Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Espanha aposta em abrigos climáticos para salvar vidas: o que são?

Uma mulher protege o rosto do sol com um leque enquanto caminha numa rua num dia de calor intenso, em Pamplona, norte de Espanha, quinta-feira, 25 de julho de 2019
Uma mulher protege o rosto do sol com um leque enquanto caminha por uma rua num dia de verão escaldante, em Pamplona, norte de Espanha, quinta-feira, 25 de julho de 2019 Direitos de autor  Copyright 2019 The Associated Press. All rights reserved
Direitos de autor Copyright 2019 The Associated Press. All rights reserved
De Liam Gilliver
Publicado a Últimas notícias
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

Organização Mundial da Saúde apela a que todos os países europeus criem espaços gratuitos onde as pessoas possam refrescar-se durante ondas de calor

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a atual onda de calor «um ensaio geral» e alerta que os países europeus têm de estar muito melhor preparados se quiserem salvar vidas.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Num comunicado, a organização traça um quadro sombrio, com os pedidos aos serviços de emergência a aumentarem 50 por cento em alguns locais, e Londres a registar o maior número de chamadas num único dia. Espanha «já calcula mais de 300 mortes adicionais associadas ao calor em apenas alguns dias. Itália comunicou cinco mortes em 24 horas».

A OMS sublinha que a onda de calor é alimentada pelas alterações climáticas: «A Europa está a aquecer a mais do dobro da média global. As ondas de calor deixaram de ser fenómenos isolados e imprevisíveis. Tornaram-se crises recorrentes, mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas. Cada verão em que falhamos na preparação é um verão em que pagamos em vidas humanas».

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, acrescenta que o que lhe dá alguma tranquilidade é saber que «a prevenção funciona».

Uma das medidas elogiadas é a rede de abrigos climáticos de Barcelona.

Temperaturas máximas médias na Europa, 29 de junho de 2026
Temperaturas máximas médias na Europa, 29 de junho de 2026 World Health Organization

Abrigos climáticos: o que são

Espanha desenvolveu uma das redes de abrigos climáticos mais avançadas do mundo, numa altura em que o calor extremo se torna o risco ambiental mais mortal do nosso tempo.

No ano passado, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou que uma série de edifícios governamentais passaria a servir de refúgio para a população durante as ondas de calor cada vez mais intensas que o país vinha a enfrentar.

A rede nacional apoia-se em programas já lançados por governos regionais, incluindo na Catalunha, no País Basco e em Múrcia. Em Barcelona, existem já 400 abrigos climáticos em edifícios públicos como bibliotecas, museus, pavilhões desportivos e centros comerciais.

Estes espaços, geralmente climatizados e equipados com lugares sentados e água gratuita, destinam-se a proteger pessoas que não dispõem em casa de recursos para enfrentar temperaturas altas – como idosos, bebés e pessoas com problemas de saúde pré-existentes.

Espanha: porque ganharam força os abrigos climáticos

Espanha reforçou os esforços em matéria de abrigos climáticos após o verão recorde do ano passado, em que uma onda de calor de 16 dias em agosto fez subir as temperaturas até aos 45 ºC, valores potencialmente mortais.

Em 2025, o país registou mais de 150 000 mortes associadas ao calor, o segundo valor mais elevado de sempre. Mais de 10 000 dessas mortes foram ligadas à exposição prolongada a temperaturas moderadamente altas, que têm «efeitos cumulativos mesmo na ausência de alertas de calor», alertam os especialistas.

A morte de Montse Aguilar, uma varredora de ruas de 51 anos em Barcelona, foi uma das muitas tragédias que chegaram às manchetes. Aguilar colapsou na rua após um turno extenuante a 35 ºC, numa altura em que a cidade estava em alerta máximo, e acabaria por morrer devido a causas relacionadas com o calor.

Seguiram-se protestos, com centenas de colegas varredores e cidadãos preocupados a saírem à rua para exigir que o governo fizesse mais para proteger os trabalhadores ao ar livre.

Europa: vai investir em abrigos climáticos

As mortes relacionadas com o calor não são um problema crescente apenas em Espanha. A Europa é um dos continentes que mais rapidamente aquece e as temperaturas extremas já chegam aos países mais setentrionais, conhecidos pelo clima habitualmente fresco.

No ano passado, por exemplo, a Finlândia suportou três semanas consecutivas com temperaturas de 30 ºC, o que pressionou os hospitais e levou um rinque de gelo no norte a transformar-se temporariamente em abrigo climático. Ondas de calor varreram Itália, França, Portugal e até o Reino Unido, enquanto a Europa atravessava o seu terceiro ano mais quente desde que há registos.

De acordo com o relatório Lancet Countdown Europe, terão ocorrido cerca de 62 000 mortes relacionadas com o calor na Europa durante 2024.

«É o risco ambiental mais mortal, com aumentos de mortalidade praticamente em todas as regiões europeias estudadas», explica Elvira Jiménez Navarro, doutoranda no Centro de Investigação em Transformação Digital e Governação (UOC-DIGIT (fonte em inglês)) da Universidade Aberta da Catalunha, em declarações ao Euronews Earth.

«Os países do sul da Europa, como Espanha, Itália, Grécia, França, Croácia, Chipre, Eslovénia, Malta e Sérvia, apresentam os maiores aumentos de mortalidade, o que sublinha a necessidade urgente de medidas de adaptação, como os abrigos climáticos.»

Navarro, que defende a criação de uma rede global para responder ao aumento do calor extremo, alerta que a mortalidade ligada ao calor também está a subir, a um «ritmo mais lento mas constante», em países da Europa Central e de Leste como a Alemanha, a Áustria, a Hungria, a Bulgária, a Roménia, a Estónia e a Lituânia.

«No conjunto, o calor extremo é um problema de saúde pública que afeta todos os países europeus, em maior ou menor grau», acrescenta a especialista. «Mesmo os que enfrentam menor urgência devem aproveitar para planear melhor.»

Abrigos climáticos: para quem são e que desafios enfrentam

Embora os abrigos climáticos sejam de acesso gratuito, os especialistas sublinham a importância de garantir que estão disponíveis para as populações mais vulneráveis. Segundo o sistema de vigilância da mortalidade diária em Espanha (MoMo), a maioria das 21 700 pessoas que morreram por causas relacionadas com o calor entre 2015 e 2023 tinha mais de 65 anos.

«A vulnerabilidade resulta da combinação de vários fatores – da idade e de condições de saúde pré-existentes à qualidade da habitação, às condições de trabalho e ao rendimento – e, por isso, distribui-se de forma desigual», explica Navarro.

A especialista defende que os municípios devem mapear não só a exposição ao calor como estes indicadores mais amplos de vulnerabilidade, combinando dados para identificar zonas prioritárias e localizar aí os abrigos onde são mais necessários.

Garantir que os abrigos climáticos estão abertos nos períodos de maior procura, manter padrões básicos de conforto e comunicar o acesso de forma «inclusiva» são outros desafios que é preciso ter em conta. Para que isso aconteça, não são apenas os governos que têm de agir.

«Embora as autoridades sejam fundamentais para identificar necessidades, selecionar locais, afetar recursos e gerir operações, uma governação eficaz depende também da colaboração com grupos comunitários, ONG e empresas locais, para alargar horários de funcionamento, melhorar a divulgação e construir uma resiliência duradoura e enraizada localmente», afirma Navarro.

«O grande desafio é transformar os abrigos climáticos de medidas de emergência de curto prazo em espaços urbanos permanentes, inclusivos e multifuncionais, que protejam as pessoas do calor extremo e, ao mesmo tempo, promovam o bem-estar quotidiano.»

«Transformar os espaços públicos»

Com o aumento dos episódios de calor extremo, os abrigos climáticos podem tornar-se a norma em toda a Europa. No mês passado, o Conselho Geral de Bucareste, na Roménia, aprovou a criação de uma rede de abrigos climáticos para proteger os cidadãos das ondas de calor e das quedas acentuadas de temperatura.

Navarro afirma que estas medidas de adaptação, sobretudo em meio urbano, se tornaram «cada vez mais necessárias». Mas os governos municipais dispõem de recursos limitados para garantir um acesso equitativo e próximo aos abrigos climáticos, o que muitas vezes implica recorrer a espaços privados, como centros comerciais, para apoiar os cidadãos que mais precisam.

«Uma rede pode ser implementada de forma relativamente simples no curto prazo, utilizando equipamentos públicos já existentes, mas isso não responde às mudanças mais profundas necessárias em cidades expostas a múltiplos impactos climáticos», acrescenta a investigadora.

«É necessária uma estratégia de adaptação abrangente, centrada na transformação do espaço público para reduzir a exposição a temperaturas elevadas e outros eventos extremos, melhorando ao mesmo tempo o bem-estar coletivo e diminuindo as desigualdades nos impactos das alterações climáticas.

«Isso inclui investir em infraestruturas verdes e azuis, mudanças na mobilidade urbana e medidas sociais que respondam às necessidades das populações mais vulneráveis.»

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

Conheça o top 10 das capitais europeias mais preparadas para fenómenos extremos

Três aeroportos emitem três vezes mais CO2 do que Paris, um deles na Europa

Prova inequívoca: Europa em crise climática ameaça alimentação, saúde e economia