O presidente da Ucrânia tem repetidamente alertado para o reforço dos laços militares entre Moscovo e Pyongyang, pedindo mais sistemas ocidentais de defesa aérea.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, afirmou esta terça-feira que a Rússia disparou mísseis norte-coreanos num ataque durante a noite que matou seis pessoas e feriu outras 19 na cidade de Zaporizhzhia, no sudeste do país.
“A cidade foi atingida por mísseis balísticos norte-coreanos, Zircon e bombas aéreas guiadas”, disse, numa referência ao sistema russo de mísseis de cruzeiro hipersónicos Zircon.
Zelenskyy tinha advertido na segunda-feira à noite que a Rússia se preparava para estacionar mais tropas norte-coreanas no seu território e já recebera mais mísseis balísticos de Pyongyang.
“É a primeira vez que não conseguem fazer a guerra sem reforços da Coreia do Norte”, afirmou no seu discurso diário, referindo-se às forças russas.
“Estão agora a preparar-se para destacar um contingente adicional de norte-coreanos no seu território. Receberam, imaginem, mais mísseis balísticos da Coreia do Norte”, acrescentou.
Os ataques russos durante a noite atingiram Kiev, Zaporíjia e Dnipro, segundo as autoridades regionais.
O ministério da Defesa russo afirmou que as suas forças “realizaram um ataque em grupo com armas terrestres de alta precisão, atingindo instalações militar-industriais e centros de transporte e logística nas cidades de Kiev e Zaporíjia."
Em Zaporíjia, Ivan Fedorov, chefe da administração militar regional, disse que as forças russas lançaram um ataque “massivo” com recurso a mísseis e bombas aéreas guiadas.
“Seis pessoas foram mortas e outras 19 ficaram feridas”, escreveu Fedorov no Telegram, atualizando um balanço anterior de cinco mortos.
Na região oriental de Dnipro, ataques russos com drones e artilharia em cinco distritos mataram três pessoas e feriram outras cinco, informou no Telegram o chefe da administração militar regional, Oleksandr Ganzha.
Jornalistas em Kiev disseram ter ouvido uma série de explosões pouco depois da meia-noite, após as autoridades emitirem um alerta de mísseis.
O autarca Vitali Klitschko afirmou nas redes sociais que a capital estava “sob ataque de mísseis balísticos”.
O serviço de emergência ucraniano indicou que um armazém ficou em chamas e uma pessoa ficou ferida.
Zelenskyy tem repetidamente alertado para o aprofundar dos laços militares entre Moscovo e Pyongyang, muitas vezes ao mesmo tempo que pede mais sistemas ocidentais de defesa aérea.
Só alguns sistemas de defesa aérea, incluindo os Patriots norte-americanos, conseguem intercetar mísseis balísticos.
A falta de intercetores PAC-3 agravou-se desde a guerra lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão, em fevereiro.
Ao mesmo tempo, a Ucrânia tem intensificado os ataques contra cidades russas longe da fronteira.
No fim de semana, Zelenskyy afirmou que tinha sido tomada a decisão de destacar entre 30 mil e 50 mil norte-coreanos em território russo. Não explicou como obteve estes números.
Desde que o presidente russo, Vladimir Putin, e o líder norte-coreano, Kim Jong Un, assinaram um pacto de defesa mútua em junho de 2024, a Coreia do Norte tornou-se um dos parceiros militares mais próximos da Rússia.
Moscovo utilizou as tropas norte-coreanas numa contra-ofensiva, mais tarde nesse ano, que expulsou as forças ucranianas da região fronteiriça de Kursk.
Ofensiva de Kursk
Cerca de 600 militares norte-coreanos foram mortos a combater pela Rússia contra as forças ucranianas, informou no ano passado aos deputados o serviço de informações da Coreia do Sul.
A Coreia do Norte registou cerca de 4 700 baixas, entre mortos e feridos, disse o Serviço Nacional de Informações (NIS) sul-coreano a uma comissão parlamentar.
Cerca de 2 000 soldados feridos foram repatriados para a Coreia do Norte por via aérea ou ferroviária entre janeiro e março, de acordo com o NIS.
Os soldados mortos foram cremados na Rússia antes de os restos mortais serem enviados de volta ao país, acrescentou o serviço de informações.
Esta avaliação surgiu depois de Pyongyang ter confirmado, pela primeira vez, que enviara tropas para ajudar a Rússia a reconquistar partes da região de Kursk, que a Ucrânia tinha passado a controlar numa incursão surpresa.
Entretanto, a economia norte-coreana dava sinais de recuperação à medida que Pyongyang aprofundava os laços comerciais e diplomáticos com a Rússia e a China, indicou o ministério da Unificação da Coreia do Sul num relatório divulgado em abril.
Durante anos, o rígido planeamento socialista e os elevados gastos militares travaram o crescimento na Coreia do Norte, tal como as vastas sanções internacionais destinadas a impedir o desenvolvimento de armas nucleares.
A China tem sido há muito tempo o principal apoiante económico deste país diplomaticamente isolado, embora Pyongyang também se tenha aproximado de Moscovo desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022.
Essas relações estão agora a impulsionar uma melhoria das perspetivas económicas, com o Norte a parecer ter “superado um período de contração” e “entrado numa fase de recuperação gradual”, segundo o ministério sul-coreano.
Analistas afirmam que o regime norte-coreano está igualmente a receber apoio económico e tecnológico militar da Rússia em troca do envio de tropas e munições para ajudar na guerra contra a Ucrânia.