Sem filhos, Klaus-Michael Kühne vivia num cantão suíço sem imposto sucessório. À sua morte, os 42,2 mil milhões de euros passaram, livres de taxas, para uma fundação com décadas, que se tornou das mais ricas da Europa.
Magnata da logística e, em tempos, o homem mais rico da Alemanha, Klaus-Michael Kühne passou a vida a comprar e a resgatar empresas em dificuldades. Foi uma estratégia que lhe permitiu construir o transitário aéreo e marítimo mais bem-sucedido do mundo, a Kühne+Nagel.
Ao longo desse percurso, adquiriu também participações significativas em três outros gigantes do transporte, incluindo a Hapag-Lloyd, uma das maiores companhias de transporte marítimo de contentores do mundo, e a Lufthansa, a companhia aérea de bandeira alemã.
Chegou ainda a deter temporariamente um quinto da VTG, a maior empresa privada de aluguer de vagões da Europa, comprando em 2016 por 160 milhões de euros e vendendo dois anos depois por 300 milhões.
Acabou por ter mais um negócio em carteira, que foi concretizado no próprio momento da sua morte.
Kühne não deixou filhos nem linhas sucessórias diretas definidas, pelo que, quando morreu em 24 de agosto de 2026, a fortuna de 49 mil milhões de dólares (42,2 mil milhões de euros) não teve de passar por testamento, tribunal ou repartição de finanças.
Foi transferida, como estava planeado há décadas, para a Fundação Kühne, instituição de caridade que criou com os pais há cerca de 50 anos.
De um dia para o outro, a fundação tornou-se uma das maiores da Europa.
Suíça: cantão sem imposto sobre heranças
O magnata alemão do transporte marítimo e da logística, que transformou a Kühne+Nagel num gigante global do transporte de mercadorias, morreu aos 89 anos em Schindellegi, uma aldeia com cerca de 5000 habitantes no cantão de Schwyz, um dos dois cantões suíços que não cobram qualquer imposto sucessório, seja aos herdeiros, seja a terceiros.
Kühne nunca escondeu a frustração com o sistema fiscal e económico alemão. Numa entrevista de 2022 à cadeia pública NDR, afirmou de forma direta que o Estado “não consegue gerir a economia como deve ser”.
Esse descontentamento é apontado como uma das razões pelas quais passou a organizar os seus assuntos pessoais e empresariais a partir da Suíça, tirando também partido da ausência total de imposto sucessório no cantão de Schwyz, onde residia.
A legislação suíça não obriga as empresas privadas a publicar relatórios anuais, ao contrário do que sucede na maioria dos países europeus, e a imprensa alemã estima que até 30% da verdadeira riqueza de Kühne possa não ser conhecida publicamente por esse motivo.
As fundações também não pagam imposto sucessório, porque não existe herança a tributar. Em suma, ninguém recebeu pessoalmente a fortuna de Kühne.
Em vez disso, o império nos setores marítimo, da aviação, dos químicos e do imobiliário passa a ser detido coletivamente pela entidade sem fins lucrativos, supervisionada por um conselho de curadores que integra a mulher e um pequeno círculo de conselheiros de longa data.
Kühne concentrava o império empresarial num veículo privado, a Kühne Holding, também sediada em Schindellegi. Com a sua morte, a propriedade dessa holding, e de tudo o que contém, desde a participação na Kühne+Nagel à Hapag-Lloyd e à Lufthansa, passa para a Fundação Kühne, segundo o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung.
A fundação já gere 20 organizações subsidiárias e emprega cerca de 800 pessoas.
Os próprios relatórios apontam para um orçamento de 135 milhões de francos suíços (144,6 milhões de euros) em 2026, distribuído em cerca de 42% para formação em logística, 20% para medicina, 15% para projetos climáticos, 11% para logística humanitária e 7% para cultura.
Os ativos que agora entram na fundação deverão gerar, em anos normais, rendimentos de dividendos na ordem de mil milhões de francos suíços por ano, segundo a NZZ. Mesmo que apenas parte desse montante chegue à própria fundação, o seu poder financeiro aumentará de forma significativa.
Kühne não é o primeiro magnata europeu a contornar o imposto sucessório através da filantropia e, quando os seus ativos estiverem totalmente na Fundação Kühne, a instituição ficará entre as maiores do mundo em dimensão, ainda que não no topo absoluto.
A maior é a Fundação Novo Nordisk, instituição dinamarquesa ligada à farmacêutica de sucesso Novo Nordisk, especializada em medicamentos para perda de peso, cuja holding geria cerca de 93 mil milhões de euros em ativos no final de 2025.
Logo abaixo surgem, por exemplo, a Fundação Gates, com cerca de 70,2 mil milhões de dólares (60,5 mil milhões de euros), e os Tata Trusts, da Índia, com mais de 100 mil milhões de dólares (86,2 mil milhões de euros). O Wellcome Trust britânico, fundação dedicada à investigação médica, detinha cerca de 42,8 mil milhões de dólares (36,9 mil milhões de euros) nas últimas contas divulgadas, valor que a coloca numa faixa semelhante à herança estimada que agora entra na Fundação Kühne.
A alemã Robert Bosch Stiftung, que detém 94% do grupo de engenharia Bosch, oferece um contraponto na direção oposta, com cerca de 5,5 mil milhões de euros em ativos, quase oito vezes menos do que Kühne acaba de transferir, apesar de a Bosch ser um dos nomes industriais mais reconhecidos da Alemanha.
A Fundação Carlsberg, na Dinamarca, segue um modelo semelhante ao de Kühne, detendo pouco menos de 30% das ações do grupo Carlsberg, com 77% dos direitos de voto, além de cerca de 1,55 mil milhões de euros em investimentos separados, financiados por aproximadamente um terço do dividendo anual da cervejeira.
Assim, embora a fundação de Kühne não venha a ser a maior instituição de caridade do género na Europa, posiciona-se claramente entre as dez fundações de beneficência mais ricas do mundo, à frente de nomes antigos como Bosch e em linha com o Wellcome. Construída de forma pouco habitual, quase exclusivamente a partir da decisão de um homem de não ter filhos e de viver no único lugar da Suíça onde essa opção não lhe trouxe qualquer custo fiscal.
Conglomerado financia fundação de caridade
O que entra efetivamente na fundação não é apenas um saldo bancário.
São a participação maioritária de Kühne na Kühne+Nagel, uma posição de 30% na transportadora marítima Hapag-Lloyd, 15% no grupo químico Brenntag, uma fatia da operadora de autocarros Flix, mais de um quinto da Lufthansa e ativos imobiliários que incluem o hotel Fontenay, em Hamburgo.
Segundo o índice Billionaires da Bloomberg, o património líquido de Kühne mais do que quadruplicou na última década, atingindo 49 mil milhões de dólares (42,2 mil milhões de euros), graças sobretudo a uma participação de quase 60% na própria Kühne+Nagel.
Isso levanta uma questão ainda sem resposta clara, o que faz uma fundação de caridade com uma participação de controlo num império de transporte de contentores numa altura em que o setor atravessa a maior vaga de consolidação dos últimos anos?
Nos últimos anos, o gigante francês da navegação e logística CMA CGM selou um acordo com a FedEx, a MSC avançou para o negócio dos petroleiros e a easyJet aceitou uma oferta de aquisição. As participações de Kühne situam-se no meio de todo esse movimento.
A abordagem muito específica da Suíça à tributação, ou à ausência dela, quase alterou por completo as perspetivas da Fundação Kühne.
Em novembro, o país rejeitou uma proposta de criação de um imposto federal sobre heranças e doações de 50% para patrimónios superiores a 50 milhões de francos suíços (53,4 milhões de euros), medida dirigida em cheio aos residentes ultra-ricos que a Suíça tem vindo a atrair há décadas.
A ministra das Finanças, Karin Keller-Sutter, afirmou em declarações aos jornalistas em Berna, após o resultado da votação, que a proposta teria “desequilibrado o nosso sistema fiscal [e] prejudicado a atratividade da Suíça”, descrevendo o resultado como a rejeição de uma “experiência de política fiscal arriscada”.