Embora as sondagens indiquem que o PP e o Vox poderão governar em coligação depois de Pedro Sánchez ter convocado eleições antecipadas para novembro, o líder da extrema-direita, Santiago Abascal, apela à prudência e insiste na sua agenda de “prioridade nacional”.
Pouco depois de o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, anunciar a convocação de eleições antecipadas, Santiago Abascal, líder do partido de extrema-direita Vox, apresentou as suas condições para um eventual acordo com o principal partido da oposição, o PP, com o qual, segundo as últimas sondagens, poderia formar uma coligação de governo: prioridade nacional e remigração.
“É preciso reverter a invasão migratória, que está a ter tantas consequências negativas para o bolso dos espanhóis, para a sua segurança, para o acesso à saúde e, até, para a sua capacidade de aceder a uma habitação”, afirmou Abascal numa breve mensagem institucional difundida nas redes sociais, na qual não hesitou em usar o termo “remigração”, que muitos consideram ter uma clara conotação xenófoba.
Em concreto, Abascal exigiu que os espanhóis não sejam “discriminados na sua própria pátria” e comprometeu-se a pôr fim às “corrupções, ideologias e vontade confiscatória que asfixiam os trabalhadores independentes” sob o atual Executivo.
No mesmo comunicado, o líder do Vox, que qualificou a administração de Sánchez de “governo mafioso”, exigiu “eleições livres, eleições limpas e eleições sem violência”. “Estou convencido de que alguns não querem eleições em paz e vão usar as suas milícias – as da praia do Trampolín e muitas outras – para não permitir que nos dirijamos aos espanhóis em liberdade e em igualdade de condições”.
Abascal recordou que a sua formação exige a convocação de eleições “desde o minuto 1” do presente mandato e garantiu que o Vox está há anos a “construir a alternativa e a combater este governo”.
A decisão de Sánchez de convocar eleições no próximo dia 29 de novembro surge depois de, na passada sexta-feira, o governo não ter conseguido apoios suficientes no Congresso para ratificar dois decretos relacionados com a crise da habitação, que, nos últimos dias, levou milhares de espanhóis a protestar nas ruas, espicaçados pelo caso de Maricarmen, uma mulher de 87 anos cujo despejo desencadeou um terramoto político.
Coligação entre PP e Vox tem precedentes mas é difícil
Ao longo do fim de semana vieram a público várias sondagens que atribuem uma maioria absoluta a uma coligação conservadora formada por PP e Vox. Segundo uma sondagem (fonte em espanhol) da Sigma Dos para o diário El Mundo, o partido liderado por Alberto Núñez Feijóo obteria 32,6% dos votos, enquanto a formação de Abascal alcançaria 18,3%. Seriam 140 deputados para o PP e 63 para o Vox, muito acima do limiar dos 176 lugares necessários para formar governo.
Já o PSOE ficaria com 103 lugares (25,6% dos votos), menos 18 do que os 121 que detém atualmente e claramente insuficientes para formar governo, apesar do possível apoio de outras forças de esquerda como o Sumar (9 lugares) ou o Podemos (2 lugares).
Apesar de PP e Vox já governarem em coligação nas comunidades autónomas da Andaluzia, Castela e Leão, Aragão e Estremadura, a insistência de Abascal em fazer avançar a sua agenda de “prioridade nacional” pode dificultar uma eventual negociação com Feijóo, com quem, de qualquer forma, segundo afirmou esta segunda-feira em declarações (fonte em espanhol) à “Antena 3”, mantém uma “relação cordial”. “Ambos sabemos que precisamos de uma mudança e falamos com normalidade”, afirmou.
Ainda assim, na mesma intervenção, Abascal sublinhou que as eleições vão ser “muito incertas”. “Já aprendi a não me colocar em posições inadequadas e a não vender a pele do urso antes de o caçar”, disse, em referência às eleições legislativas de 23 de julho de 2023, quando, contra todas as previsões, Sánchez conseguiu formar uma coligação de governo “com todos os seus cúmplices”.