar um facto: as nossas cidades, em constante expansão, funcionam como caldeiras num calor já de si difícil de suportar.

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Fenómeno bem conhecido, com nome próprio

O chamado efeito de ilha de calor urbana significa que o microclima das zonas densamente construídas e pavimentadas é significativamente, por vezes 2 a 10 graus Celsius, mais quente do que o das áreas envolventes cobertas de vegetação.

Vários fatores estão na origem deste processo.

  • Materiais que absorvem calor por todo o lado: estradas, telhados e edifícios são feitos de asfalto, betão e tijolo de cores escuras, que durante o dia absorvem a radiação solar e à noite a vão libertando de forma contínua para o ambiente.
  • Escassez de vegetação: as árvores e o solo refrescam o ar através da evaporação da humidade. Nas cidades, o betão e o asfalto selam o solo, a chuva escoa rapidamente e este efeito de arrefecimento natural perde-se.
  • Produção artificial de calor: os automóveis, as fábricas e os sistemas de climatização e aquecimento dos edifícios libertam calor de forma contínua para a atmosfera urbana.
  • Obstrução dos corredores de vento: os edifícios altos e torres travam ou abrandam a circulação natural do vento, o que impede a rápida renovação do ar quente.

Tudo isto afeta três quartos da população europeia, uma proporção que continua a aumentar. As ilhas de calor não só tornam a vida mais desconfortável, como também podem ser perigosas. As temperaturas elevadas causam problemas de saúde, como golpes de calor e dificuldades respiratórias, e contribuem para o aquecimento contínuo da atmosfera.

Calor
Calor AP Photo

Ar condicionado não é solução

Para a maioria das pessoas que vivem nas cidades, o ar condicionado é a resposta ao calor de verão cada vez mais difícil de suportar, mas só oferece um alívio momentâneo e, a longo prazo, tem precisamente o efeito contrário. Considerando também os ventiladores, a refrigeração artificial do ar representa cerca de 10% do consumo mundial de eletricidade, cuja produção contribui significativamente para a emissão de gases com efeito de estufa e para o aquecimento global.

Segundo a climatologista Diana Ürge-Vorsatz, o mais importante é eliminar o betão das cidades sempre que possível e substituí-lo por árvores, relvados e arbustos, que funcionam como reguladores naturais da temperatura.

As árvores e outros vegetais de folha verde libertam vapor de água, melhorando por si só a sensação térmica, ao mesmo tempo que proporcionam sombra às pessoas e ao solo. Estudos mostram que a plantação de árvores em contexto urbano pode baixar a temperatura entre 2 °C e 10 °C, consoante as condições locais.

É igualmente crucial criar sombra artificial onde não é possível introduzir vegetação. Devem instalar-se coberturas sobre paragens de elétrico e de autocarro, bem como sobre ruas inteiras, como já acontece em muitos locais do mundo. Para esse efeito, devem utilizar-se materiais de textura leve que não absorvam a luz solar. Pintar os telhados de branco também é muito eficaz, tal como revestir estradas, passeios e parques de estacionamento com materiais refletores.

Já é quase um cliché afirmar que o reforço dos transportes públicos é decisivo para reduzir as emissões de gases poluentes. Se menos pessoas precisarem de usar o carro, serão necessárias menos vias e menos parques de estacionamento, diminuindo a área de betão nas cidades.

A investigadora sublinha ainda que, no nosso dia a dia, temos rotinas que também têm um impacto no ambiente, sem que disso tenhamos consciência.

Sentados a fazer scroll

Embora as redes sociais e a internet em geral pareçam algo virtual, por trás de cada gosto, vídeo e partilha há um consumo elevado de energia.

Os parques de servidores que suportam imagens, vídeos de alta definição e algoritmos funcionam 24 horas por dia. Operar e refrigerar continuamente estas infraestruturas gigantes exige enormes quantidades de eletricidade. Se solicitarmos menos dados, diminui a carga sobre os servidores e, consequentemente, o consumo de energia.

Globalmente, o consumo de conteúdos digitais é responsável por emissões de dióxido de carbono comparáveis às de todo o setor da aviação. E há grandes diferenças entre aplicações. O TikTok gera cerca de 2,63 gramas de dióxido de carbono por minuto e por utilizador, devido aos vídeos que se carregam sem parar. O Instagram é responsável por aproximadamente 1,5 gramas por minuto. O Facebook, menos centrado em vídeo, gera apenas cerca de 0,79 gramas de dióxido de carbono por minuto.

Num ano, o simples gesto diário de fazer scroll nas várias plataformas pode representar até 60 quilos de dióxido de carbono por utilizador, equivalente a uma viagem de várias centenas de quilómetros de automóvel.

Tudo se agrava com a seca crescente

Na Hungria, o défice de água no solo já atingiu níveis que, anteriormente, só eram registados no final de agosto. Segundo os especialistas, com este tipo de condições meteorológicas, o défice deverá superar o recorde de 2022. Num solo seco, a aposta urbanística na plantação de espaços verdes é pouco eficaz: sem água, não só as flores e a relva, mas também as árvores não resistem por muito tempo.

Sándor Bardóczi, o arquiteto paisagista-chefe de Budapeste, escreveu numa publicação no Facebook: «Dentro de uma década, isto poderá significar que vamos perder 40% das nossas grandes árvores, que representam 95% da atual massa foliar da cidade. Ao mesmo tempo, as árvores com menos de 10 anos não conseguem crescer adequadamente devido aos períodos de seca; sem rega artificial, nem sequer as conseguiríamos manter vivas.»

O especialista descreve pormenorizadamente um ciclo preocupante, cujo resultado será Budapeste "perder 40% das suas árvores grandes" dentro de uma década, árvores essas responsáveis por 95% da massa foliar da cidade. As árvores com menos de 10 anos não conseguem desenvolver-se adequadamente devido aos períodos de seca e não sobreviveriam sem rega.

Luta das árvores prolonga-se

Segundo Sándor Bardóczi, em Budapeste, o monte Gellért é o local que melhor ilustra o estado atual do processo que, a longo prazo, resultará na morte em massa das árvores.

"A falta de humidade no solo também queima o microbioma do solo: definham linhagens de fungos e bactérias simbióticas essenciais, o orvalho desaparece e o ar seco leva as plantas a abrandar ou mesmo a suspender a evapotranspiração. Os estomas vão fechando lentamente, cessa o arrefecimento natural, os processos metabólicos desaceleram e a copa prepara-se para hibernar. A partir de certo ponto, a planta 'pondera' e, para sobreviver, decide rarear a folhagem, começa a soltar as folhas, aparecem cores de outono no meio do verão e reage à falta de chuva como se fosse já novembro. Este falso inverno prolonga-se até ao período de maior pluviosidade, ou seja, até setembro ou outubro, dando lugar a uma falsa primavera, em que a árvore tenta novamente lançar folhas, por vezes até flores. Que depois, no final do outono, acabam por gelar".

O serviço meteorológico HungaroMet alerta que, em Budapeste, as ondas de calor não só se tornaram mais frequentes como duram mais e são mais intensas de ano para ano. Para o meio natural e para a população, é determinante o tempo durante o qual é preciso suportar o calor. E os últimos anos mostram que as vagas de calor já não se medem em dias, mas em semanas.

Segundo as previsões atuais, nas próximas semanas não se esperam precipitações significativas, pelo que os especialistas antecipam um agravamento da seca e de todos os seus efeitos associados.

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