Depois de duas semanas com um fluxo de cerca de 300 pessoas por dia a nadar desde Marrocos até à cidade espanhola no norte de África, Ceuta acaba de enfrentar uma verdadeira avalanche, com entradas ilegais que já rondam as 2 000 pessoas.
Voltam a repetir-se as mesmas imagens na costa de Ceuta. Grupos de pessoas chegam à praia do Tarajal a nado ou apoiados por bóias, sob o olhar dos agentes da Guardia Civil, que em vários momentos se viram ultrapassados pelo número de chegadas. Numa das sequências mais comentadas, abre-se uma porta junto à fronteira e dezenas de pessoas começam a correr para o interior da cidade.
Na areia ficam os vestígios da travessia: barbatanas, bóias, fatos de neopreno. A maioria são homens jovens, embora também tenham sido registadas mulheres e menores entre os que chegaram nos últimos dias.
Aponta o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, para uma média recente de cerca de 300 entradas diárias por mar e alerta que o número continua a aumentar. Nos últimos doze meses, mais de 60 pessoas morreram a tentar esta travessia.
O próprio dispositivo de controlo cedeu em alguns pontos. Após a chegada de cerca de 2 000 pessoas na última semana, várias centenas que permaneciam retidas pela Guardia Civil no recinto do Tarajal, onde lhes eram aplicados os primeiros protocolos, conseguiram fugir correndo em direção à cidade. A falta de efetivos suficientes explicaria, segundo fontes ouvidas na zona, a dificuldade em conter um grupo tão numeroso.
Pedido de emergência nacional e resposta do governo
Perante o aumento sustentado das entradas, Vivas pediu ao Executivo espanhol que declare a emergência nacional e assuma o comando único da gestão da crise na cidade autónoma. O pedido inclui recursos adicionais e financiamento para fazer face ao que descreve como um colapso dos serviços locais.
O Ministério do Interior respondeu afastando essa hipótese. De acordo com fontes do ministério, a legislação estatal de proteção civil não contempla os fluxos migratórios como um risco dentro do Sistema Nacional de Proteção Civil, pelo que não é possível ativar esse mecanismo nem os planos especiais associados. O ministro Fernando Grande-Marlaska prevê deslocar-se a Ceuta para se reunir com as autoridades locais e avaliar a situação no terreno.
Fonte do Interior acrescenta, além disso, que redes de tráfico de pessoas estarão a aproveitar uma recente sentença judicial para impulsionar o fluxo de migrantes indocumentados, maioritariamente jovens.
A decisão estipula que quem entra a nado, sem forçar qualquer elemento físico da vedação, não preenche o requisito que permite aplicar a rejeição na fronteira sem abertura de processo individual, o que deixa fora do mecanismo de devolução imediata uma boa parte dos que cruzam hoje pelo Tarajal.
Mas, entretanto, os governos marroquino e espanhol confirmaram um acordo que permite extraditar os migrantes que chegaram nos últimos dias.
Marrocos aponta organizações criminosas
A embaixada de Marrocos em Madrid atribuiu a entrada maciça a organizações criminosas dedicadas ao tráfico de seres humanos e ao tráfico ilícito de migrantes, e classificou como exemplar a colaboração com Espanha em matéria migratória. Fontes diplomáticas marroquinas insistem que as tentativas recentes de entrada irregular não decorrem de qualquer vontade das autoridades de Rabat de facilitar estes movimentos.
Fontes da Guardia Civil em Ceuta, porém, relativizam o alcance dessa cooperação. Garantem que o apoio da Gendarmaria marroquina no terreno é superficial e não chega para conter a pressão na fronteira, apesar de a Delegação do Governo defender que existe uma colaboração ativa por parte marroquina.
Espanha e Marrocos acordaram esta quinta-feira reforçar a coordenação entre os dois países e rever os procedimentos para agilizar, tanto quanto possível, a entrega das pessoas que entraram ilegalmente em Ceuta. Para já, não foi fixado qualquer calendário concreto para a aplicação dessas medidas.