Loader
Encontra-nos
Publicidade

Porque é que o dinheiro europeu financia o boom da IA americana?

Arquivo - Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, fala à comunicação social numa conferência de imprensa em Frankfurt, Alemanha, 17 de abril de 2025
Arquivo - A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, fala aos jornalistas durante uma conferência de imprensa em Frankfurt, Alemanha, a 17 de abril de 2025. Direitos de autor  AP Photo/Matthias Schrader
Direitos de autor AP Photo/Matthias Schrader
De Doloresz Katanich
Publicado a
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

Famílias da zona euro aplicam centenas de mil milhões em tecnologia norte-americana. Analistas defendem que a Europa tem capital e empresas promissoras, mas poucas se tornam investimentos acessíveis para pequenos aforradores.

As poupanças europeias estão cada vez mais expostas à expansão da inteligência artificial nos Estados Unidos e até a financiá-la.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

As famílias da área do euro detêm cerca de 440 mil milhões de euros em empresas tecnológicas norte-americanas, incluindo a Nvidia e a Alphabet, segundo a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde.

Em Viena, na segunda-feira, Lagarde alertou que as poupanças europeias arriscam financiar o boom da IA nos Estados Unidos sem que a Europa receba uma parte equivalente dos benefícios económicos.

“As empresas estão a ser criadas noutros lugares”, disse. “No ano passado, os Estados Unidos produziram 59 modelos de IA considerados de referência e a China, 35. França e Reino Unido produziram um cada.”

Na Europa não falta dinheiro. O problema é canalizá-lo para empresas com potencial de crescimento.

As famílias da área do euro tinham quase 10 biliões de euros em depósitos bancários em maio de 2026, de acordo com uma nova análise do BCE publicada na terça-feira. Mantêm cerca de um terço dos seus ativos financeiros em depósitos, contra 11% nas famílias norte-americanas. Cerca de 80% das famílias da área do euro não possuem ações, obrigações nem fundos de investimento.

O BCE concluiu que recursos limitados, falta de literacia financeira, baixos níveis de confiança e preocupações com o risco afastam muitos europeus do investimento. Mais de 60% das famílias da área do euro concentram a maior parte do património em imóveis, enquanto cerca de um quarto depende sobretudo de depósitos bancários. Cerca de 10% investem de forma indireta através de produtos de pensões e seguros e apenas 4% têm uma parte relevante da sua riqueza aplicada diretamente nos mercados financeiros.

Quem na Europa procura exposição à IA investe frequentemente em empresas tecnológicas norte-americanas, muitas vezes através de fundos de investimento e planos de pensões.

Investir em tecnologia nos EUA é necessariamente um problema?

Jeremie Peloso, estratega-chefe para a Europa na BCA Research, afirmou ao Euronews Business que investir em tecnologia norte-americana não é necessariamente um problema para as famílias europeias. “As empresas tecnológicas dos EUA têm superado os índices europeus nos últimos 10 anos”, disse, sublinhando que os investimentos internacionais podem ajudar os aforradores a diversificar o risco.

Acrescentou ainda que a fraqueza do euro tem por vezes aumentado os ganhos dos investidores da área do euro em ativos denominados em dólares.

No entanto, alertou que o setor tecnológico norte-americano se tornou muito concentrado, deixando os investidores dependentes de um grupo relativamente pequeno de empresas sujeitas às mesmas forças de mercado.

Ben Barringer, responsável pela investigação em tecnologia na Quilter Cheviot, afirmou que o capital europeu foi canalizado para o exterior porque muitas das principais empresas tecnológicas mundiais nasceram e cresceram fora da Europa, oferecendo perspetivas de crescimento e retornos de investimento mais fortes.

Como financia o dinheiro europeu a IA nos EUA?

Comprar ações já existentes de uma empresa tecnológica norte-americana não lhe fornece novo capital. Mas uma procura forte por parte dos investidores pode sustentar a valorização e facilitar novas captações de fundos através da emissão de ações.

Quando os investidores de retalho europeus compram ações recém-emitidas, como aconteceu quando a SpaceX os convidou a participar na sua IPO em junho, estão a fornecer dinheiro que a empresa pode usar para investir.

Mas as ofertas públicas iniciais, por si só, dificilmente fornecem capital suficiente para manter o ritmo acelerado de investimento dos hiperescalares de IA. As maiores empresas tecnológicas têm, por isso, recorrido intensamente ao mercado obrigacionista.

Espera-se que os principais hiperescalares gastem mais de 1 bilião de dólares (870 mil milhões de euros) em investimento em capital até 2028, segundo uma análise do BCE. Inclui despesas com centros de dados, chips avançados, fornecimento de eletricidade e infraestruturas de rede.

Lagarde indicou que os grandes hiperescalares norte-americanos emitiram mais de 100 mil milhões de dólares (87 mil milhões de euros) em obrigações no ano passado e representam agora perto de um décimo da nova emissão de obrigações denominadas em euros por empresas não financeiras.

Cinco grandes hiperescalares norte-americanos têm cerca de 40 mil milhões de euros em obrigações denominadas em euros em circulação, de acordo com o BCE. Os fundos, seguradoras e regimes de pensões europeus que compram estas obrigações estão a emprestar dinheiro diretamente a empresas tecnológicas dos Estados Unidos.

Este recurso ao endividamento tem também efeitos mais amplos. A forte emissão de obrigações nos Estados Unidos pode contribuir para rendibilidades globais mais elevadas e as taxas de juro de longo prazo na área do euro tendem a acompanhar os movimentos das taxas norte-americanas.

“A Europa suportará parte do custo deste boom nos seus próprios encargos de financiamento”, afirmou Lagarde. “A questão é saber se terá também o crescimento que lhe está associado.”

Fosso de investimento em IA na Europa

Uma adoção rápida da IA pode aumentar a produtividade da área do euro em até 4% ao longo de uma década, segundo estimativas do BCE.

Mas a Europa continua muito atrás dos Estados Unidos na infraestrutura necessária para desenvolver e operar sistemas de IA. Lagarde referiu que os EUA concentram cerca de 75% da capacidade mundial de computação em IA, contra aproximadamente 5% na Europa.

A Comissão Europeia estima que, até 2036, a diferença entre a procura de capacidade de centros de dados e a oferta disponível na UE possa atingir 19 gigawatts. Eliminá-la poderá custar até 600 mil milhões de euros.

Prevê-se que, em 2026, as empresas da área do euro destinem cerca de 10% do investimento à IA, enquanto o endividamento ligado à IA representou aproximadamente um quarto do aumento do crédito às empresas no primeiro trimestre, segundo estimativas do BCE.

A Europa conta com empresas privadas de IA promissoras, mas os investidores comuns têm muito mais facilidade em aceder aos gigantes tecnológicos cotados nos Estados Unidos.

“Não há falta de capital na Europa, apenas um problema de canalização de fundos”, afirmou Peloso.

Acrescentou que a Europa tem também um número considerável de empresas tecnológicas, mas relativamente poucas estão cotadas em bolsa. Isso deixa os investidores de retalho – e os fundos limitados aos mercados públicos – com uma escolha reduzida de investimentos tecnológicos europeus.

A Mistral ilustra simultaneamente o potencial da Europa e o seu problema de investimento. A empresa francesa de IA angariou 3 mil milhões de euros na semana passada, na maior operação de captação de capital por uma tecnológica europeia, mas os pequenos aforradores não puderam participar diretamente porque as suas ações não são negociadas em mercado público.

Barringer afirmou que, simplesmente, incentivar os investidores a canalizar mais dinheiro para a IA europeia seria tratar o sintoma e não a causa de fundo.

“O desafio não é apenas a falta de capital disponível, é criar condições para que surjam mais empresas europeias de nível mundial capazes de competir à escala global”, disse.

Isso exigiria mercados de capital de risco mais profundos, maior disponibilidade para financiar empresas de maior risco e regras que apoiem a inovação mantendo uma supervisão adequada.

“Em última análise, o investimento seguirá a oportunidade”, acrescentou Barringer.

Consegue a Europa redirecionar mais das suas poupanças?

A principal resposta da UE é a União das Poupanças e dos Investimentos. Pretende facilitar o investimento das famílias e o acesso das empresas europeias a financiamento além-fronteiras.

Entre as medidas propostas contam-se contas de investimento mais simples, potencialmente com vantagens fiscais, alterações às pensões complementares e esforços para reduzir o custo de operar em diferentes mercados financeiros europeus.

A UE lançou também a sua Lei das Listagens, concebida para tornar mais barato e simples o acesso das empresas à bolsa. Prevê documentação de admissão à cotação mais simples e regras que permitem aos fundadores manter maior controlo após a entrada em bolsa.

Estas reformas podem ajudar mais empresas tecnológicas europeias a crescer e, com o tempo, a tornarem-se acessíveis aos investidores comuns. Mas não garantem que as famílias europeias as escolham em vez de empresas norte-americanas com perspetivas mais fortes.

Peloso afirmou que canalizar mais poupanças para as empresas será um processo de vários anos, que exige uma regulação mais simples, um ambiente mais favorável às start-ups, mercados de capital de risco e de private equity mais profundos e incentivos mais fortes ao investimento das famílias.

Barringer defendeu, de forma semelhante, que as políticas devem concentrar-se em criar empresas mais robustas e não apenas em direcionar poupanças para um setor preferencial.

“Se as bases não forem suficientemente sólidas para suportar a inovação, simplesmente canalizar mais poupanças para o setor dificilmente resolverá o problema”, afirmou.

A Europa parece, assim, dispor de capital – e de um número crescente de empresas tecnológicas promissoras. O desafio é ajudar esses negócios a expandir-se, a tornarem-se acessíveis em mercados públicos e a oferecer oportunidades suficientemente atrativas para competir com os gigantes tecnológicos dos Estados Unidos.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

Estados Unidos: Fed deverá subir juros apesar dos apelos de Trump

Onde a Europa gasta o dinheiro: retrato da despesa pública no continente

Porque é que a Grécia se financia mais barato do que a França