Mais de cinco milhões de robots industriais trabalham hoje em fábricas no mundo, um máximo histórico, enquanto a Boston Dynamics adia a bolsa e reguladores chineses travam IPO de humanoides, evidenciando o fosso entre máquinas úteis e humanoides mediáticos
Subiu 9% no ano passado o parque mundial de robôs industriais em operação, para cerca de 5,08 milhões de unidades, indicou a Federação Internacional de Robótica (IFR) no relatório anual World Robotics, publicado na última quinta-feira.
Com sede em Frankfurt, a IFR é uma organização sem fins lucrativos que acompanha o setor há quase três décadas e representa mais de 3.000 entidades em todo o mundo.
Segundo o relatório, as instalações anuais de robôs industriais aumentaram 11%, ultrapassando pela primeira vez as 600.000 unidades e alcançando 603.000.
“A automação industrial está a avançar a grande velocidade”, afirmou Jane Heffner, presidente da IFR, acrescentando que “a nova fasquia de cinco milhões de robôs em funcionamento em fábricas em todo o mundo é mais do dobro do número registado há sete anos. O crescimento mais forte está a verificar-se na Ásia, seguido pelas Américas. A Europa está a avançar mais lentamente”.
Europa avança com mais cautela
Fica evidente nos números o ritmo mais lento de crescimento na Europa.
Em 2025, o parque de robôs em operação na UE ultrapassou pela primeira vez as 700.000 unidades, chegando a 712.000 e representando 84% de todos os robôs em funcionamento na Europa.
“O setor industrial da UE tem investido de forma significativa em automação”, afirmou Heffner. O parque aumentou mais de 80% desde 2015, quando se situava nas 390.000 unidades.
Por agora, o crescimento estagnou.
Em toda a UE, as novas instalações caíram 11% em 2025, para 60.500 unidades, numa altura em que noutros mercados aceleraram. A taxa de crescimento anual composta a cinco anos do bloco ficou em 3%, um valor relativamente modesto.
A Alemanha continua a ser, de longe, o maior mercado europeu, concentrando 41% das instalações da UE. Mas o número de robôs aí instalados desceu 8%, para menos de 25.000, à medida que o seu setor automóvel, ainda o maior cliente individual, continua a recuar.
Itália, França e Espanha seguem-se, cada uma a adicionar entre 4.300 e 7.800 robôs, com quedas de dois dígitos nas instalações em todos os três países.
Entretanto, a China ampliou a vantagem no mesmo período, instalando 354.000 robôs, mais 20%, e representando agora 59% das instalações a nível mundial.
Os Estados Unidos ultrapassaram também o Japão, tornando-se o segundo maior mercado mundial, com quase 38.500 unidades instaladas, mais 12%.
Humanoides enfrentam teste de realidade
Os humanoides continuam a ser um nicho muito pequeno face aos robôs industriais já consolidados.
Segundo a IFR, num comunicado separado, venderam-se apenas cerca de 7.000 unidades em todo o mundo no ano passado para uso industrial e profissional, a primeira vez que a federação acompanha esta categoria.
Muitos foram adquiridos para gerar dados de treino para modelos de IA, mais do que para executar trabalho, e os fabricantes de automóveis que os testam costumam operar menos de dez unidades.
O Bank of America prevê, ainda assim, 90.000 expedições de humanoides este ano e 1,2 milhões até 2030.
A distância entre ambição e realidade começa também a notar-se nos mercados financeiros.
É pouco provável que a Boston Dynamics, detida pela Hyundai, avance com uma entrada em bolsa no próximo ano, já que o seu humanoide Atlas ainda não foi aplicado em larga escala e a empresa continua sem lucro, afirmou este mês um alto responsável da Hyundai.
Na China, os reguladores terão recorrido a orientações informais para travar ofertas públicas iniciais de empresas de humanoides, depois de as ações do fabricante de robôs Unitree terem disparado mais de cinco vezes na estreia em Xangai, em 19 de agosto, e caído depois 55% face ao máximo.
Até Elon Musk tem sido invulgarmente franco sobre as dificuldades do seu próprio programa Optimus na Tesla.
“Este vai ser o produto mais difícil de escalar na produção que alguma vez fizemos na Tesla, porque tudo no robô é novo”, disse Musk aos investidores na conferência de resultados do segundo trimestre da Tesla, acrescentando que “não há cadeia de abastecimento”.
Onde está o verdadeiro valor
Um relatório publicado este ano pela Arthur D. Little, a mais antiga consultora de gestão do mundo, com sede em Bruxelas, sublinha a mesma ideia.
“Os robôs humanoides vão captar atenção; a IA física especializada vai captar valor”, lê-se no documento, que utiliza o termo IA física como conceito abrangente para máquinas, dos braços robóticos aos carros autónomos, capazes de perceber, decidir e agir no mundo real.
Esse mercado mais amplo é estimado em cerca de 18 mil milhões de dólares (15,8 mil milhões de euros) atualmente, dos quais os humanoides representam apenas entre 2 mil milhões de dólares (1,75 mil milhões de euros) e 3 mil milhões de dólares (2,63 mil milhões de euros), prevendo-se que chegue a entre 60 mil milhões de dólares (52,7 mil milhões de euros) e 100 mil milhões de dólares (87,9 mil milhões de euros) até 2030.
Segundo o relatório, muitas demonstrações com humanoides “são falsas, geradas por IA ou fortemente encenadas”, enquanto as reais mostram frequentemente rotinas pré-gravadas ou operação remota por humanos.
Ambientes estruturados, como fábricas e armazéns, são, defende o estudo, o ponto ideal, onde robôs com rodas e braços fixos se vão expandir primeiro, por serem mais baratos e mais fáceis de adaptar a tarefas específicas.
“Porque haveríamos de o limitar a imitar a forma humana...?”, questiona Dave Grant, presidente executivo da PickNik Robotics, citado no relatório.
Destreza ao nível humano, autonomia fiável fora de ambientes controlados e a ausência de uma “killer app” continuam a ser grandes limitações para os humanoides, a par de questões de responsabilidade e seguro ainda por resolver.
Na fábrica de Erlangen, a Siemens tem testado um robô para tarefas de logística, e a BMW está a introduzir um humanoide na produção de automóveis e baterias. Mas estes ensaios coexistem com a conclusão da IFR, que sugere que a maioria dos humanoides permanece em fases de protótipo ou projeto-piloto, enquanto os robôs industriais convencionais continuam a ser mais económicos para trabalho em fábrica.
Assim, a história da robótica mundial deste ano não é sobre humanoides, mas sobre um aumento mais lento e constante de máquinas que já funcionam.