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UE e Canadá estão mais próximos do que nunca. E o mundo está a ver

O primeiro-ministro canadiano Mark Carney assiste ao discurso sobre o Estado da União Europeia da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Parlamento Europeu
Primeiro-ministro canadiano Mark Carney assiste ao discurso sobre o Estado da União Europeia da presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen no Parlamento Europeu. Direitos de autor  AP Photo/Justin Tang
Direitos de autor AP Photo/Justin Tang
De Luca Bertuzzi
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Passo da UE para tornar o Canadá “membro associado” é visto como novo modelo para atrair outras democracias, mas pode afastar candidatos e agravar tensões com Washington.

Com o Canadá, a União Europeia abriu a porta a uma nova forma de o projeto europeu se associar a países terceiros fora do seu próprio continente. O resto do mundo vai acompanhar de perto.

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Mark Carney, primeiro-ministro canadiano, lançou a ideia de uma aliança de potências intermédias no seu discurso marcante em Davos, no início do ano. Meses depois, o Canadá poderá servir de modelo para a forma como a UE integra países terceiros.

Na quarta-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, convidou o Canadá a tornar-se “o primeiro membro associado da União Europeia”, propondo um acordo sem precedentes que ainda terá de ser totalmente definido.

Qualquer que seja o enquadramento que Bruxelas e Ottawa consigam fechar, terá repercussões muito para lá da Europa, numa altura em que se observa atentamente se a UE consegue criar um modelo atrativo para aproximar outras democracias da sua órbita.

“Uma aliança Canadá-UE criaria um farol para outras democracias. Uma aliança definida não pelo que contestamos, mas pelo que defendemos: liberdade, solidariedade, prosperidade, sustentabilidade”, declarou Carney no Parlamento Europeu, na quinta-feira.

Acordo sem precedentes

A UE não prevê atualmente uma “adesão associada”. A ideia foi inicialmente apresentada pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, como forma inovadora de integrar a Ucrânia na UE, mas a proposta foi rejeitada pelo presidente Volodymyr Zelenskyy.

Até agora, a União tem sido composta apenas por Estados-membros e países candidatos. Já o Canadá não pretende aderir ao bloco, como Carney tem sublinhado, e os seus tratados não o permitiriam, uma vez que o Canadá não é um país europeu.

“A nomenclatura precisa é uma questão para a Europa”, afirmou o primeiro-ministro canadiano, defendendo que o essencial é o conteúdo.

Os tratados da UE admitem alguma flexibilidade, ao preverem que “a União pode celebrar com um ou mais países terceiros ou organizações internacionais acordos que estabeleçam uma associação envolvendo direitos e obrigações recíprocos, ação comum e procedimento especial”.

Ainda não é claro o que implicaria exatamente este estatuto associado. Carney propôs uma cooperação aprofundada em todo o espetro de capacidades estratégicas, incluindo minerais críticos, capacidade industrial de defesa, IA e capacidade de computação, segurança energética, espaço e pagamentos.

Mas, embora os detalhes ainda tenham de ser negociados, parece evidente que qualquer acordo entre Bruxelas e Ottawa será um precedente altamente influente para a forma como a UE se relaciona com outros parceiros.

Parceiros de confiança

A ideia de tornar o Canadá membro associado da UE foi divulgada pela primeira vez através de uma reportagem do “Wall Street Journal” no início desta semana.

“Estamos em sintonia”, afirmou o ministro australiano do Comércio, Don Farrell, ao “Sydney Morning Herald”. “Vamos acompanhar com grande interesse o que Carney fizer.”

Em entrevista exclusiva à Euronews, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou que a Austrália e a Nova Zelândia poderão seguir o caminho do Canadá, numa altura em que a UE procura aprofundar laços com países que partilham os mesmos valores.

O eurodeputado Tobias Cremer (Alemanha/S&D), relator do Parlamento Europeu para o dossiê Canadá, disse aos jornalistas que está a receber um número crescente de pedidos dos média, não só de órgãos canadianos, mas também australianos, britânicos e japoneses.

Entretanto, o Reino Unido estará, segundo notícias, a sentir-se excluído pelo novo entusiasmo de Bruxelas em relação ao Canadá, já que alguns em Londres consideram que a UE está mais interessada em estreitar relações com o Canadá do que com o Reino Unido.

“Precisamos de pensar em parcerias que vão para além da adesão à UE”, escreveu no X a ministra dos Negócios Estrangeiros da Áustria, Beate Meinl-Reisinger. “Façamos disso um modelo para o futuro, que a Europa também ofereça a outros parceiros: Noruega, Islândia, Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia.”

Em suma, o sucesso desta relação especial com o Canadá poderá colocar a UE no centro de uma nova aliança internacional, numa altura em que democracias que deixaram de acreditar nos Estados Unidos como líder do mundo ocidental procuram realinhar-se.

Ordem internacional

O novo alinhamento entre Bruxelas e Ottawa pode aproximar a concretização da visão de Carney de uma aliança de potências intermédias, destinada a reforçar mutuamente a soberania, enfrentando em conjunto realidades geopolíticas em mudança.

“Quero ser preciso quanto ao que não proponho. Não proponho um terceiro bloco para nos tornarmos um rival das grandes potências, apenas com melhores maneiras”, afirmou.

“Não procuramos poder para dominar outros. Pelo contrário, procuramos resiliência para que ninguém possa controlar os nossos mercados abertos, afetar a nossa soberania, ameaçar a nossa integridade territorial ou minar as nossas liberdades, as nossas democracias, o nosso Estado de direito”, acrescentou Carney.

Em Bruxelas, responsáveis sublinham que, embora os Estados-membros individualmente possam ser potências intermédias, a UE no seu conjunto não o é e pode, na verdade, afirmar-se como líder de uma coligação democrática que apoie uma ordem internacional baseada em regras, hoje vacilante.

“Pela forma como funcionamos, somos por definição uma potência que congrega potências intermédias. Creio que isso nos torna particularmente atrativos para muitas outras potências intermédias, porque a UE, como nenhum outro ator global, tem no seu ADN valorizar pequenas e médias potências sem esmagar os seus interesses”, afirmou Cremer.

Ao mesmo tempo, à medida que a UE persegue ambições globais para aprofundar laços com democracias noutros continentes, há quem tema que possa perder de vista a sua vizinhança mais próxima.

Candidatos inquietos

O impulso dado à parceria UE-Canadá, e o formato totalmente novo que está em cima da mesa, caiu particularmente mal entre países que aguardam há décadas para aderir, como os dos Balcãs Ocidentais.

Não é a primeira vez que a UE apresenta uma nova arquitetura de adesão. Os países candidatos já viram, em rápida sucessão, o plano de crescimento, o alargamento inverso, a integração gradual e agora uma forma escalonada de pertença.

Há também o risco de a iniciativa agravar ainda mais as relações transatlânticas com os Estados Unidos, com o presidente Donald Trump já a ameaçar possíveis retaliações, o que pode colocar pressão sobre os países candidatos para escolherem um lado entre os dois blocos.

“Não me sinto confortável com as constantes novas ideias sobre adesão e com a falta de discussão em torno da aceitação de novos membros”, disse à Euronews Obrad Kesić, chefe da missão da Bósnia e Herzegovina junto da UE.

“O Canadá é um país grande e isso pode ter repercussões negativas para pequenos países candidatos se a discussão se tornar demasiado ampla. Muda o contorno do debate”, acrescentou Kesić. “Pensar adesões que vão para além da Europa abre um novo conjunto de questões.”

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