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Investidores comuns têm dificuldade em aproveitar o boom da robótica

ARQUIVO. Fila de vários robôs humanoides e quadrúpedes de última geração, 2026
ARQUIVO. Vários robots humanoides e quadrúpedes de última geração alinhados, 2026 -  Direitos de autor  AP Photo via Business Wire
Direitos de autor AP Photo via Business Wire
De Quirino Mealha
Publicado a •Últimas notícias
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Na robótica avançada, a maioria das empresas é privada, deixando investidores limitados à Tesla ou ao fundo Nasdaq RoboStrategy, negociado acima do dobro dos ativos.

Quem quiser apostar na expansão dos robôs nas fábricas, armazéns e casas depara-se com um facto incómodo: as ações das start-ups no centro desta euforia não podem ser compradas em bolsa.

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À disposição dos investidores estão um construtor automóvel que aposta o seu futuro nos robôs, grupos industriais para os quais os robôs são apenas mais uma área de negócio e uma nova geração de fundos cotados que cobram caro esse acesso.

A Euronews explica que opções têm atualmente os pequenos investidores para ganharem exposição à robótica e que riscos cada uma envolve.

Estados Unidos: comprar Tesla pelos robôs

A Tesla é, atualmente, uma das principais formas de o fazer. Tal como Elon Musk afirmou no ano passado, cerca de 80% do valor da empresa virá do Optimus, o seu robô humanoide, enquanto os robotáxis acrescentam outra dimensão robótica.

Ainda assim, comprar ações da Tesla continua sobretudo a ser investir num construtor automóvel. No segundo trimestre deste ano, a divisão de automóveis gerou 20,5 mil milhões de dólares (18,1 mil milhões de euros) dos 28,2 mil milhões de dólares (24,9 mil milhões de euros) de receitas, quase 75%, enquanto o Optimus ainda não registou qualquer venda.

“Até ao final do próximo ano, penso que estaremos a vender robôs humanoides ao público”, declarou Musk no Fórum Económico Mundial, em Davos, em janeiro.

Entretanto, a Tesla começou a produzir o robô na fábrica de Fremont, na Califórnia, mas Musk avisou que “a produção do Optimus será extremamente lenta no início, porque tudo é novo. Não é como fabricar um carro”.

ARQUIVO. Robô humanoide Optimus, da Tesla, distribui pipocas numa banca de mercado de Natal durante a sua apresentação num centro comercial em Berlim, Alemanha, 20 dez. 2025
ARQUIVO. Robô humanoide Optimus, da Tesla, distribui pipocas numa banca de mercado de Natal durante a sua apresentação num centro comercial em Berlim, Alemanha, 20 dez. 2025 Christoph Soeder/dpa via AP

“Muitos investidores da Tesla detêm as ações para terem acesso à capacidade empreendedora de Elon Musk. As vendas de veículos mantêm a empresa em funcionamento e ajudam a financiar as ideias mais arrojadas, incluindo a robótica”, explicou à Euronews Dan Coatsworth, responsável pelos mercados na plataforma de investimento britânica AJ Bell.

Essa ambição, porém, tem um preço elevado.

“Os fabricantes europeus de automóveis negoceiam, em geral, a menos de dez vezes os lucros estimados. Em contraste, a Tesla negocia a 165 vezes os lucros futuros. Isso sugere que grande parte do elemento ‘blue sky’, ou seja, das expectativas mais otimistas, já está refletida nas ações e que os investidores têm de pagar por ele”, afirmou Coatsworth.

Robôs não humanoides dominam o mercado

Os humanoides também atraem uma atenção desproporcionada face à sua quota de mercado.

No ano passado, venderam-se cerca de 7 000 robôs humanoides para usos industriais e profissionais, contra 603 000 robôs industriais instalados em todo o mundo, segundo a Federação Internacional de Robótica (IFR).

Os grandes grupos industriais também raramente permitem uma aposta exclusivamente centrada nos robôs.

Na japonesa Fanuc, os robôs representaram 44% das vendas no exercício até março, enquanto no grupo suíço-sueco ABB apenas entre 7% e 10% da faturação nos últimos dois anos.

Além disso, em vez de cotar separadamente a sua divisão de robótica, como estava inicialmente previsto, a ABB acordou vendê-la à japonesa SoftBank por 5,4 mil milhões de dólares (4,7 mil milhões de euros).

A alemã KUKA saiu da bolsa em 2022, depois de o fabricante chinês de eletrodomésticos Midea assumir o controlo total. Já a Siemens produz o software e os controladores que comandam fábricas automatizadas, não os próprios robôs.

Estados Unidos: fundo cotado investe em fabricantes privados de robôs

Nenhuma das opções referidas dá aos investidores uma participação direta nas start-ups e é essa lacuna que o RoboStrategy procura preencher.

O fundo, que começou a ser negociado no Nasdaq em maio com o símbolo BOT, detém participações em empresas privadas de robótica e tem ações cotadas, o que permite a qualquer investidor com conta de corretagem adquirir uma parcela desses investimentos.

Start-ups de robótica bem conhecidas, como Figure AI, Dyna Robotics e Apptronik, representavam cada uma perto de um quinto dos seus ativos líquidos em junho.

O fundo é gerido por Andrew Kang, cofundador da empresa de investimento em criptomoedas Mechanism Capital, que escreveu na rede X, em maio, que quando analisou pela primeira vez a robótica, dois anos antes, “a maioria dos capitalistas de risco com quem falei recomendou-me que não investisse na área”.

Desde então, o sentimento mudou rapidamente.

As start-ups de robótica tinham angariado 18,8 mil milhões de dólares (16,6 mil milhões de euros) até meados de junho deste ano, mais do que em 2025, que foi um ano recorde, segundo a plataforma de dados Crunchbase, que acompanha informação sobre empresas privadas e cotadas, incluindo rondas de financiamento de start-ups.

Veículos como o RoboStrategy existem porque as empresas permanecem privadas durante muito mais tempo.

A empresa tecnológica média nos Estados Unidos que se cotou em 2025 tinha 12 anos de existência, contra apenas quatro em 1999, de acordo com o professor Jay Ritter, da Universidade da Florida, conhecido como “Mr. IPO” pelos mais de 40 anos de investigação pioneira sobre ofertas públicas iniciais.

Nos Estados Unidos, participações em empresas privadas são, em grande medida, reservadas a investidores abastados “acreditados”. Paul Atkins, presidente da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), afirmou em março que este tipo de exposição “não deve ser reservado àqueles que cumprem um determinado limiar de riqueza ou são considerados suficientemente sofisticados”.

Ainda assim, o acesso tem um custo, mesmo através destes novos fundos.

As ações do RoboStrategy abriram a sessão de sexta-feira a 27,34 dólares, cerca de 2,4 vezes o valor líquido dos ativos do fundo, de 11,35 dólares por ação no fim de agosto. Em maio, os títulos chegaram a um máximo de 59 dólares.

“É um prémio de escassez, que pode surgir numa área de investimento em voga […]. Os investidores podem achar que vale a pena pagar um prémio para investir no RoboStrategy se isso lhes der exposição antecipada a empresas que podem ser os campeões de mercado de amanhã”, explicou Coatsworth à Euronews.

Esse prémio pode encolher rapidamente.

Por exemplo, quem comprou títulos no início de julho pagou quase quatro vezes o valor dos ativos subjacentes e desde então perdeu cerca de um quarto do capital, apesar de o valor líquido dos ativos por ação ter subido 27% em aproximadamente o mesmo período.

Os investidores pagam ainda uma comissão de gestão anual de 2,5%, com despesas totais anuais de quase 4%, e as participações privadas do fundo são avaliadas com base em estimativas, não em preços de mercado.

ARQUIVO. Técnico verifica um robô após uma queda no final da corrida de 1 500 metros durante os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, em Pequim, China, 23 ago. 2026
ARQUIVO. Técnico verifica um robô após uma queda no final da corrida de 1 500 metros durante os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, em Pequim, China, 23 ago. 2026 AP Photo/Achmad Ibrahim

“Um investimento no RoboStrategy é especulativo e envolve um elevado grau de risco, incluindo a possível perda de todo o capital investido”, alerta o fundo no seu site.

Há precedentes de investidores sofrerem perdas significativas quando o prémio de um fundo se reduz.

O Destiny Tech100, um fundo com participações em empresas privadas como a SpaceX e a OpenAI, chegou a negociar com um prémio de cerca de 2 000% face ao valor dos ativos, duas semanas após a sua estreia na Bolsa de Nova Iorque em 2024. As ações fecharam a 99,79 dólares em 8 de abril desse ano, mas em 12 de abril já tinham caído para 29 dólares, uma queda de cerca de 71% em quatro dias.

“É importante que os investidores saibam o que estão a comprar e percebam quando estão a pagar mais do que o valor dos ativos subjacentes”, advertiu Coatsworth.

Robótica: ETFs oferecem alternativa

Os fundos cotados em bolsa (ETFs) costumam negociar mais perto do valor líquido dos seus ativos, embora detenham sobretudo empresas já listadas. O ETF de robótica humanoide da Roundhill, por exemplo, tinha entre as maiores posições a Tesla, o fabricante chinês de robôs UBTech e a Hyundai no final de junho.

“Há vários ETFs de robótica no mercado que negociam ao valor dos ativos, o que significa que os investidores não têm de se ficar pela primeira opção que encontram”, referiu Coatsworth.

Mesmo quando um fabricante de robôs se torna cotado, pode continuar fora do alcance de muitos investidores.

A chinesa Unitree, por exemplo, disparou 460% na estreia em agosto no STAR Market, o segmento tecnológico da bolsa de Xangai, onde os investidores estrangeiros precisam normalmente de uma licença especial para comprar ações recém-emitidas.

Enquanto mais líderes do setor não vierem a público em bolsa, quem quiser apostar exclusivamente em robôs terá de pagar por isso de uma forma ou de outra, seja através de um construtor automóvel, de um conglomerado ou de um prémio sobre o valor dos ativos.

Aviso: esta informação não constitui aconselhamento financeiro. Faça sempre a sua própria análise adicional para garantir que é adequada às suas circunstâncias específicas. Recorde-se também de que somos um site jornalístico e procuramos fornecer os melhores guias, conselhos e recomendações de especialistas. Se confiar nas informações desta página, fá-lo inteiramente por sua conta e risco.

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