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Europa: como arrefecer sem ar condicionado e o que resulta mesmo

Voluntário da Jornada Mundial da Juventude refresca-se com pequena ventoinha enquanto aguarda a chegada do papa Francisco ao Passeio Marítimo de Algés, às portas de Lisboa
Voluntário da Jornada Mundial da Juventude usa pequeno ventilador para aliviar o calor enquanto espera pela chegada do Papa Francisco ao Passeio Marítimo de Algés Direitos de autor  Copyright 2023 The Associated Press. All rights reserved
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De Liam Gilliver
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O TikTok diz-me que pôr o pijama no congelador ajuda a suportar o calor extremo. Preciso de outras soluções…

Estou de pé na cozinha, à espera que os meus pijamas fiquem bem frescos.

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Pus-los no congelador, ao lado de um saco de petit pois; é um truque que se tornou recentemente viral nas redes sociais – entre muitos outros – numa altura em que mais uma onda de calor sufocante atinge grande parte da Europa.

Vivo em Yorkshire, conhecido como God’s Own Country, reputado pelo tempo chuvoso e pelos páramos envoltos em nevoeiro (veja-se “Wuthering Heights” como referência), mas esta semana os termómetros já chegaram aos 32 ºC e só deverão descer para uns mais suportáveis 24 ºC no domingo.

Para os europeus do sul, habituados a máximas de 40 ºC no verão, isto pode não parecer “calor extremo”. Mas convém lembrar que, no Reino Unido, só entre cinco e sete por cento das casas têm ar condicionado, as habitações foram construídas para manter o calor lá dentro e não fazemos sestas a meio do dia (pelo menos não sem arriscar o emprego).

Às oito da noite, o termóstato marca 24 ºC, sinal de que consegui travar parte do calor: mantive os cortinados fechados, a marquise encerrada, abri janelas apenas de manhã e à noite – quando a temperatura exterior desce – e evitei aparelhos que geram muito calor, como o forno.

Mas o termóstato fica no patamar do rés do chão, a zona mais fresca da casa; quando subo as escadas, o ambiente está bastante mais quente.

Noites tropicais mortais tornam-se mais comuns

Esta noite, a previsão aponta para uma descida até aos 18 ºC. Fica ligeiramente abaixo do limiar de uma “noite tropical” (quando, ao longo de 24 horas, a temperatura nunca baixa dos 20 ºC), mas suspeito que ainda assim será uma noite desconfortável.

No TikTok, garantem que congelar o pijama proporciona um alívio muito necessário face ao calor pegajoso. Não vai arrefecer a casa, mas, em princípio, ajudará a arrefecer o corpo.

“O calor noturno é muitas vezes subestimado, mas pode ser particularmente perigoso porque as pessoas estão normalmente em casa e podem não ter acesso a espaços frescos com ar condicionado”, explica-me Ruth Engle, cientista de dados no World Resources Institute.

“Falamos com frequência da ‘carga térmica cumulativa’, a ideia de que quanto mais tempo as pessoas estão expostas ao calor, maior é o impacto na sua saúde. Quando as casas permanecem quentes durante a noite, perde-se a oportunidade de recuperar das temperaturas diurnas, o que aumenta os riscos, sobretudo para idosos e pessoas com problemas de saúde pré-existentes."

Estudos mostram que temperaturas noturnas elevadas estão associadas a um aumento da mortalidade, e o Met Office britânico alerta que a probabilidade de registar três noites tropicais consecutivas em julho aumentou significativamente devido às alterações climáticas.

As temperaturas diurnas também começam a ser motivo de preocupação aqui, apesar da localização mais a norte tornar o clima mais fresco do que em Londres, por exemplo. Leeds tornou-se recentemente o primeiro município britânico a lançar um programa “Cool Space”, abrindo 39 polos, bibliotecas e centros de lazer por toda a cidade para ajudar os residentes a enfrentar o calor.

É um conceito semelhante à rede de abrigos climáticos que surgiu em Espanha nos últimos anos, dando às comunidades vulneráveis acesso a espaços frescos e a água.

Funciona o truque viral do TikTok para refrescar?

Tiro a roupa gelada do congelador e visto-me. A sensação é estranha, mas de facto refresca – como se me tivesse transformado num gelado de pau.

No entanto, a novidade passa depressa e volto a sentir-me quente e irritada. É como virar a almofada durante a noite: há uma frescura súbita que desaparece em poucos minutos.

O tecido retém muito pouca energia térmica em comparação com o corpo humano, por isso aquece de novo até à temperatura ambiente em questão de minutos.

Mas, tal como Carrie em “Sex and the City”, fiquei a pensar: como é que os europeus conseguem, na prática, manter-se frescos sem recorrer ao ar condicionado?

Manter o corpo fresco com tempo quente

Curiosamente, o governo britânico não recomenda pôr o pijama na gaveta de cima do congelador nem colocar uma taça de cubos de gelo à frente de uma ventoinha elétrica.

Em vez disso, apresenta conselhos um pouco menos excêntricos, que a maioria das pessoas já segue naturalmente durante ondas de calor: evitar o sol, sobretudo nas horas de maior intensidade, usar proteção solar, limitar a atividade física e vestir roupa larga, de cores claras.

Sugere também que borrifar ou passar a pele com água fresca pode ajudar, tal como envolver bolsas de frio num pano e colocá-las debaixo das axilas ou no pescoço.

Manter a casa fresca durante ondas de calor

Para arrefecer a casa, as orientações são bem mais escassas. A Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido recomenda manter janelas e cortinas fechadas, durante o dia, nas divisões voltadas para o sol e abrir janelas quando o ar estiver mais fresco no exterior do que no interior.

Já segui esses conselhos e, embora tenham ajudado a conter um pouco o calor, a casa continua demasiado quente. Se estiver na mesma situação, existem três formas interessantes de manter o lar fresco (sem ar condicionado) que são um pouco mais duradouras do que T-shirts geladas.

Telhados frescos: deve pintar a sua casa de branco?

Um artigo de 2024 (fonte em inglês), da UCL e da Universidade de Exeter, publicado na revista científica Nature Cities, analisou o efeito de arrefecimento que telhados pintados de branco ou noutras cores refletoras teriam sobre a temperatura do ar em Londres, entre junho e agosto de 2018.

Na altura, tratou-se de um dos verões mais quentes de que há registo na cidade, com uma temperatura média de 19,2 ºC nesses três meses – cerca de 1,6 ºC acima da média para essa época do ano.

Os investigadores concluíram que, se telhados frescos em tons claros tivessem sido instalados de forma generalizada pela cidade, Londres poderia ter arrefecido cerca de 0,8 ºC em média. Segundo o estudo, isso teria evitado as mortes relacionadas com o calor de cerca de 249 pessoas.

Telhados brancos são uma imagem comum em países mais quentes do sul da Europa e do Norte de África, mas são raros no Reino Unido. Coberturas de cores claras absorvem menos energia radiante do sol do que as alternativas escuras, contribuindo para baixar a temperatura nas cidades e manter ambientes interiores mais frescos.

Pode saber mais sobre telhados frescos aqui.

Painéis solares: mais do que uma fonte de energia barata

Embora os painéis solares sejam, naturalmente, concebidos para ajudar as famílias a reduzir a dependência de combustíveis fósseis poluentes e a baixar as faturas de energia, o mesmo estudo concluiu que também têm um efeito de arrefecimento.

Isto deve-se ao facto de os painéis solares instalados nos telhados criarem uma barreira entre a cobertura e o sol, absorvendo radiação ultravioleta que, de outra forma, aqueceria o telhado e entraria em casa. O vidro dos painéis solares também reflete a luz solar para longe da propriedade.

Os investigadores estimam que, se os painéis solares em telhados tivessem sido igualmente adotados de forma ampla em Londres durante a onda de calor de 2018, teriam arrefecido a cidade em cerca de 0,3 ºC. Isso teria evitado a morte de aproximadamente 96 pessoas em toda a cidade.

“Os painéis solares trazem grandes vantagens como fonte de energia renovável, por isso é positivo verificar que não vão tornar a cidade mais quente”, afirmou o autor principal, Dr. Charles Simpson, após a publicação do estudo.

Pode saber mais sobre os benefícios ocultos dos painéis solares aqui.

Sombreamento verde: porque deve acolher uma árvore na família

É verdade que esta solução se aplica, tecnicamente, ao exterior da casa, mas acrescentar sombreamento verde (árvores e vegetação) pode reduzir de forma drástica as temperaturas à superfície e do ar.

Este tema tornou-se central no planeamento urbano e é estudado há décadas. Em 1997, investigadores nos Estados Unidos concluíram que superfícies sombreadas podem estar entre 11 e 25 ºC mais frescas do que a temperatura máxima de materiais expostos ao sol.

Para além de fornecerem sombra e evitarem que superfícies como o betão retenham calor, plantar árvores no jardim ajuda também a remover poluentes do ar e a capturar emissões de carbono, um dos principais motores do aquecimento global.

Tudo isto, naturalmente, exige investimento, demora tempo a instalar e representa opções muito mais duradouras do que pôr o pijama no congelador.

Mas, enquanto o Reino Unido volta a sufocar com mais uma onda de calor e as temperaturas globais ameaçam bater novos recordes, os britânicos terão provavelmente de começar a pensar em como podem adaptar as suas casas.

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