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“Efeito Maricarmen”: inquilinos reúnem-se em Madrid e ponderam greve europeia devido às rendas

Arquivo: Um homem atravessa a rua diante de uma manifestação contra os elevados preços da habitação em Madrid, Espanha, a 5 de abril de 2025
Arquivo: Um homem atravessa a rua em frente a uma manifestação contra os altos preços da habitação em Madrid, Espanha, em 5 de abril de 2025. -  Direitos de autor  Foto AP/Paul White
Direitos de autor Foto AP/Paul White
De Christina Thykjaer
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Cerca de 70 organizações reúnem-se em Madrid para coordenar a resposta à crise da habitação e ponderar uma possível greve à escala europeia

Cerca de 70 organizações pelo direito à habitação de vários países reúnem-se esta semana em Madrid para articular uma resposta comum à crise do arrendamento e explorar uma possível greve à escala europeia devido às rendas. O encontro decorre num contexto marcado pelo despejo de Maricarmen, a mulher de 87 anos expulsa da casa onde viveu mais de 70 anos, um caso que voltou a acender o debate sobre a crise da habitação em toda a Espanha.

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“A ideia é partilhar experiências e perceber como podemos definir uma rota comum”, explica à Euronews Pablo Pérez, um dos porta-vozes do Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid. Perante um problema que, defende, ultrapassa as fronteiras espanholas, as organizações querem “equacionar a ideia de uma greve de rendas à escala europeia ou ver como podemos avançar em direção a esse horizonte”.

O encontro realiza-se no âmbito da European Action Coalition (Coligação de Ação Europeia, em português), uma rede europeia de movimentos pelo direito à habitação, e reúne também organizações dos Estados Unidos e da América Latina. O objetivo passa por partilhar estratégias face a problemas que se repetem em numerosas cidades: rendas de casa cada vez mais altas, expulsão de moradores dos seus bairros, despejos e crescente pressão dos usos turísticos e temporários sobre a habitação residencial.

Espanha: caso Maricarmen revela crise da habitação em Madrid

Para o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid, o caso de Maricarmen representa uma das faces mais visíveis desta crise. “O que vemos com este caso é que nenhuma inquilina está protegida. É completamente indiferente a idade, a situação, se se trata de uma família, se tem filhos ou se é uma pessoa idosa e vulnerável como Maricarmen”, afirma Pérez à Euronews.

O porta-voz aponta a duração dos contratos de arrendamento e a possibilidade de não serem renovados como um dos fatores que geram insegurança entre os inquilinos. “O facto de os contratos não serem indefinidos e de, por isso, se poder decidir não os renovar ou aumentar o valor da renda (...) faz com que todas estejamos expostas, como inquilinas, a esta situação”, afirma.

O problema, garante, não afeta apenas pessoas idosas com décadas de enraizamento nos seus bairros. O Sindicato está também a detetar situações semelhantes entre famílias e jovens. Pérez explica que há famílias obrigadas a abandonar os bairros onde vivem há anos, apesar de ali terem os filhos na escola e de terem construído grande parte das suas relações pessoais e sociais.

No caso dos jovens, destaca em particular o crescimento do arrendamento de quartos e dos contratos de curta duração. “De 11 em 11 meses podem expulsar-te ou aumentar a renda e isso faz com que também os mais jovens não consigam desenvolver qualquer projeto de vida nem criar qualquer tipo de enraizamento em lado nenhum”, assegura.

Fundos de investimento e habitação como ativo financeiro

Um dos problemas que o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos coloca no centro da crise da habitação é o papel dos grandes investidores no mercado imobiliário. Pérez defende que o impacto dos fundos de investimento não deve ser medido apenas pelo número de casas que detêm. Na sua opinião, a influência destes fundos está também na disseminação de uma determinada lógica dentro do mercado.

“O que impuseram foi uma lógica de olhar para a habitação, de a ver como um ativo financeiro de onde se deve extrair a máxima rentabilidade possível, espremer ao máximo, aumentar a renda tanto quanto possível”, afirma. O porta-voz identifica um ponto de viragem na chegada de grandes fundos a Madrid a partir da década passada e considera que essa forma de gerir a habitação acabou por se estender a outras partes do mercado.

Segundo Pérez, a crescente intermediação das imobiliárias faz com que esta dinâmica possa verificar-se independentemente de por trás de uma casa estar um grande investidor ou um pequeno proprietário. “É indiferente que o senhorio seja um particular ou um fundo, porque a lógica com que funcionam é a lógica de um fundo”, sustenta.

Espanha: impacto do arrendamento turístico em Madrid

O Sindicato aponta também o crescimento dos apartamentos turísticos e dos arrendamentos temporários como um dos fatores que estão a transformar o mercado da habitação em Madrid. Pérez rejeita que o seu impacto possa ser avaliado apenas pelo peso que representam no conjunto de casas da cidade. Para o porta-voz, o essencial é analisar a sua concentração em determinados bairros.

“O importante não é a parte do parque habitacional que representam, é o impacto que têm em zonas concretas”, explica. O porta-voz dá como exemplo o centro de Madrid, onde garante que casas antes destinadas ao arrendamento residencial passaram para o mercado turístico, contribuindo para o afastamento de moradores.

Mas sustenta que o fenómeno já se está a estender para lá do centro de Madrid, em direção a bairros periféricos. “Está a ter um impacto bastante forte, tanto sobre os preços como sobre o afastamento das pessoas”, afirma.

Europa: uma greve de rendas?

A crise da habitação será precisamente o eixo do encontro internacional que, estes dias, reúne em Madrid movimentos de vários países. A reunião procura partilhar as experiências de organizações que enfrentam problemas semelhantes em diferentes cidades e estudar possíveis estratégias conjuntas.

Pérez recorda que os movimentos europeus já se reuniram em Barcelona em 2024, onde aprovaram a chamada Declaração de Barcelona. O encontro de Madrid pretende agora dar novos passos nessa coordenação. “Este problema não é apenas uma questão do Estado espanhol, embora seja particularmente grave aqui, mas está cada vez mais presente em todas as cidades da Europa”, assinala.

É neste contexto que surge a possibilidade de avançar para uma greve de rendas coordenada à escala europeia. Pérez não fala de uma convocatória fechada, mas de um horizonte que as organizações querem explorar. “A ideia é (...) equacionar uma greve de rendas a nível europeu ou ver como podemos avançar, se conseguirmos, em direção a esse horizonte”, explica.

O objetivo imediato será avaliar se movimentos que operam em mercados de habitação diferentes podem construir uma estratégia comum face a problemas que consideram partilhados.

Para o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid, essa coordenação é especialmente importante perante uma crise que, defendem, dificilmente se resolverá apenas através de decisões políticas. “Este problema não se vai resolver de um dia para o outro e muito menos pela vontade dos políticos”, afirma Pérez, que defende a organização coletiva dos inquilinos como ferramenta para responder à crise da habitação.

A reunião de Madrid servirá agora para perceber até que ponto essa estratégia pode ser transposta do nível local e nacional para o europeu.

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