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Rússia vota em eleições parlamentares sem partidos contra Putin

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Eleitora segura o boletim de voto antes de votar nas eleições legislativas em Vladivostok, Rússia, na sexta-feira, 18 de setembro de 2026.
Uma eleitora segura o boletim de voto antes de votar nas eleições legislativas em Vladivostok, Rússia, sexta-feira, 18 de setembro de 2026. Direitos de autor  AP Photo//Copyright 2026 The AP. All rights reserved.
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De Serguei Doubine
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A votação de três dias elege 450 deputados da Duma e 11 governadores regionais. Escrutínio conta apenas com partidos pró-Putin e pró-guerra na Ucrânia no boletim. Receios de uma nova mobilização militar pairam sobre o ato eleitoral.

Os russos começaram a votar esta sexta-feira numa eleição de três dias, rigidamente controlada, que deverá permitir ao presidente Vladimir Putin reforçar o seu controlo do poder, depois de 26 anos à frente do país. O ato eleitoral é o primeiro desde o início da invasão da Ucrânia.

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Só constam dos boletins os partidos que apoiam Putin e a guerra na Ucrânia.

O Yabloko, o único partido publicamente contra a guerra ainda a funcionar dentro da Rússia, foi impedido de participar. O partido registou um aumento de apoio nas redes sociais, sobretudo entre os mais jovens, depois de inicialmente lhe ter sido permitido concorrer.

Um diplomata europeu, que pediu para não ser identificado, afirmou que as eleições são “quase uma farsa”, mas descreveu-as como “um ritual que o Kremlin considera necessário”, acrescentando que vai procurar garantir uma elevada participação.

Observadores independentes já documentaram anteriormente o uso de recursos do Estado para influenciar os resultados, incluindo o transporte de eleitores em autocarros até às mesas de voto, a pressão sobre funcionários públicos para votarem no partido do poder e a promoção do voto eletrónico, mais fácil de monitorizar e controlar.

“Tal como na era soviética, as eleições têm de demonstrar a lealdade dos cidadãos”, afirmou o cientista político russo Nikolai Petrov, chefe de Análise de Processos de Transformação no Centro NEST.

Segunda-feira, 14 de setembro de 2026, em São Petersburgo, pessoas esperam o elétrico numa paragem ao lado de um cartaz que apela ao voto nas eleições parlamentares de três dias
Segunda-feira, 14 de setembro de 2026, em São Petersburgo, pessoas esperam o elétrico numa paragem ao lado de um cartaz que apela ao voto nas eleições parlamentares de três dias Dmitri Lovetsky/Copyright 2026 The AP. All rights reserved

A eleição vai renovar os 450 lugares da Duma e escolher os governadores de 11 regiões federais. Com o único partido anti-guerra do país excluído dos boletins, pairam os receios de uma mobilização militar sobre a votação.

Entre 18 e 20 de setembro, a eleição vai também escolher deputados para os parlamentos regionais em 39 entidades federais.

Foram abertas assembleias de voto nas passagens de fronteira russas com a Polónia e os três Estados bálticos.

Está igualmente a decorrer votação em partes da Ucrânia ocupadas pelas tropas de Moscovo, num processo que nem Kiev nem os países ocidentais reconhecem como legítimo.

Kremlin promove narrativa pró-exército

Quase 200 candidatos nestas eleições participaram na guerra da Rússia na Ucrânia, segundo as comissões eleitorais.

O Kremlin apresentou-os como parte da “verdadeira elite” da Rússia, mas a iniciativa funciona sobretudo como ferramenta de recrutamento para reforçar as tropas de Moscovo na linha da frente, com poucos candidatos a terem reais hipóteses de serem eleitos.

Antes da votação, Putin apelou aos russos para que votassem, de forma a mostrar às tropas que “atrás dos nossos combatentes estão milhões de pessoas” e para dar uma “resposta àqueles que querem enfraquecer a Rússia”.

Muitos russos temem uma nova vaga de mobilização militar, apesar de Putin ter negado pessoalmente quaisquer planos de novo recrutamento duas vezes em apenas três dias, já em setembro.

Meios de comunicação independentes russos contabilizaram 17 desmentidos oficiais de uma mobilização iminente. No outono de 2022, a Rússia convocou 300 mil reservistas, num movimento que provocou grande alarme público e uma saída em massa de homens em idade de combater.

Em São Petersburgo, um homem passa junto a um cartaz que apela ao voto num candidato do partido Rússia Unida
Em São Petersburgo, um homem passa junto a um cartaz que apela ao voto num candidato do partido Rússia Unida Dmitri Lovetsky/Copyright 2026 The AP. All rights reserved

Tatiana Stanovaya, do Carnegie Russia Eurasia Centre, proibido na Rússia, considera improvável uma nova mobilização.

“Têm feito um grande esforço para convencer os russos a não se preocuparem com isso”, afirmou. “Ficaria muito, muito surpreendida se acontecesse.”

Hoje, nas ruas de Moscovo, há poucos sinais visíveis de que está a decorrer uma eleição.

Os receios de mobilização foram agravados pelos ataques ucranianos com drones de longo alcance contra infraestruturas russas, numa tentativa de cortar o financiamento à máquina de guerra, provocando falta de combustíveis e prejuízos económicos de milhares de milhões de euros.

Muitos russos consideram que estes ataques quebram aquilo que Stanovaya descreve como o pacto tácito do Kremlin com a população em relação à guerra.

Opositores de Putin na prisão, no exílio ou mortos

Todos os principais opositores políticos de Putin estão na prisão, no exílio ou mortos. Alexei Navalny, o seu crítico mais conhecido, morreu numa colónia penal russa em 2024.

Os opositores políticos de Putin foram, na sua maioria, empurrados para o exílio e o seu principal adversário, Alexei Navalny, morreu numa prisão no Ártico em 2024.

A oposição russa no exílio apelou aos cidadãos contra o Kremlin para que não boicotem as eleições, mas antes votem “contra o partido de Putin”.

A viúva de Navalny, Yulia Navalnaya, pediu também aos russos contra a guerra que fossem votar ao meio-dia de domingo.

Cartaz a promover o voto eletrónico nas eleições; ao fundo, um outdoor mostra um soldado com o slogan
Cartaz a promover o voto eletrónico nas eleições; ao fundo, um outdoor mostra um soldado com o slogan Alexander Zemlianichenko/Copyright 2026 The AP. All rights reserved.

O Yabloko - que, segundo os críticos, já ultrapassou há muito a sua utilidade, depois de o Kremlin ter permitido durante muitos anos a sua existência para criar uma aparência de pluralismo político e servir de espaço para eleitores liberais e descontentes - discordou, defendendo que o melhor é não votar.

“Estão a sugerir que voltemos, como rebanho, a dançar ao som da sua música e a votar em quem provocou a morte de pessoas na Rússia e na Ucrânia?”, afirmou esta semana o presidente do partido, Nikolay Rybakov.

Duma ganha alcunha de "impressora louca"

As eleições parlamentares foram anteriormente fonte de forte tensão política: em 2011, a fraude generalizada durante a votação para a Duma e o regresso de Putin à presidência, após ter ocupado o cargo de primeiro-ministro, desencadearam os maiores protestos de rua na Rússia desde o colapso da União Soviética.

Putin governa a Rússia desde 1999 e o seu partido Rússia Unida domina a política desde o início dos anos 2000.

Sob Putin, os poderes da Duma foram substancialmente reduzidos, limitando-a sobretudo a aprovar legislação proposta pelo Kremlin, um papel que lhe valeu a alcunha popular de “impressora louca”, em alusão à rapidez com que aprovou leis altamente restritivas e controversas.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante uma reunião com participantes do projeto “Tempo de heróis”, destinado a apoiar a colocação de veteranos em cargos públicos. Moscovo, 14.06.26
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante uma reunião com participantes do projeto “Tempo de heróis”, destinado a apoiar a colocação de veteranos em cargos públicos. Moscovo, 14.06.26 Alexander Kazakov/Sputnik

Qualquer crítica à guerra é tratada pela lei russa como “descrédito do exército” e pode ser punida com pena de prisão.

Os eleitores mais velhos continuam entre os pilares do apoio a Putin, embora muitos se queixem ainda dos baixos padrões de vida.

Outras fontes • AFP, AP

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