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Agricultores apostam em novas culturas para sobreviver a secas recorrentes

David Mueller ajoelha-se num dos seus campos de Kernza, terça-feira, 28 de julho de 2026, na sua quinta em Halstead, Kansas.
David Mueller ajoelha-se num dos seus campos de Kernza, terça-feira, 28 de julho de 2026, na sua quinta em Halstead, Kansas. Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.
Direitos de autor Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.
De Yolaine De Kerchove Dexaerde & Ruth Wright com AP
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Um cereal em desenvolvimento nos Estados Unidos pode ajudar os agricultores a melhorar a saúde do solo e a tornar as culturas mais resistentes à seca e a chuvas intensas.

Bryce Black ajoelha-se num campo de trigo fustigado por uma seca intensa. Segura dois pés de trigo e repara em como a espiga é bem mais pequena do que o normal.

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Depois de uma chuva tardia em outubro do ano passado, o agricultor de quarta geração estava otimista em relação aos 1 800 acres (728 hectares) de trigo de inverno. Mas um inverno e uma primavera secos trouxeram uma seca extrema num momento em que o trigo precisava de humidade para se desenvolver. Acabou por colher cerca de 1 500 acres (607 hectares), mas a produção foi a mais baixa desde que assumiu a exploração da família, em 2017.

“Foi daquelas situações em que só temos de cerrar os dentes e aguentar”, diz Black, que também produz milho, soja e milo, uma variedade de sorgo, na quinta da família, com 4 500 acres (1 821 hectares). “É desanimador, sabe? E é um bocado difícil saber o que fazer.”

Perante estes fenómenos meteorológicos, os agricultores procuram muitas vezes novas formas de proteger as culturas e a rentabilidade das explorações.

Skyler Grove segura um feixe de Kernza, terça-feira, 28 de julho de 2026, no The Land Institute, em Salina, Kansas.
Skyler Grove segura um feixe de Kernza, terça-feira, 28 de julho de 2026, no The Land Institute, em Salina, Kansas. AP Photo/Joshua A. Bickel

Cereais perenes: o que são

Alguns agricultores passaram a incluir cereais perenes na rotação de culturas para reforçar a resiliência face a fenómenos extremos como seca e chuvas intensas. Investigadores trabalham no desenvolvimento de versões perenes de cereais anuais comuns, como trigo, sorgo e arroz, mas o processo é lento. E a adoção em larga escala pelos agricultores é difícil, porque estas culturas produzem menos, a colheita pode ser complicada e o mercado ainda está a dar os primeiros passos.

Apesar dos desafios, Black está intrigado. “Estou em modo de sobrevivência”, afirma. “Se conseguirmos semear alguma coisa e depois não tivermos de voltar lá durante quatro ou cinco anos… isso pouparia imenso dinheiro, imensa mão de obra, tudo. É isso que torna a ideia apelativa.”

Há cinco anos, David Mueller semeou um campo de 12 acres (5 hectares) de Kernza, um cereal perene semelhante às gramíneas nativas que crescem em partes da Europa e da Ásia ocidental.

Os cereais perenes não exigem que se volte a plantar, colher e ressemeá-los todos os anos. Em vez disso, são plantados e permanecem produtivos durante vários anos, sendo apenas renovados de alguns em alguns anos.

Segundo os investigadores, os sistemas radiculares, que podem descer vários metros, conseguem captar água em profundidade. Isso ajuda as plantas a resistirem melhor a períodos curtos de seca. E, quando chove muito, essas raízes mais extensas absorvem o excesso de água que, de outro modo, escorreria e provocaria erosão do solo. As raízes profundas fixam também mais carbono, contribuindo para reduzir a poluição na atmosfera.

Instituto que desenvolve culturas perenes

A Kernza é um dos vários cereais perenes em desenvolvimento no The Land Institute (fonte em inglês), em Salina, no estado norte-americano do Kansas, a cerca de uma hora de caminho para norte da exploração de Mueller. O instituto, que iniciou formalmente a domesticação da Kernza em 2001, trabalha com investigadores e agricultores de todo o mundo para desenvolver versões perenes de trigo, arroz, sorgo e outras sementes de cereais e oleaginosas.

Alguns agricultores no Sudeste Asiático e em partes de África já começaram a plantar e a colher arroz perene nos seus campos. A Kernza, porém, é a cultura em fase mais avançada: a primeira colheita numa exploração agrícola ocorreu em 2010.

Nos Estados Unidos, no ano passado, a Kernza foi cultivada em 3 511 acres (1 421 hectares), contra 37,2 milhões de acres (15,1 milhões de hectares) de trigo de inverno, de primavera e Durum colhidos ou semeados em 2025-26.

O campo de Kernza de Mueller faz parte de quase 100 acres (40 hectares) que plantou desde 2018. Tem usado esta cultura para recuperar solos com problemas de drenagem ou para restabelecer matéria orgânica na quinta da família em Halstead, Kansas, onde também cultivam cerca de 600 acres (243 hectares) de milho e outros tantos de soja.

Afirma ainda que a Kernza consome cerca de um terço do fertilizante de que o trigo necessita e, como é plantada apenas de alguns em alguns anos, reduz a frequência com que tem de pôr em marcha maquinaria agrícola movida a combustíveis fósseis.

“Não só conseguimos aproveitar esses acres com lucro, como também enriquecemos o solo e trabalhamos para que, no futuro, seja rentável produzir outras culturas nesses campos”, afirma Mueller.

Degradação do solo representa ameaça séria

Um relatório das Nações Unidas de 2024 indica que, até 2050, a degradação dos solos pode causar mais de 20 biliões de dólares em perdas para a economia mundial. O cultivo de plantas perenes perturba menos esse solo que captura carbono.

O solo funciona como reservatório, retendo dióxido de carbono da atmosfera que contribui para o aquecimento global, explicam os especialistas. O cultivo anual – o ciclo de lavrar, plantar, colher e repetir – pressiona a formação do solo, um processo que leva milhares de anos, e degrada rapidamente as terras agrícolas. As raízes das plantas perenes também conseguem levar esse carbono a maior profundidade, onde é menos provável que seja perturbado, explica Laura van der Pol, principal ecóloga de solos do The Land Institute.

E solos com maior teor de carbono tendem a ser melhores para as plantas.

“Integrar plantas perenes na nossa agricultura parece ser, de facto, a única forma de garantirmos solo para as próximas gerações, se quisermos continuar a produzir alimentos”, afirma van der Pol. “É difícil imaginar um cenário em que tenhamos solo e alimentos em abundância sem uma opção perene.”

Produções mais baixas e colheita desafiante

Projetos piloto com cereais perenes estão a ser lançados em vários pontos do mundo, para testar o seu cultivo em diferentes regiões, climas e tipos de solo, mas a investigação ainda está numa fase inicial e avança devagar.

Entre os principais desafios está a produtividade em grão, explica Lee DeHaan, responsável pelo programa de domesticação da Kernza no instituto. Os agricultores que cultivam Kernza obtêm produções de cerca de 20% a 40% do que conseguiriam com uma cultura de trigo na mesma região. Isto porque uma planta perene tem de gastar energia não só a produzir sementes, mas também a desenvolver raízes que penetrem o solo e lhe permitam sobreviver vários anos. Ao contrário das culturas anuais, concebidas para canalizar o máximo de energia possível para a produção de sementes num único ciclo vegetativo.

Investigadores da Universidade Cornell verificaram igualmente que a instalação de um campo de Kernza pode ser complicada, porque, no primeiro ano, a cultura compete com muitas ervas daninhas. A definição da densidade de sementeira ideal para maximizar a produção continua a ser objeto de estudo, acrescenta Matthew Ryan, professor de sistemas de cultivo sustentáveis em Cornell.

Mueller afirma que as novas variedades de Kernza estão a produzir mais do que as anteriores, embora a produtividade possa diminuir à medida que a cultura envelhece. No caso do arroz perene, as produções são semelhantes às do arroz anual, segundo responsáveis do The Land Institute.

A colheita da Kernza, em particular, também é desafiante. O grão é mais pequeno do que o do trigo e agricultores e investigadores continuam a procurar as melhores formas de adaptar a maquinaria agrícola para que os grãos não sejam danificados durante a colheita.

Ainda assim, Ryan considera que os agricultores que sofrem perdas de colheita devido a seca ou grandes inundações podem ser levados a procurar formas de tornar as explorações mais resilientes.

“Julgo que os agricultores, mais do que outras pessoas, percebem que o clima está a mudar”, afirma. “Estes acontecimentos levam as pessoas a refletir e, na minha opinião, estão a impulsionar os agricultores a adotarem estas práticas.”

Editor de vídeo • Yolaine De Kerchove Dexaerde

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