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Crise da dívida pública francesa explicada: quão perigosa pode ser?

Estudantes queimam lixo durante protesto para exigir mais recursos na escola, em Lille, França, quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Estudantes queimam lixo durante um protesto para exigir mais recursos para a escola, em Lille, França, quinta-feira, 1 de outubro de 2026. -  Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved
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De Piero Cingari
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Custos de financiamento de França atingem máximo desde 2002 e diferença para a Alemanha é a maior desde 2011. O que impulsiona a crise da dívida francesa e até onde pode chegar?

Durante grande parte da última década, emprestar dinheiro à França era visto como quase tão seguro como emprestar à Alemanha.

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Essa perceção está a desfazer-se, e depressa.

Na semana passada, os investidores passaram a exigir até 5% ao ano para emprestar ao Estado francês a dez anos. A França não enfrentava custos de financiamento tão elevados nas obrigações a dez anos desde julho de 2002.

O prémio adicional exigido pelos investidores para deter dívida francesa em vez de alemã subiu para o nível mais alto desde a crise da dívida da zona euro de 2011-2012.

A França paga agora mais para se financiar do que a Itália e a Grécia, dois países que estiveram no centro dessa crise.

As consequências vão muito além do mercado obrigacionista. Os custos de financiamento do Estado influenciam as taxas do crédito à habitação e dos empréstimos às empresas, bem como a fatura de juros que todos os contribuintes franceses acabam por suportar.

Como chegou aqui a segunda maior economia da zona euro e até onde pode ir?

Dívida pública francesa dispara para 119% do PIB

A raiz do problema é simples.

Todos os anos, o Estado francês gasta muito mais do que arrecada em impostos e recorre ao endividamento para cobrir a diferença.

Este ano, o desfasamento, o défice, deverá atingir 5,4% da produção económica anual do país, o seu produto interno bruto (PIB).

As regras europeias fixam em 3% do PIB o limite para o défice.

Ano após ano, esses défices acumulam-se em forma de dívida.

A dívida pública francesa atingiu 3,6 biliões de euros no segundo trimestre de 2026. Isso corresponde a 119% do PIB, acima dos 115,6% registados um ano antes, segundo o INSEE, o instituto nacional de estatística.

Os problemas começam quando os investidores começam a duvidar do plano de reembolso.

Porque é que os mercados estão a perder a paciência com Paris

A França tem um plano. O problema é o histórico.

Na quinta-feira passada, o governo minoritário do primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou o esboço do Orçamento para 2027, que prevê cerca de 54 mil milhões de euros em poupanças de despesa e receitas adicionais.

O objetivo é reduzir o défice para 5% do PIB no próximo ano, face aos 5,4% esperados em 2026.

Cerca de dois terços do ajustamento viriam da contenção da despesa e um terço de aumentos de impostos e contribuições.

Entre as medidas propostas contam-se poupanças de 6 mil milhões de euros tanto nas pensões como na saúde.

A despesa do Estado, excluindo juros e defesa, ficaria congelada em termos nominais, comprimindo os orçamentos depois da inflação.

Em vez de sossegar os investidores, o plano acabou por inquietá-los.

Lecornu não dispõe de maioria no Parlamento, a Assembleia Nacional começa a debater o texto a 13 de outubro e há eleições presidenciais marcadas para a primavera de 2027.

Stéphane Colliac, economista do BNP Paribas, lembra que a França já falhou as metas orçamentais em três dos quatro anos entre 2023 e 2026.

Com os encargos de juros e a despesa com defesa em alta, o governo terá de encontrar poupanças equivalentes a cerca de 1% do PIB apenas para reduzir o défice em 0,4 pontos percentuais, calcula Colliac.

Também a oferta de dívida aumenta a pressão.

O Tesouro francês prevê emitir 340 mil milhões de euros em dívida em 2027, mais 20 mil milhões do que este ano, à medida que vencem obrigações emitidas durante a pandemia.

Mesmo se tudo correr como previsto, Colliac antecipa que a dívida suba para 121% do PIB em 2027 e só estabilize nos 124% em 2032.

Enrique Díaz-Alvarez, economista-chefe da Ebury, afirma que “o impasse político em Paris continua longe de estar resolvido”, sublinhando que as propostas foram recebidas com cepticismo pelo conselho orçamental.

Protestos estudantis contra a falta de financiamento das escolas vieram agravar a pressão sobre o governo.

Porque é que o risco soberano francês dispara agora

Para lá da subida do rendimento das obrigações francesas a dez anos para 5%, o alargamento do diferencial face à Alemanha mostra que os investidores estão cada vez mais preocupados com a dívida francesa.

O prémio em relação às Bunds alemãs equivalentes atingiu 152 pontos base, ou 1,52 pontos percentuais, voltando a níveis associados à crise da zona euro de 2011.

Os estrategos do Intesa Sanpaolo, liderados por Gian Marco Salcioli, defendem que a velocidade do movimento é mais importante do que o nível atingido.

Quando os rendimentos disparam tão depressa, explicam, o receio desloca-se do preço do financiamento para o risco de não reembolso integral, e a França é o exemplo mais claro.

“O movimento tende a transformar o risco de taxa de juro num risco mais vasto, antes de mais nada risco de crédito”, escreveu Salcioli numa nota a clientes.

Díaz-Alvarez descreveu esta evolução como “o maior alargamento semanal desse spread em dezassete anos”.

Crise pode alastrar à Europa?

Já há sinais de alerta.

Os estrategos do ING Michiel Tukker e Benjamin Schroeder referem que os spreads de Itália e da Grécia face às Bunds alemãs aumentaram quase 15 pontos base durante a turbulência francesa.

“A dinâmica da dívida deixou de ser vista apenas como um problema francês”, escreveram.

Os mercados cambiais também estão a reagir.

Os analistas cambiais do Intesa, Luca Cigognini e Fabio Vacchelli, assinalam que o euro tocou 1,1161 dólares na negociação asiática de segunda-feira, apesar dos dados mais fracos do emprego nos Estados Unidos.

Alertam que as preocupações orçamentais em França podem empurrar a moeda única para perto de 1,10 dólares.

Para o Banco Central Europeu (BCE), isso torna o equilíbrio mais delicado.

A inflação da zona euro subiu em setembro para 3,8%, o que reforça o argumento a favor de mais aperto monetário. Ao mesmo tempo, as tensões nos mercados de dívida pública dão peso à opção de uma pausa e de eventual apoio.

“Uma pausa do BCE pesaria sobre o euro do ponto de vista do diferencial de taxas, embora a estabilização dos mercados de dívida voltasse a atrair fluxos para a moeda”, afirma Ana Munera, diretora de estratégia de mercados globais do BBVA.

O BCE dispõe de um instrumento específico de compra de obrigações, o Transmission Protection Instrument, para contrariar disrupções injustificadas no mercado.

Mas essa intervenção depende, entre outros critérios, da sustentabilidade da dívida e do cumprimento das regras orçamentais.

Não se trata de uma garantia incondicional sobre os custos de financiamento de França.

Estas compras permitem atenuar diferenças perturbadoras nos custos de financiamento entre países sem obrigar o BCE a baixar as suas taxas diretoras.

Quão grave é o risco?

O risco mais imediato é o impasse político impedir a aprovação do Orçamento em França.

Munera, do BBVA, alerta que Lecornu pode não conseguir reunir apoio parlamentar suficiente e ser forçado a abandonar o cargo.

Sem um orçamento aprovado, a França voltaria a recorrer a uma lei de emergência para assegurar o financiamento essencial do Estado, como aconteceu em 2025 e 2026.

Cada novo adiamento tem um custo.

Colliac, do BNP Paribas, estima que, se cortes significativos no défice forem adiados para 2028, a dívida poderá atingir 126% do PIB em 2032.

Com necessidades de financiamento de 340 mil milhões de euros no próximo ano, cada décima adicional na taxa de juro que a França paga acumula-se rapidamente.

Há, contudo, motivos para evitar o pânico.

A França não é um país excluído dos mercados. É um país cujos financiadores querem ser melhor remunerados e querem ver um plano em que possam acreditar.

O primeiro teste parlamentar a essa credibilidade começa a 13 de outubro, quando a Assembleia iniciar o debate orçamental.

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