Gerir despesas, custo da dívida e liquidez: especialistas explicam à Euronews como famílias e empresas podem enfrentar a inflação e os juros altos.
Avançar com uma grande compra ou esperar? Será boa altura para lançar um negócio? O que vai acontecer às taxas de juro e até que ponto pode continuar a subir o custo de vida?
Para milhões de europeus, decisões deste tipo tornaram-se mais difíceis. A subida do custo de vida, as oscilações nos preços da energia e o aumento do custo do crédito criam um contexto em que o planeamento dos próximos meses parece cada vez mais complexo.
Não se trata apenas de os preços terem aumentado. Trata-se também de os consumidores terem dificuldade em antecipar o que poderá acontecer a seguir.
À margem do 6th HAT International Treasury Summit, organizado em Atenas pela Hellenic Association of Treasurers, a Euronews falou com responsáveis da gestão de riscos financeiros sobre as opções que se colocam hoje a consumidores e empresas.
Esperar ou avançar?
Janet Legge, vice-diretora executiva da britânica Association of Corporate Treasurers, considera que a cautela é justificada enquanto a evolução internacional se mantiver tão imprevisível.
Questionada sobre que conselho daria a alguém que pondera lançar um negócio ou fazer uma compra de grande valor, reconheceu que as mudanças constantes tornam estas decisões especialmente difíceis.
“Creio que precisamos de acompanhar a evolução durante algum tempo e de ser um pouco prudentes nesta fase”, afirmou.
Num agregado familiar, a aplicação prática desta abordagem começa com algumas questões básicas.
Quão indispensável é essa despesa? Pode ser suportada sem esgotar as poupanças disponíveis? Vai exigir recurso ao crédito e, em caso afirmativo, em que proporção do rendimento? E o que acontece se o rendimento diminuir temporariamente ou se alguns encargos fixos aumentarem, como tem sucedido de forma continuada nos últimos anos?
Taxas de juro: porque as previsões continuam difíceis
A evolução das taxas de juro é um dos principais fatores de incerteza, sobretudo para quem já tem empréstimos ou pondera contrair novos créditos.
Janet Legge salientou que, no Reino Unido, existem expectativas de descida das taxas de juro, mas a experiência dos últimos anos mostra como as previsões podem ser facilmente contrariadas.
“Nos últimos anos ouvimos dizer que as taxas de juro vão descer e, depois, voltam a subir”, observou.
Na sua opinião, estas oscilações podem tornar-se uma característica da nova normalidade.
“Vão subir e descer e teremos de nos adaptar”, disse.
Para quem tem empréstimos, a questão central é saber como é afetado o seu contrato: se a taxa de juro é fixa ou variável, quando é revista e até que ponto pode alterar-se a prestação mensal.
Como proteger o orçamento familiar
Gilles Bonn-Long, responsável na área da gestão de tesouraria corporativa, relaciona as pressões sobre o custo de vida com a evolução geopolítica internacional.
Na entrevista à Euronews, mostrou-se pessimista quanto à evolução do custo de vida a curto prazo, considerando que as pressões podem prolongar-se.
Em termos práticos, a principal recomendação aos consumidores é “uma gestão cuidadosa das despesas”.
Isso implica acompanhar de forma mais sistemática as despesas mensais e planear melhor as compras. É também útil separar as despesas incompressíveis, como habitação e energia, daquelas que podem ser ajustadas com maior facilidade.
Que podem fazer as empresas
Para as empresas, a incerteza não se limita aos preços dos produtos. Afeta o custo do financiamento, o abastecimento de matérias-primas e a capacidade de planear investimentos futuros.
Gilles Bonn-Long sublinhou a importância das estratégias de cobertura de risco, conhecidas como hedging.
“Do ponto de vista das empresas, é importante existirem políticas de cobertura de risco, para limitar a exposição à subida das taxas de juro variáveis”, explicou.
Apontou como exemplos os instrumentos financeiros de troca de taxas de juro (interest rate swaps) e as estratégias equivalentes para riscos ligados aos preços das matérias-primas.
Uma visão mais otimista é apresentada por Ralf Kesten, da fintech alemã cflox, especializada na gestão de capital de giro.
Como explica à Euronews, as subidas das taxas de juro e as sucessivas crises dos últimos anos agravaram os custos de funcionamento das empresas, pressionando a sua liquidez. No entanto, considera que hoje existem mais soluções disponíveis para enfrentar estes desafios.
“Vemos os preços a aumentar, mas há também soluções que podem ajudar as empresas e evitar uma sobrecarga excessiva para os consumidores”, sublinha.
Nova normalidade exige adaptação
Os especialistas convergem num ponto essencial: a incerteza exige preparação.
Para os consumidores, isso implica ter uma visão mais clara das suas capacidades financeiras e maior cuidado com os compromissos que assumem. Para as empresas, significa identificar os riscos atempadamente e definir formas de os gerir.
Talvez o dilema mais relevante seja o que colocou Janet Legge: até que ponto podemos esperar até nos sentirmos seguros em relação à próxima decisão?
Numa época em que as condições mudam constantemente, disse-nos, a resposta não passa nem pela precipitação nem por adiar tudo. Passa pela capacidade de tomar decisões com informação suficiente, planeamento realista e margem de adaptação quando os dados se alteram.