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Polónia: ataques em escolas e jovens mais agressivos, especialistas apontam excesso de estímulos

Ataques em escolas polacas
Ataques em escolas polacas -  Direitos de autor  Policja Mazowiecka, Facebook/Zespół Szkół Zawodowych nr 4 w Ostrołęce, Paweł Głogowski
Direitos de autor Policja Mazowiecka, Facebook/Zespół Szkół Zawodowych nr 4 w Ostrołęce, Paweł Głogowski
De Agata Todorow
Publicado a •Últimas notícias
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Ataques recentes em escolas polacas voltam a expor a violência juvenil. Em entrevista à Euronews, psicóloga e educadora apontam excesso de estímulos, pouco apoio psicológico e necessidade de mudar o sistema de ensino.

Em dois dias registaram-se na Polónia dois ataques graves com faca em escolas. A 7 de outubro, num Conjunto de Escolas Profissionais n.º 4 em Ostrołęka, um jovem de 19 anos feriu nove pessoas. No dia seguinte, numa escola básica em Leszczydół-Nowiny, um ex-aluno de 15 anos atacou três pessoas.

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Na sequência deste segundo ataque morreu uma funcionária da escola, de 37 anos, e duas pessoas ficaram feridas.

O caso de um jovem de 17 anos de Sierpc, suspeito de preparar um ataque a uma escola, também gerou preocupação.

Após estes acontecimentos, a polícia anunciou um reforço das ações de prevenção junto dos estabelecimentos de ensino. As autoridades analisam também ameaças e sinais na internet sobre possíveis tentativas de imitação dos atacantes.

Os acontecimentos preocupantes nas escolas polacas coincidem com a situação tensa no sistema de ensino francês.

Em França decorrem protestos nacionais de alunos, que exigem melhores condições de aprendizagem, mais professores e melhor financiamento das escolas. As manifestações foram acompanhadas de confrontos com a polícia e, em algumas escolas, registaram‑se casos de violência contra trabalhadores. Não há, porém, confirmação de que os protestos franceses estejam diretamente relacionados com os ataques na Polónia.

Esta série de acontecimentos voltou a abrir o debate sobre as causas da violência entre jovens e as formas de evitar tragédias semelhantes. Uma psicóloga infantil e uma educadora, em entrevista à Euronews, chamam a atenção, entre outros aspetos, para o excesso de estímulos e conteúdos online, o apoio psicológico insuficiente e a necessidade de mudanças no sistema educativo, incluindo melhor preparação dos professores para identificarem problemas dos alunos.

Agente da polícia e bombeiro voluntário observam a rua junto à área isolada após o ataque ao Conjunto de Escolas Profissionais n.º 4 em Ostrołęka, na quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Agente da polícia e bombeiro voluntário observam a rua junto à área isolada após o ataque ao Conjunto de Escolas Profissionais n.º 4 em Ostrołęka, na quarta-feira, 7 de outubro de 2026 AP Photo/Rafał Niedzielski

Violência resulta de múltiplos fatores

Segundo informações transmitidas pelo ministro do Interior e Administração, Marcin Kierwiński, os jovens agressores poderão ter-se inspirado num “challenge” na internet. Esta informação deve, contudo, ser distinguida das causas efetivas dos ataques.

As especialistas sublinham que, mesmo que certos conteúdos possam incentivar a imitação, não explicam por si só porque é que uma pessoa em concreto decide recorrer à violência.

“Nem todas as crianças são suscetíveis a esse tipo de inspiração. Alguma coisa particular tinha de estar a acontecer com estes miúdos. Normalmente não há um único fator, mas um conjunto de vários fatores, diferentes causas, diferentes motivos” , explica à Euronews a psicóloga e pedagoga Anetta Pereświet-Sołtan, proprietária da clínica para crianças e jovens ‘Era Psyche’.

Como salienta a especialista, a adolescência está associada a mudanças intensas no desenvolvimento do cérebro. A capacidade de controlar impulsos e emoções e de prever as consequências dos próprios atos ainda está em formação.

Em situações de forte stress ou frustração, um jovem pode ter dificuldade em lidar com as emoções e em encontrar formas construtivas de as expressar.

“Tem de existir terreno fértil. (...) Este pode ser um dos modos de lidar com a frustração, com o stress, que pode prolongar-se no tempo” , sublinha Pereświet-Sołtan.

A psicóloga adverte, no entanto, que sem uma análise detalhada da situação concreta dos adolescentes não é possível determinar os seus motivos nem formular diagnósticos.

Entre os possíveis fatores é preciso considerar tanto dificuldades emocionais como a situação familiar, as relações com os pares ou problemas na escola.

Małgorzata Lech-Krawczyk, educadora que trabalha com crianças e jovens, chama por seu lado a atenção para mudanças mais amplas na vida quotidiana dos jovens.

Aponta o excesso de estímulos, o peso crescente do mundo virtual e conteúdos que podem dificultar a concentração e a reflexão. Na sua opinião, a escola deve ser um lugar não apenas de transmissão de conhecimentos, mas também de diálogo, construção de relações e aprendizagem de reconhecimento das emoções.

Criança pode ser silenciosa e mesmo assim precisar de ajuda

Na opinião de Pereświet-Sołtan, é importante olhar com atenção também para crianças que não causam problemas de comportamento. Calma e retraimento não significam necessariamente que o jovem está a gerir bem as suas emoções.

“Miúdos que não conseguem lidar com as próprias emoções e, pode dizer‑se, não chamam a atenção de ninguém, não é por isso que deixam de precisar de atenção, que deixam de precisar de ajuda” , afirma a psicóloga.

Acrescenta que os adultos muitas vezes ficam surpreendidos quando descobrem que uma criança vista como calma e tranquila enfrentava dificuldades sérias. Por isso é essencial não limitar o interesse pelo aluno ao seu comportamento nas aulas ou aos resultados escolares.

“Nunca é verdade que as crianças não enviem sinais quando algo deste género está prestes a acontecer”, frisa.

Ao mesmo tempo, sublinha que, em casos concretos, não se deve julgar nem acusar precipitadamente as famílias, porque sem conhecer o contexto não se sabe com que problemas os jovens estavam a lidar.

Małgorzata Lech-Krawczyk destaca igualmente a importância das relações e da atmosfera na escola. Na sua perspetiva, os professores precisam de uma melhor preparação para reconhecer problemas emocionais dos alunos, e a responsabilidade pela segurança e desenvolvimento das crianças não pode recair apenas sobre psicólogos e pedagogos escolares.

“Sem um ambiente acolhedor, é difícil falar de educação.” Na sua opinião, as escolas devem criar mais espaço para conversas, projetos conjuntos e encontros em que os alunos possam falar sobre o que vivem, em vez de se focarem exclusivamente no cumprimento do programa.

Internet não é um mundo à parte

As duas especialistas chamam a atenção para o impacto dos conteúdos com que os jovens têm contacto na internet.

Pereświet-Sołtan sublinha que a vida das crianças decorre em paralelo no mundo real e no mundo virtual, e que muitos pais não sabem o que os filhos veem nem com que comunidades interagem.

“Temos a tendência de achar que, se tirarmos o telemóvel, o problema fica resolvido. Mas trata‑se de perceber que, quando olhamos para o que se passa na vida real da criança, estamos a ver apenas uma parte da sua vida.”
Anetta Pereświet-Sołtan

Na sua avaliação, os conteúdos online podem ser uma fonte de inspiração, mas não atuam da mesma forma sobre todos. Também contam as experiências anteriores, o estado emocional e as relações do jovem com o seu meio.

A pedagoga recorda que, em psicologia, está descrito o fenómeno de imitação de comportamentos de que se fala muito. No contexto dos suicídios, é chamado efeito Werther.

O mecanismo de imitação pode aplicar-se também a outros comportamentos, incluindo os agressivos. Isso não significa, porém, que a simples exposição mediática de um acontecimento conduza automaticamente a novos ataques.

“O que acontece e de que tenho conhecimento pode levar‑me a isso, pode ser o gatilho para tomar medidas semelhantes”, explica a Pereświet-Sołtan. Acrescenta que uma pessoa profundamente frustrada, solitária ou que se sente rejeitada pode, de forma errada, concluir que o comportamento observado noutra pessoa lhe trará alívio ou a fará ser notada.

Małgorzata Lech-Krawczyk lembra ainda que os professores trabalham na primeira linha de contacto com os alunos, mas precisam de condições adequadas, apoio e respeito pelo seu trabalho. As mudanças devem abranger tanto todo o sistema educativo como soluções adaptadas a cada escola.

Em entrevista à Euronews, ambas as especialistas insistem que a segurança das crianças exige mais do que reagir depois da tragédia. É necessária atenção por parte dos adultos, melhor preparação das escolas para reconhecerem situações de crise, abordagem responsável aos conteúdos online e relações em que o jovem possa ser ouvido antes de os seus problemas evoluírem para uma situação que ponha em risco a sua própria vida ou a de outras pessoas.

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