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Extrema-direita quer remodelar a UE: Le Pen vs Weidel

Marine Le Pen (NR) e Alice Weidel (AfD)
Marine Le Pen (NR) e Alice Weidel (AfD) -  Direitos de autor  AP Photo
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De Vincenzo Genovese
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A líder da AfD, Alice Weidel, apresentou em Estrasburgo a sua visão para a UE, uma semana depois de Marine Le Pen o ter feito em Bruxelas. Ambas querem a União centrada na soberania nacional, mas divergem em política orçamental, energia e grau de reforma

Nem Marine Le Pen nem Alice Weidl defendem hoje a saída da União Europeia (UE). Ambas querem antes remodelá-la como uma aliança de Estados soberanos, com instituições mais fracas e poderes reduzidos.

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Se chegarem ao poder, os seus planos podem fragilizar a parceria franco-alemã que há muito impulsiona a integração europeia e redefinir o futuro da UE.

A líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel, apresentou o seu “Novo Acordo para a Europa” numa conferência de imprensa no Parlamento Europeu, na quarta-feira, uma semana depois de a francesa Marine Le Pen ter exposto a sua própria visão no luxuoso hotel The Hotel, em Bruxelas.

Ambas as dirigentes atravessam um momento de força eleitoral. Após uma grande vitória nas eleições regionais na Saxónia-Anhalt, em setembro passado, o partido de Weidel está a caminho de governar, pela primeira vez, um estado federado alemão e lidera atualmente as sondagens a nível nacional. “Estamos prontos para governar o país”, disse Weidel em Estrasburgo.

Em França, uma sondagem recente do instituto Ifop coloca Le Pen entre 34% e 38% na primeira volta das presidenciais de 2027, apesar da recente vaga de protestos em todo o país.

Tanto Le Pen como Weidl rejeitam a continuação do financiamento à Ucrânia, criticam o peso da regulamentação europeia, são contra uma integração mais profunda e querem limitar os poderes das instituições da UE.

Dividem-se, porém, na política orçamental, na energia e no grau em que os respetivos países devem afastar-se das regras comuns. A AfD vai mais longe e propõe derrogações (opt-outs) que permitam à Alemanha contornar determinadas políticas europeias.

A Euronews analisa os planos do Rassemblement National (RN) e da AfD para a Europa, destacando diferenças e semelhanças entre dois dos principais partidos de extrema-direita do continente.

Fim do dinheiro para a Ucrânia

Ambas as líderes concordam em pôr fim ao apoio financeiro à resistência ucraniana face à guerra de agressão da Rússia.

Na conferência de imprensa da semana passada, Le Pen argumentou que as finanças públicas francesas, já muito pressionadas, não conseguem continuar a suportar a ajuda a Kiev e defendeu o levantamento das sanções da UE contra a Rússia.

“Acordámos obviamente em manter toda uma série de mecanismos para formar os seus soldados, formar o seu exército, fornecer-lhes, nomeadamente, ajuda em termos de material, mas já não podemos financiar a Ucrânia, por isso este financiamento vai cessar”, afirmou.

Weidel disse na quarta-feira que quer um tratado de paz e apelou para uma “abordagem diplomática razoável” que tenha em conta os “interesses de segurança da Ucrânia e da Rússia”.

Numa entrevista recente à revista The Economist, sustentou que a Ucrânia já perdeu a guerra e comprometeu-se a pôr fim ao apoio alemão a Kiev.

Política orçamental: a maior clivagem

A diferença mais marcante está na forma como encaram a política orçamental.

Le Pen quer harmonizar a tributação do tabaco, do álcool e das grandes empresas a nível europeu para evitar a concorrência fiscal desleal entre países. Sugeriu ainda que o Banco Central Europeu (BCE) reveja o seu mandato, dando mais peso ao crescimento económico em vez de se concentrar apenas na estabilidade de preços.

“Como sempre defendi, o BCE tem de repensar a sua atuação. É essencial que tenha em conta o emprego, o crescimento e a inovação, dado que as políticas de flexibilização monetária seguidas entre 2010 e 2022 não foram orientadas para investimentos de futuro”, afirmou na semana passada.

A AfD, pelo contrário, recusa qualquer transferência de soberania orçamental para instituições supranacionais e defende que o BCE deve cingir-se estritamente ao mandato original de estabilidade de preços.

“Existe uma proibição de o BCE, o Banco Central Europeu, financiar dívida pública. E o que é que o BCE faz? Financia dívida pública”, criticou Weidel.

Ambas as líderes são contra a emissão de dívida comum da UE e querem reduzir a contribuição dos seus países para o orçamento europeu. Le Pen pretende limitar a contribuição líquida francesa a 5 mil milhões de euros por ano. Nem Weidel nem o documento “Novo Acordo para a Europa” da AfD avançam um valor, sublinhando apenas a necessidade de “acabar com o papel da Alemanha de principal financiador”.

Energia: taxa europeia de carbono na fronteira ou liberdade para usar carvão

Em matéria de energia e clima, ambos os partidos criticam o Pacto Ecológico Europeu e apoiam a energia nuclear, mas seguem caminhos distintos.

Le Pen rejeitou o rótulo de “cética em relação ao clima” para o seu partido, apoiou uma taxa de carbono na fronteira da UE e propôs ligar a contribuição dos Estados-membros para o orçamento europeu às suas emissões de carbono, de forma a incentivar a transição para energias limpas.

“Quanto mais um país se desviar das metas do [Acordo de Paris], mais deverá contribuir”, defendeu.

O documento da AfD, por seu lado, insiste na liberdade total de escolha do mix energético nacional, o que, na leitura do partido, significa que a Alemanha deve poder recorrer à energia nuclear, ao carvão, ao gás e às renováveis consoante as necessidades da sua economia.

“Neste momento dependemos totalmente de uma transição energética ideológica baseada na energia eólica e solar. Vemos esta evolução em toda a Europa, com a aplicação do Pacto Ecológico, da lei da energia nos edifícios e, sobretudo, com a proibição dos motores de combustão. Isto é uma distorção flagrante da economia de mercado”, afirmou.

Le Pen visa a Comissão e AfD procura enfraquecer também o Parlamento

Ambos os partidos querem que a Comissão Europeia seja esvaziada de poderes e transformada num “secretariado ao serviço dos países”, como disse Le Pen.

“A Comissão quer ser um Estado, nós não o queremos”, afirmou, rejeitando qualquer ambição executiva da UE em matéria de segurança, diplomacia e informações. Le Pen quer ainda abolir o Comité das Regiões e o Comité Económico e Social Europeu, dois órgãos consultivos que representam as autoridades locais e os parceiros sociais.

Weidel adota uma posição semelhante. “Não queremos uma Comissão que não é eleita a intrometer-se e a perturbar a vossa vida privada e o processo de decisão dos Estados-membros”, disse.

A AfD vai um passo mais longe, ao questionar a própria legitimidade do Parlamento Europeu e ao defender uma Europa centrada em Estados-nação soberanos.

Uma das propostas mais profundas do “Novo Acordo para a Europa” afirma: “O PE deixará de ser eleito diretamente, passando a ser composto por delegados designados pelos parlamentos nacionais.”

Estratégias diferentes para mudar a UE

Le Pen prevê remodelar a UE após as eleições em Espanha, França, Itália e Polónia, onde se espera que os partidos de extrema-direita vençam ou registem ganhos significativos.

O partido Lei e Justiça pode regressar ao poder na Polónia, enquanto o Vox poderá integrar o governo em Espanha ao lado do Partido Popular. Em França, Marine Le Pen poderá tornar-se a primeira presidente de extrema-direita do país.

**“**Esta será a nossa empreitada comum para os próximos anos e décadas. [...] Não consistirá apenas em desfazer o que foi muito mal feito nos últimos 30 anos em palco europeu”, declarou, afirmando que a nova “Europa das nações” contará com instituições europeias sem qualquer autoridade sobre os Estados-membros.

A AfD, em contraste, aponta 2029 como ano decisivo para a reforma da UE, quando as eleições europeias poderão dar uma “maioria patriótica de direita no Parlamento Europeu”.

O partido também admite opções nacionais de rutura caso falhe o seu plano de reforma da UE. Entre elas está o recurso amplo a derrogações para a Alemanha em domínios como a livre circulação, a defesa, a fiscalidade, a política social e as migrações.

“Se o sistema Schengen acabou e não funciona, temos de sair de Schengen e proteger as nossas fronteiras”, afirmou Weidel, apontando os desafios à livre circulação em episódios como a chegada em massa de migrantes irregulares a Ceuta em julho passado.

A derrogação em matéria de migrações significaria que a Alemanha “deixará de participar em quaisquer mecanismos europeus de redistribuição [de migrantes] ou quotas de asilo”, perturbando o Pacto de Migração da UE. Berlim detém atualmente a maior quota de solidariedade da União e é responsável pela recolocação, em 2026, de 4 555 requerentes de asilo a partir de Estados-membros na linha da frente.

AfD deixa em aberto saída da UE

Se reformas profundas da estrutura da UE se revelarem impossíveis, o plano da AfD afirma que “o povo alemão deverá então decidir por si próprio”, formulação que pode ser interpretada como referência implícita a um referendo sobre a permanência na União Europeia como último recurso, embora Weidel não tenha mencionado essa possibilidade na conferência de imprensa.

Le Pen, que durante anos defendeu com firmeza a saída de França da UE, foi gradualmente abandonando essa ideia, optando por uma estratégia de reforma radical do bloco a partir de dentro durante a campanha presidencial de 2022.

Dave Sinardet, politólogo belga especialista em partidos de extrema-direita, considera irrealista um cenário de saída da UE.

“A maioria dos partidos da direita radical evoluiu, nos últimos anos, na sua posição em relação à UE”, afirmou à Euronews, acrescentando que, depois do Brexit, nenhuma força política pondera seriamente abandonar a União.

“Também neste ponto, a AfD está a seguir a mesma direção que o RN já seguiu no passado. Estão a abandonar essas ideias, tal como Le Pen abandonou o Frexit”, concluiu.

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