No grande comício de campanha em Orleães, a candidata de extrema-direita líder nas sondagens defendeu um "Renascimento da França”, prometeu o “regresso da autoridade” e denunciou a insegurança, uma semana após os graves episódios de violência que abalaram o país.
Marine Le Pen apresentou as grandes linhas do seu projeto presidencial perante milhares de militantes, no primeiro comício de campanha na cidade francesa de Orleães.
Um discurso marcado pela ideia de “elevação”, no qual afirmou querer oferecer à França _“_uma alternativa”, que, segundo disse, não é “um ato revolucionário, mas uma respiração normal da democracia”.
Apontada como favorita em todas as sondagens a seis meses da votação, a candidata de extrema-direita considera essa alternativa necessária. “Ninguém pensa que hoje estamos mais fortes do que ontem, nem que, após dez anos de Emmanuel Macron, caminhamos sobre um campo de pétalas de rosa”, declarou.
Para Marine Le Pen, “a batalha do diagnóstico está ganha”: “toda a gente em França está de acordo connosco”.
“O Estado de direito não é o direito contra o Estado”
Entre as prioridades em caso de vitória em maio de 2027, a candidata do Rassemblement National promete mais segurança aos franceses. Denuncia aquilo que considera ser falhas da justiça sob Emmanuel Macron, que considera demasiado permissiva.
“Quem pode dizer que existe um Estado de direito quando hordas vêm saquear, incendiar os nossos edifícios ou organizar verdadeiras razias à frente de forças de segurança voluntariamente desarmadas, material e moralmente?”, atirou, numa referência aos saques e confrontos de 17 de outubro, à margem das manifestações contra o aumento do custo de vida.
“O Estado de direito não é o direito contra o Estado”, prosseguiu Marine Le Pen, prometendo “a certeza” da instauração de processos e da execução das penas, bem como a expulsão de delinquentes estrangeiros.
Defendendo a sua linha soberana, Marine Le Pen defendeu também a “prioridade nacional”, afirmando querer restabelecer “uma dupla fronteira: francesa e europeia”.
No plano internacional, sem se referir explicitamente à Ucrânia, garantiu por fim que França “não vai enviar” os seus jovens para “morrer em aventuras guerreiras insensatas ou irresponsáveis, e ainda menos em guerras que não são as nossas”.
Jordan Bardella critica LFI após episódios de violência urbana
Antes do discurso de Marine Le Pen, que disse querer “ganhar perspetiva”, Jordan Bardella apresentou-a em palco criticando abertamente o Governo e regressando à atualidade explosiva da semana.
“Os franceses viram um poder deposto, demissionário, que abdicou da própria ideia de proteger os nossos compatriotas”, declarou, denunciando a violência registada à margem do movimento social.
Segundo o presidente do RN, a sua formação política “apareceu como o único recurso que permite o restabelecimento da ordem e o regresso da autoridade”.
Enquanto a multidão reunida no palácio de congressos de Orleães gritava “Macron, demissão”, respondeu: “Não se preocupem, ele não vai demorar a partir, está previsto e será para breve”.
Jordan Bardella atacou igualmente a La France insoumise e Jean-Luc Mélenchon, que apoiam o movimento dos estudantes do secundário e, de forma mais ampla, a mobilização social, acusando o partido da esquerda radical de “soprar sobre as brasas da insurreição”, o que, segundo afirmou, desqualifica a LFI “para aspirar às mais altas funções do Estado”.
Início do discurso de Jordan Bardella é perturbado
No início do discurso, foi observado um movimento de multidão numa bancada. Jordan Bardella apelou então a “não dar publicidade à ultraesquerda que detesta a democracia”.
“Enquanto os serviços de segurança fazem o seu trabalho, peço-vos que cantem a Marselhesa”, prosseguiu.
As circunstâncias do incidente não eram imediatamente claras. Mais tarde, a União dos Estudantes Judeus de França (UEJF) publicou uma mensagem na plataforma X, afirmando que militantes da organização tinham vindo erguer uma faixa com a inscrição: “Bardella reeleito: o racismo e o antissemitismo não incomodam o RN, pelo contrário”.
Esta ação remetia para revelações do Mediapart sobre textos antissemitas atribuídos a Jordan Bardella quando tinha 18 anos. Acusações que rejeita.
Le Pen entra em campanha, Bardella mantém comando do partido
O comício de Orleães teve lugar no dia seguinte ao congresso do Rassemblement National, realizado sob forte vigilância policial, que reconduziu Jordan Bardella à liderança do partido.
Bardella, único candidato à própria sucessão, foi reeleito com 98,98 % dos votos. Chegou a ser apontado como potencial candidato ao Eliseu caso a condenação de Marine Le Pen no processo dos assistentes parlamentares europeus a tivesse impedido de fazer campanha.
Esta reeleição vem oficializar a distribuição de papéis no seio do duo, apresentado aos franceses como uma “dupla vencedora”: Marine Le Pen entra em órbita para as presidenciais, enquanto Jordan Bardella, reforçado à frente do RN, se posiciona para se tornar seu primeiro-ministro em caso de vitória.
Outro dado saído do congresso: Marine Le Pen renunciou a presidir ao grupo do RN na Assembleia Nacional, em nome da campanha presidencial. O deputado Sébastien Chenu, um dos seus próximos, sucede-lhe no cargo.
“É o único partido que ainda não experimentámos”
O comício reuniu 8 500 militantes, segundo os organizadores.
“Estou aqui porque voto em Marine Le Pen. Quero há muito tempo que se torne presidente, porque, para mim, o país está muito mal hoje e penso que é a única que o pode recuperar”, testemunha Karine, uma simpatizante, ao microfone da Euronews, antes do início do comício.
Entre as prioridades, cita a segurança, o trabalho, a habitação, temas que, segundo diz, “fazem o país funcionar”. Diz compreender “a angústia dos jovens”, mas lamenta o seu “comportamento”, denunciando os excessos à margem das manifestações contra o custo de vida.
Outro participante insiste igualmente na segurança e no poder de compra. “Estamos aqui para representar o nosso país, a França, para representar tanto os mais jovens como os mais velhos”, explica.
E resume a sua escolha: “Em todo o caso, é o único partido que ainda não experimentámos, por isso queremos experimentar”.
“Alguns teriam gostado que não viessem”
Na manhã de sábado, uma manifestação convocada por vários sindicatos e partidos de esquerda contra a realização do congresso juntou, de forma pacífica, entre 13 mil pessoas, segundo a préfecture, e 26 mil, de acordo com os organizadores.
“Alguns teriam gostado que não viessem”, escreveu Marine Le Pen na plataforma X, dirigindo-se aos seus simpatizantes e saudando o ambiente no Zénith de Orleães.
Noutros pontos do país, o segundo ato da mobilização contra a vida cara e a política do Governo levou às ruas entre 410 e 800 mil pessoas. Confrontos irromperam pontualmente no final dos desfiles, enquanto foram registadas 1 314 detenções.
No domingo, a polícia efetuava controlos a veículos à entrada de Orleães. Um pequeno cortejo não autorizado, com algumas dezenas de pessoas, tentou chegar ao palácio de congressos, entoando slogans antifascistas.
De acordo com a préfecture da região Centro-Val de Loire e do Loiret, 3 mil membros das forças de segurança e dos serviços de socorro estão mobilizados este fim de semana em Orleães para garantir a manutenção da ordem.
Os sindicatos e os coletes amarelos prometeram prosseguir as manifestações nas próximas semanas, fazendo prever um período de fortes tensões à aproximação da eleição presidencial.
Marine Le Pen, por seu lado, acusou o Governo de Emmanuel Macron de falta de autoridade e de “negar a realidade” perante a violência registada a 17 de outubro.