A Agência Internacional da Energia alertou que a Europa poderá enfrentar novas subidas dos preços do gasóleo nas próximas semanas, com perturbações no abastecimento a manter o mercado apertado até 2027, apesar da recuperação da produção de petróleo no Golfo.
Mercados de gasóleo deverão manter-se apertados bem para lá de 2027 e os preços grossistas do gasóleo na Europa podem voltar a subir nas próximas semanas, advertiu na quarta-feira a Agência Internacional de Energia (AIE).
No seu relatório mensal, o organismo sediado em Paris referiu que a recuperação das exportações de petróleo do Golfo não chegou para aliviar a escassez de combustível, mantendo-se a produção mundial abaixo do nível de consumo.
A oferta aumentou em setembro 2,5 milhões de barris por dia (mb/d), para 102,3 mb/d, impulsionada por um salto nas exportações de crude do Golfo liderado pela Arábia Saudita, que já superam três quartos dos níveis anteriores à guerra. Ainda assim, permanece ligeiramente abaixo da procura mundial, estimada pela AIE em cerca de 103,5 mb/d.
A guerra desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, em 28 de fevereiro, está longe de terminar.
O Irão estrangulou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, e intensificou recentemente os ataques a navios na zona, enquanto rebeldes Houthi apoiados por Teerão no Iémen atingem instalações petrolíferas sauditas.
“Ataques renovados no Golfo deixam a recuperação frágil”, afirmou a AIE.
Na terça-feira, a agência britânica de segurança marítima UKMTO informou que projéteis de origem desconhecida atingiram um petroleiro e um navio porta-contentores no estreito.
Já na madrugada de quarta-feira, os Guardas Revolucionários Islâmicos do Irão indicaram que um navio porta-contentores com mais de 2 500 contentores se afundou a sul do estreito depois de embater numa mina naval e se incendiar, alegando que seguia por uma rota não autorizada e alertando para perigos persistentes neste ponto de estrangulamento marítimo.
O Brent, referência internacional dos preços do petróleo, subiu cerca de 1%, chegando a superar 107 dólares por barril nas primeiras transações de quarta-feira, mas depois devolveu parte das valorizações e negoceia em torno de 106 dólares no momento da redação.
Entretanto, o West Texas Intermediate, referência norte-americana, tem estado praticamente estável, em cerca de 94,75 dólares por barril.
Mercado do gasóleo permanece sob pressão
Os preços do gasóleo recuaram face aos máximos de setembro, acima de 200 dólares por barril, mas os índices “continuam quase o dobro do preço do crude e dos níveis anteriores à crise”, indicou a AIE.
Com as exportações de combustível do Médio Oriente abaixo de metade dos valores registados antes da guerra e refinarias russas alvo de drones ucranianos, o abastecimento de gasóleo permanece sob pressão.
O aumento dos custos de transporte marítimo pode agravar ainda mais essa pressão.
“À medida que as tensões no mercado de fretes de crude se alargam a outras categorias de navios-tanque, os preços do gasóleo entregue nos principais mercados importadores – Europa, África e América Latina – podem voltar a subir nas próximas semanas”, advertiu a AIE.
A AIE considera improvável que as reservas de gasóleo perdidas sejam repostas para além dos ajustamentos sazonais normais antes da segunda metade de 2027.
O G7 comprometeu-se, em 2 de outubro, a libertar até 100 milhões de barris de reservas de emergência através da AIE, dando prioridade ao gasóleo.
No entanto, um documento interno consultado pela Euronews mostra que essa decisão se destinaria a cobrir barris ainda em falta no âmbito da promessa de 400 milhões feita em março, dos quais 326 milhões já foram libertados, em vez de se somar a esse compromisso.
Previsões divergentes para a procura
A AIE prevê agora que preços elevados e um crescimento mais fraco reduzam este ano a procura mundial de petróleo em 2,6 mb/d, para 102,4 mb/d, um recuo ligeiramente superior aos 2,5 mb/d estimados no mês passado.
A agência também reviu em baixa a recuperação prevista para o próximo ano, de 2,6 para 2 mb/d, o que significa que a procura em 2027 deverá manter-se 0,6% abaixo dos níveis de 2025, em vez de os ultrapassar ligeiramente.
Já a OPEP, o grupo de países exportadores de petróleo, apresenta uma perspetiva mais otimista.
Na terça-feira, cortou pela sexta vez consecutiva a previsão de crescimento da procura em 2026, de 380 000 para 180 000 barris por dia, mas aumentou a estimativa para 2027, de 2,36 para 2,55 mb/d, antecipando a reconstrução das reservas esgotadas pela guerra.
De acordo com a OPEP, a produção de crude dos países OPEP+, que incluem a Rússia, subiu em setembro cerca de 900 000 barris por dia, para 39,07 mb/d.
Sete membros centrais mantiveram inalteradas, em 4 de outubro, as metas de produção para novembro, com a maioria a bombear abaixo das quotas devido à guerra, e voltarão a reunir-se em 1 de novembro. Os Emirados Árabes Unidos deixaram ambos os grupos em maio.
Caso os conflitos na região não sejam resolvidos, “os mercados de petróleo podem viver mais turbulência nos próximos meses antes de surgir qualquer eventual excedente em 2027”, advertiu a AIE, numa altura em que o seu conselho se reúne esta quinta-feira.