Pike tinha 18 anos quando, com o namorado, espancou e matou Colleen Slemmer, de 19, num campo de formação profissional para jovens.
Uma mulher condenada por homicídio que sobreviveu a duas injeções letais durante uma execução falhada pelo estado norte-americano do Tennessee está em estado crítico e a receber “cuidados que lhe salvam a vida”, afirmou o seu advogado esta quinta-feira.
Num episódio considerado extraordinário, Christa Pike, de 50 anos, foi retirada à pressa da câmara de execução da prisão para um hospital na noite de quarta-feira, ainda viva apesar de duas doses mortais de pentobarbital.
“O que nos disseram é que ela está em estado crítico, a receber cuidados que lhe salvam a vida”, declarou Randy Spivey numa conferência de imprensa virtual na tarde de quinta-feira, recusando fornecer mais detalhes.
Apelou ao governador Bill Lee, que no início da semana já tinha recusado um pedido de clemência, que anule a pena de morte de Pike.
“Depois de ter suportado isolamento durante mais de 20 anos e uma tentativa completa de a matar por injeção letal, Christa já sofreu um castigo maior do que qualquer outra pessoa na história da pena de morte americana. O governador tem de comutar a sentença de Christa agora.”
Especialistas em pena de morte nos Estados Unidos afirmaram que o caso não tem precedentes.
“Esta tentativa falhada é a pior que alguma vez vimos e não se compara a nenhuma outra execução mal sucedida na era moderna”, disse Robin Maher, diretora-executiva do Centro de Informação sobre a Pena de Morte.
O centro contabiliza sete reclusos cujas execuções não puderam ser realizadas porque o pessoal médico não conseguiu colocar linhas intravenosas, mas “Pike é a primeira pessoa a sobreviver depois de receber doses letais de fármacos de execução”.
Já no final da quinta-feira, o presidente norte-americano Donald Trump questionou como é que uma execução como a de Pike pôde falhar, afirmando aos jornalistas que “não devia ser muito difícil”.
“Roncava alto”
O caso já tinha suscitado atenção porque Pike seria a primeira mulher executada no Tennessee em mais de 200 anos.
Kim Chandler, testemunha dos media da Associated Press, disse à CBS News que “Pike parecia claramente acordada quando a execução começou” na Instituição de Máxima Segurança de Riverbend, em Nashville.
“Por duas vezes olhou em volta da sala. A certa altura olhou para os responsáveis da prisão e perguntou se era suposto sentir aquilo”, contou Chandler.
Mais tarde, Pike começou a roncar e as testemunhas ficaram a ouvir na sala de observação durante cerca de uma hora, antes de serem mandadas sair.
A mulher condenada estava “a roncar alto, claramente muito viva” quando os jornalistas saíram, disse Chandler à CBS.
A equipa jurídica de Pike já tinha contestado o protocolo de colocação da linha intravenosa, alegando que lhe causaria sofrimento desnecessário devido às veias finas e a um problema sanguíneo.
“Contei pelo menos sete agulhas usadas só no braço esquerdo, sendo que uma parecia dobrada quando foi retirada do braço após uma tentativa falhada” de iniciar a linha intravenosa, afirmou Spivey.
O advogado Stephen Ferrell disse que peritos médicos tinham alertado para o risco de as agulhas se soltarem ou perfurarem a veia, fazendo com que os fármacos letais entrassem no braço de Pike em vez de na corrente sanguínea.
“Parece que foi isso que provavelmente aconteceu”, comentou.
Testemunhas dos media disseram que Pike contou ao pessoal da execução que o braço parecia que ia “rebentar”, e Spivey afirmou ter visto o braço direito ficar roxo, sobretudo após a segunda injeção letal.
Pike não tinha medo de morrer, disse Ferrell.
“Era o medo de uma morte prolongada, dolorosa e traumática, e foi isso que aconteceu, tirando a morte.”
“Um caos”
O Departamento de Correções do Tennessee afirmou que “seguiu todos os passos do protocolo de execução legal e estabelecido pelo estado”, acrescentando que Pike foi depois levada para uma “unidade médica externa”.
O governador Lee pediu uma “análise exaustiva, feita por terceiros” à execução falhada.
Lee acrescentou que a única execução ainda agendada no estado, a do homicida condenado Gary Wayne Sutton, prevista para 3 de dezembro, não será realizada este ano.
O caso de Pike desencadeou um debate sobre a pena de morte aplicada a jovens criminosos. Tinha 18 anos quando, juntamente com o namorado, espancou e matou Colleen Slemmer, de 19, num campo de formação profissional.
O homicídio ganhou atenção nacional depois de o corpo de Slemmer ter sido encontrado com um pentagrama, frequentemente visto como símbolo satânico, gravado no peito.
A mãe de Slemmer, May Martinez, disse à NBC News que a execução falhada foi “um caos”.
Os advogados de Pike argumentaram que lhe devia ser concedida clemência devido à sua juventude e aos problemas de saúde mental na altura da morte de Slemmer. Invocaram também um historial de abusos sexuais na infância e perturbação de stress pós-traumático.
Após uma série de recursos legais que atrasaram a execução várias horas, o Supremo Tribunal dos EUA autorizou na noite de quarta-feira que a punição avançasse.
Nos Estados Unidos, apenas 18 mulheres foram executadas desde 1976, segundo o Centro de Informação sobre a Pena de Morte.
O responsável máximo da ONU para os direitos humanos, Volker Türk, apelou ao Tennessee para que não tente voltar a executar Pike.
“O caso de Christa Pike expõe vários motivos pelos quais a pena de morte deve ser abolida”, escreveu o seu gabinete na rede X.
Pike tinha 18 anos quando, juntamente com o namorado, espancou e matou Colleen Slemmer, de 19 anos, num campo de formação profissional para jovens.
O homicídio ganhou atenção nacional depois de o corpo de Slemmer ter sido encontrado com um pentagrama, frequentemente visto como símbolo satânico, gravado no peito.