Operadores avaliam a Anthropic em mais de 2 biliões de dólares (1,73 biliões de euros) nos mercados pré-IPO, mais do dobro da última ronda privada, enquanto aguardam o prospeto S-1, que poderá abrir caminho à maior entrada em bolsa de sempre.
Investidores em criptoativos estão a atribuir à Anthropic uma valorização implícita mais de 1 bilião de dólares (866 mil milhões de euros) acima do preço da última ronda de financiamento, antes de os investidores em bolsa terem sequer visto as suas contas.
A empresa por detrás do Claude entregou confidencialmente a documentação para a sua oferta pública inicial (IPO) e escolheu o Nasdaq para a operação.
Falta agora a divulgação pública do documento S‑1, o dossiê de registo oficial que uma empresa norte‑americana apresenta à Securities and Exchange Commission (SEC).
Até lá, o único preço em tempo real da Anthropic vem de um nicho do mercado de criptoativos onde a especulação pré‑IPO corre solta e está muito acima de qualquer valor que a empresa alguma vez tenha acordado com investidores.
A última valorização acordada foi de 965 mil milhões de dólares (836 mil milhões de euros), fixada quando uma ronda de financiamento Série H de 65 mil milhões de dólares (56 mil milhões de euros) foi concluída no final de maio, liderada pela Altimeter Capital, Dragoneer, Greenoaks e Sequoia.
Já era um número extraordinário para uma empresa fundada em 2021 por Dario e Daniela Amodei e seguia‑se a uma valorização de 61,5 mil milhões de dólares (53,3 mil milhões de euros) pouco mais de um ano antes, o que representa quase um aumento de 16 vezes em cerca de 12 meses.
As receitas têm crescido quase ao mesmo ritmo.
A taxa de receitas anualizadas da Anthropic ultrapassou os 65 mil milhões de dólares (56 mil milhões de euros) no final de julho, impulsionada pela adoção do Claude por grandes empresas.
As perdas também são enormes, devendo chegar perto dos 42 mil milhões de dólares (36,4 mil milhões de euros) em 2025, refletindo o custo de treinar modelos de fronteira. A Amazon comprometeu‑se a investir até 33 mil milhões de dólares (28,6 mil milhões de euros) na empresa, enquanto a Anthropic se comprometeu a gastar mais de 100 mil milhões de dólares (86,6 mil milhões de euros) em tecnologias da AWS na próxima década.
Com estes números, os investidores já apontam para valores bastante superiores à avaliação da última ronda.
Várias informações apontam para uma valorização alvo na IPO de 2 biliões de dólares (1,73 biliões de euros), com a Goldman Sachs, a JPMorgan e a Morgan Stanley a liderarem uma oferta que deverá captar mais de 60 mil milhões de dólares (52 mil milhões de euros).
Mercado pré‑IPO já negoceia Anthropic
Contratos de futuros perpétuos que acompanham a valorização pré‑IPO da Anthropic estão atualmente a ser negociados na Hyperliquid, a maior plataforma descentralizada de derivados, onde a capitalização bolsista implícita atingiu um máximo histórico de cerca de 2,36 biliões de dólares (2,05 biliões de euros) e se situa perto de 2,15 biliões de dólares (1,86 biliões de euros) à data de escrita deste artigo.
Equivale a cerca de 2,2 vezes a valorização da Série H.
Heng Yu Lee, sócio da market maker DWF Labs, ativa nestes instrumentos, rejeita a ideia de que é a alavancagem, e não a convicção, a justificar este prémio.
“Seja com ou sem alavancagem, toda a gente que negoceia no mercado pré‑IPO representa procura real ao preço que está refletido”, disse à Euronews, acrescentando que “o prémio incorpora informação pública disponível, como estimativas de receitas e a procura esperada pelas ações.”
Estes contratos serão também os primeiros instrumentos a reagir quando o documento for publicado, negociando 24 horas por dia enquanto os mercados acionistas estão fechados.
“Num momento como o da divulgação do S‑1, é habitual ver o volume disparar e os preços oscilarem fortemente à medida que o mercado digere a informação”, explicou Lee.
Ainda assim, o mercado continua pequeno face ao ativo que está a avaliar.
“Neste momento, o mercado não é muito profundo, com apenas 6 milhões de dólares de volume em 24 horas e 31 milhões de dólares de posições abertas na Hyperliquid”, afirmou Lee, acrescentando que a liquidez deverá melhorar à medida que a entrada em bolsa se aproxima, já que é provável que mais investidores entrem.
Lee também é franco quanto ao peso que se deve dar a estes números.
“Por agora, eu não confiaria demasiado na avaliação absoluta, porque ainda não existe um S‑1 público”, afirmou, esclarecendo que “a direção dos movimentos de preços costuma, mesmo assim, refletir com precisão a mudança de sentimento em relação à empresa à medida que as coisas evoluem”.
Ano cheio de IPOs de IA
Quando a Anthropic apresentar o S‑1 publicamente, 2026 ficará definitivamente marcado como o ano das IPOs de IA.
Tudo começou com a fabricante de chips Cerebras Systems, que desenvolve processadores em escala de wafer apresentados como alternativa aos da Nvidia. A empresa entrou no Nasdaq em maio, após dois adiamentos, captando 5,55 mil milhões de dólares (4,76 mil milhões de euros) a 185 dólares por ação, acima da faixa de preço revista.
As ações estrearam 89% acima do preço de oferta e fecharam o primeiro dia perto dos 311 dólares, dando à empresa uma valorização de cerca de 67 mil milhões de dólares (58 mil milhões de euros), face aos 23 mil milhões de dólares (20 mil milhões de euros) de há três meses.
O apetite dos investidores por um concorrente credível da Nvidia revelou‑se intenso, embora o entusiasmo tenha arrefecido rapidamente após um primeiro relatório de resultados dececionante. A Cerebras negoceia atualmente a uma valorização de cerca de 43,7 mil milhões de dólares (37,8 mil milhões de euros).
Seguiu‑se a SpaceX, que entrou em bolsa em junho, levantando mais de 85 mil milhões de dólares (73,6 mil milhões de euros) numa operação em que a valorização chegou a tocar, por breves momentos, os 2,8 biliões de dólares (2,4 biliões de euros), antes de recuar para cerca de 1,95 biliões de dólares (1,69 biliões de euros).
Também a OpenAI tinha uma IPO prevista para este ano e já tinha entregue a documentação de forma confidencial, mas recuou entretanto. A empresa tem uma valorização privada de 852 mil milhões de dólares (738 mil milhões de euros), definida numa ronda de 122 mil milhões de dólares (105 mil milhões de euros) em março.
O CEO Sam Altman disse à revista Fortune, no sábado, que entrar em bolsa este ano seria “desaconselhável”, afastando 2026 e recusando comprometer‑se com 2027. Explicou que a empresa tem “muito trabalho pela frente” em matéria de segurança e alinhamento e que ser privada torna isso mais fácil.
Os comentários de Altman surgiram no mesmo dia em que o CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um ensaio intitulado “We Must Pace the Frontier”, defendendo que as empresas de IA devem abrandar deliberadamente o ritmo a que melhoram os seus modelos mais avançados.
Amodei propôs três medidas: avaliadores independentes com acesso aos sistemas de fronteira equivalente ao dos funcionários, coordenação de normas de segurança entre laboratórios em países democráticos e acordos internacionais sobre as categorias de utilização mais perigosas.
A Anthropic já se comprometeu unilateralmente com a primeira medida, e os apoios chegaram depressa: Sam Altman afirmou concordar com a necessidade de “pautar” a fronteira e Elon Musk respondeu simplesmente: “Dario tem razão”.
Já o presidente norte‑americano Donald Trump não acompanhou essa posição.
Na sua primeira resposta pública aos três CEOs, Trump, que falava na Irlanda no domingo, descartou o argumento.
“Estamos à frente da China em IA. Somos o país mais sofisticado do mundo e, francamente, quero que continue a ser assim, porque quem vencer em IA vence”, afirmou Trump, classificando alguns avisos como coisas “que não vão acontecer”.
Desde então, Trump reiterou esse argumento em várias publicações nas redes sociais.
Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China classificou os avisos como “alarmismo”.
Os mercados acusaram a troca de argumentos, com as ações da SoftBank, da Kioxia e da SK Hynix a caírem acentuadamente na segunda‑feira. Os títulos das empresas japonesa e sul‑coreana recuaram mais de 6% e 4,3%, respetivamente.
Tudo isto deixa a Anthropic numa posição delicada à medida que se aproxima daquela que poderá ser a maior entrada em bolsa alguma vez tentada nos mercados públicos.
A empresa está a pedir aos investidores em bolsa que financiem o desenvolvimento de IA de fronteira enquanto o seu fundador defende publicamente que esse desenvolvimento deve avançar mais devagar.
Não se trata necessariamente de uma contradição, já que moderar o ritmo não é parar, e a Anthropic sempre defendeu que os laboratórios focados na segurança devem estar na linha da frente, em vez de a cederem.
Ainda assim, é uma história que o documento S‑1 terá de contar de forma convincente, e a secção de fatores de risco será lida com atenção invulgar.