A inteligência artificial pode melhorar os cuidados de saúde na Europa, mas nunca deve substituir médicos, afirmou hoje Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, no discurso sobre o Estado da União.
A saúde esteve hoje em destaque no discurso sobre o Estado da União, em que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentou as prioridades e iniciativas emblemáticas para o próximo ano.
Von der Leyen usou a saúde como exemplo de uma área em que a inteligência artificial pode ser utilizada para benefício e fazer a diferença na União Europeia, mas sublinhou que nunca deve substituir os médicos.
“Quero que o meu médico tenha acesso imediato, através da IA, a todos os dados necessários para escolher o melhor diagnóstico ou tratamento? Sim, claro. Mas quero que o meu médico seja um robô, assistido por IA? Não, claro que não. Não quero que um robô me diga se tenho cancro ou não”, afirmou von der Leyen durante o discurso anual sobre o Estado da União Europeia, no Parlamento Europeu.
Mas, graças a ferramentas de IA capazes de gerir enormes quantidades de dados, estão a surgir avanços na prestação de cuidados de saúde e a líder da UE quer que a Europa deles beneficie.
Von der Leyen, ela própria antiga médica, apontou a saúde como exemplo de progresso que pode beneficiar as pessoas, acrescentando que isso deve ser feito de forma “europeia”.
“A mamografia apoiada por IA consegue identificar mais cedo e mais casos de cancro nos rastreios. E, como resultado, mais mulheres podem sobreviver. Por isso, precisamos de IA para a saúde”, disse.
A deteção precoce é essencial no combate ao cancro e vários estudos e ensaios clínicos sugerem que a IA pode ajudar a identificar a doença mais cedo do que permitiam os métodos anteriores.
O rastreio do cancro não é a única área em que a IA está a ser utilizada na saúde. A tecnologia está a transformar o setor, a impulsionar avanços no diagnóstico, desenvolvimento de medicamentos, e a aliviar a carga de trabalho dos profissionais de saúde.
“A saúde será um dos cinco setores prioritários em que a Europa vai concentrar-se em acelerar a utilização de IA industrial”, escreveu o comissário da Saúde, Olivér Várhelyi, numa publicação no LinkedIn, reagindo ao discurso de von der Leyen.
Acrescentou que a Europa precisa de tirar partido dos seus dados de elevada qualidade e dos sólidos ecossistemas de saúde e de investigação para transformar essa vantagem em inovação que chegue mais rapidamente aos doentes e reforce os sistemas de saúde.
“Inovação e resiliência têm de andar lado a lado para manter os nossos sistemas de saúde fortes e sustentáveis”, acrescentou.
Inteligência artificial não deve substituir médicos
Com a rápida expansão da IA, também aumentam as preocupações e os alertas dos especialistas. A presidente da Comissão advertiu que, apesar dos avanços da IA, os médicos não devem nunca ser substituídos.
Investigação recente mostrou que os modelos de linguagem podem ser uma ferramenta perigosa para quem procura aconselhamento médico, uma vez que nem sempre avaliam corretamente a urgência.
Especialistas alertaram também para a sensibilidade dos dados biológicos e para a necessidade de quadros concretos que definam a forma como os modelos de IA lhes podem aceder.
As lacunas na responsabilização jurídica, o investimento desigual na capacitação da força de trabalho e os novos riscos de exclusão evidenciam a necessidade de vigilância, cooperação e aprendizagem contínuas, advertiu a Organização Mundial da Saúde num relatório recente. (fonte em inglês)
A organização constatou que apenas 8% dos seus Estados-membros adotaram uma estratégia nacional de IA específica para a saúde, “um lembrete urgente de que a ambição tem de ser acompanhada de ações concretas”.
A presidente von der Leyen anunciou, durante o discurso, “iniciativas transformadoras” a apresentar em novembro para os setores de maior valor em que a IA industrial tem maior potencial e para os quais já existem dados: saúde, transportes, agroalimentar, fabrico avançado e defesa e espaço.
Este artigo foi atualizado para incluir os comentários de Olivér Várhelyi.