Um estudo recente indica que as “armadilhas para turistas” geram concorrência que fragiliza os restaurantes de qualidade, enquanto diminuem os visitantes estrangeiros e muitos húngaros já não conseguem ir comer fora com regularidade.
Em toda a União Europeia, é na Hungria que o número de estabelecimentos de restauração está a diminuir mais depressa. Entre 2021 e 2024 a quebra foi de 6%, enquanto em 22 Estados-membros se registou crescimento. Se olharmos para os últimos dez anos, o quadro é ainda mais dramático: desapareceram 18,5% dos estabelecimentos de restauração.
Segundo um estudo publicado recentemente, uma das razões desta tendência negativa é que os bares de lángos e de goulash, baratos, de fraca qualidade, orientados para turistas estrangeiros e com grandes margens, estão a empurrar para fora do mercado os restaurantes de qualidade. Este segmento atrai sobretudo turistas que gastam pouco, por exemplo os grupos de despedidas de solteiro, o que é problemático também para a imagem do país.
“Arrisco dizer, embora alguém me possa contrariar, que só na Hungria é que existe lángos com salada grega, lángos com estufado de vitela, e podia continuar a lista. Não há mal nenhum em um prato simples ser bom, isso não é problema. O problema é quando tentamos apresentar esse prato simples de tal forma que já deixa de ser o mesmo, e ainda por cima tentamos associar-lhe uma cultura gastronómica”, explicou a situação o autor do estudo e especialista de comunicação da Raconteur Agency, Áron Reményik.
Hungria torna-se demasiado cara para turistas do sul da Europa
2025 foi um ano recorde para o turismo, mas nem isso conseguiu dar um impulso significativo à restauração. Este ano, os problemas intensificaram-se: após as eleições, a valorização do forint tornou Budapeste 12 a 14% mais dispendiosa para os turistas que pagam em euros e as campanhas de promoção da imagem do país foram interrompidas. Em agosto, chegaram à Hungria 14% menos turistas estrangeiros do que no ano anterior.
De acordo com o fundador do Eventrend Group, que possui 35 estabelecimentos de restauração, os restaurantes húngaros enfrentam atualmente enormes problemas de competitividade.
"Alcançámos praticamente o nível de preços europeu em quase todos os itens de custo. A energia custa-nos praticamente o mesmo e os custos salariais são quase idênticos. Atualmente, é mais económico contratar profissionais de restauração no sul de Itália ou em Espanha do que na Hungria. Talvez seja ainda um pouco mais caro na Áustria, mas, em termos gerais, a diferença não é grande. Os preços das matérias-primas estão quase ao mesmo nível", explicou Zoltán Kőrössy ao canal de notícias Euronews.
Poucos húngaros conseguem ir regularmente a restaurantes
Enquanto os custos, e muitas vezes, por isso mesmo, os preços, são comparáveis aos da Europa Ocidental, as receitas não acompanham. Na Áustria, por exemplo, existe um número semelhante de estabelecimentos de restauração, mas o volume de negócios do sector é o dobro do húngaro. E isso depende não só dos turistas, mas também dos clientes nacionais.
O economista Zoltán Pogátsa lembrou recentemente, num artigo, que dois terços da sociedade húngara vivem com menos dinheiro do que a classe média-baixa da União Europeia. Sem uma ampla faixa de classe média com capacidade financeira, os restaurantes que dependem de clientes regulares não conseguem sobreviver. Não admira que, desde o início das medições, tenha sido em 2024 que o número de estabelecimentos de restauração na capital desceu pela primeira vez abaixo dos 8000; no final de 2025, o Instituto Central de Estatística registava apenas 7778.
Na opinião de Reményik, uma das soluções poderia passar por alargar ao segmento de street food o sistema de certificação e fiscalização dos produtos “hungarikum” e da cozinha húngara autêntica. Também ajudaria limitar, nas zonas turísticas mais movimentadas, o número de negócios de street food orientados exclusivamente para turistas. Isso, por si só, não vai dar mais dinheiro aos húngaros para irem ao restaurante, mas a provável descida das rendas, motivada pela redução da concorrência, poderia melhorar um pouco a situação dos restaurantes de qualidade que lutam para sobreviver.