Moradores manifestam preocupação com a falta de transparência do projeto e com dúvidas sobre os sistemas de arrefecimento, o uso de água e o impacto no rio Enns.
Moradores de uma pequena localidade austríaca contestam a Google devido a planos para um centro de dados com uma área equivalente a cerca de 70 campos de futebol.
Cerca de 400 pessoas manifestaram-se este mês contra o complexo de 50 hectares previsto, em frente à sede do governo regional da Alta Áustria, em Linz.
Kronstorf, onde está a ser construído o centro de dados, tem cerca de 3 500 habitantes.
As obras do primeiro centro de dados da Google na Áustria começaram em abril, estando previsto que a primeira fase entre em funcionamento em 2027.
A gigante tecnológica norte-americana afirma que o centro vai responder ao aumento da procura por serviços de cloud e de IA, criar cerca de 100 empregos diretos e milhares de postos indiretos, ajudar a reforçar a infraestrutura digital da Áustria e contribuir para iniciativas locais de sustentabilidade.
Na cerimónia de lançamento da primeira pedra, que contou com políticos e representantes da empresa, Thomas Stelzer, governador da Alta Áustria, afirmou que o centro iria enviar “um sinal forte para a Alta Áustria enquanto local de negócios e inovação”.
Mas os moradores manifestam preocupação com a falta de transparência em torno do projeto e com questões por esclarecer sobre os sistemas de arrefecimento, o uso de água e o impacto no rio Enns.
“Creio que é preciso repensar este crescimento e expansão sem fim”, disse Christina Gruber, organizadora do protesto, artista independente e ecóloga aquática.
Andrea Kollmann, advogada de 53 anos, viajou de Viena para participar na manifestação. Kollmann afirmou que o projeto avançou “rápido demais” e que “tudo é extremamente pouco transparente, ninguém sabe nada”.
A Google afirma que os seus centros de dados estão entre os mais eficientes em termos energéticos no mundo, mas os críticos lembram que mesmo instalações muito eficientes podem consumir enormes quantidades de eletricidade e água.
Os centros de dados albergam milhares de servidores com chips de computação que funcionam 24 horas por dia, consumindo grandes quantidades de eletricidade e gerando calor que os sistemas de arrefecimento, muitas vezes à base de água, têm de dissipar.
Em Kronstorf, só a primeira fase poderá consumir até 1,31 terawatts-hora de eletricidade por ano, segundo a comunicação social, o equivalente ao consumo anual de cerca de 375 000 agregados familiares.
Europa regista aumento de centros de dados
A Europa já acolhe centenas de centros de dados em todo o continente, embora esteja muito atrás dos Estados Unidos em capacidade de centros de dados.
À medida que o continente acelera a expansão da infraestrutura de IA e cloud, o aumento de projetos de novos centros de dados também tem desencadeado protestos pelo seu impacto ambiental.
No início de setembro, a Escócia suspendeu novas autorizações para centros de dados de IA de grande escala, devido a preocupações ambientais.
Em Espanha, moradores da região de Aragão avançaram com ações judiciais contra um vasto projeto de centros de dados da Amazon, enquanto o município de Amesterdão impôs uma moratória à construção de novos centros de dados por motivos de espaço e de fornecimento de energia.
A Dinamarca colocou os centros de dados no fim da sua lista de prioridades para ligações à rede elétrica, alertando para a pressão sobre o sistema energético.
Segundo Francesca Musiani, especialista em internet no Centro Nacional de Investigação Científica francês, os protestos revelaram “uma tensão entre esta rápida expansão da IA e os objetivos climáticos” e levantaram questões mais amplas sobre a governação digital na Europa.
“Para mim, isto faz parte do que a soberania deve significar na prática: a capacidade de diferentes níveis da sociedade participarem na definição das infraestruturas das quais dependem.”