Contrariando o chefe da Ryanair, o diretor da EasyJet na Alemanha vê grande potencial de crescimento no aeroporto de Berlim e explica à Euronews, em exclusivo, que condições são necessárias
Recentemente, foi o encerramento da base da Ryanair no aeroporto de Berlim que chamou a atenção. Como consequência, a presidente do aeroporto de Berlim reviu em baixa as previsões de passageiros. Mas o diretor da EasyJet para a Alemanha, Stephan Erler, explica em entrevista à Euronews por que continua a acreditar no potencial do aeroporto berlinense BER.
“O aeroporto BER, enquanto aeroporto da região da capital, dispõe de um potencial de crescimento significativo”, afirma Stephan Erler, country manager para a Alemanha e a Suíça na EasyJet.
Segundo a companhia, a EasyJet é atualmente a maior transportadora aérea a operar no aeroporto BER, em Berlim. A empresa tem onze aviões baseados na cidade e oferece cerca de 60 rotas de e para Berlim.
O investimento da companhia em Berlim mostra que continua a "acreditar no potencial do aeroporto”, afirma Erler. “No programa de verão de 2027 voltamos a reforçar a nossa oferta com duas novas ligações diretas para Ljubljana e Rimini, aumentamos as frequências em algumas rotas e acrescentamos cerca de 14 voos semanais adicionais.”
Ainda assim, Erler admite que, para aproveitar plenamente o potencial do aeroporto de Berlim, o enquadramento tem de se tornar mais competitivo.
Um dos grandes handicaps para a Alemanha tem a ver, atualmente, com os elevados custos de operação nos aeroportos. Segundo Erler, o país continua a ser um dos mercados de transporte aéreo mais caros da Europa.
“Encargos estatais elevados, como o imposto sobre o transporte aéreo, e taxas relativamente altas de navegação e segurança aérea dificultam o crescimento e o investimento. A concorrência já não se faz apenas entre aeroportos individuais, mas cada vez mais entre países enquanto destinos de transporte aéreo”, sublinha Erler.
Alemanha cobra as taxas mais altas no transporte aéreo da UE
Segundo uma análise da Federação Alemã da Indústria de Transporte Aéreo (BDL), os voos de e para aeroportos alemães implicam custos entre 4 000 e 5 000 euros. Estes valores resultam do imposto nacional sobre o transporte aéreo, das taxas de segurança, como os controlos nos aeroportos, e das tarifas de navegação aérea.
Na Alemanha, os custos aeroportuários de origem estatal quase duplicaram desde 2020, de acordo com o BDL. A federação lembra que apenas metade dos Estados-membros da UE aplica qualquer tipo de taxa sobre o transporte aéreo e que, em nenhum outro país, esse encargo é tão elevado como na Alemanha.
Isso faz com que, noutros países, os custos sejam substancialmente mais baixos para as companhias aéreas: cerca de 2 183 euros em Roma, em Itália, e 661 euros em Madrid, em Espanha.
Alemanha: chefe da easyJet pede mais medidas ao governo
Para as companhias aéreas europeias, o montante destas taxas é um fator crucial na avaliação da rentabilidade, alerta o BDL. Os custos aeroportuários têm, por isso, impacto direto na ligação de uma economia ao transporte aéreo internacional.
“Países como a Polónia oferecem às companhias aéreas um contexto de custos muito mais favorável. Beneficiam disso aeroportos como Poznań ou Wrocław, que se tornam cada vez mais atrativos também para viajantes do leste da Alemanha”, afirma o responsável da EasyJet na Alemanha, Erler.
Também para a EasyJet, acrescenta o responsável, condições competitivas são determinantes nas decisões sobre investimento e capacidade. “Por isso é tão importante avançar com novas medidas para reforçar a atratividade da Alemanha como destino de transporte aéreo”, defende Erler.
O Governo federal reduziu o imposto sobre o transporte aéreo a partir de 1 de julho de 2026, para aliviar o setor da aviação na Alemanha. As taxas fiscais regressaram aos níveis anteriores a maio de 2024, o que se traduz em poupanças entre 2,50 euros e 11,40 euros por passageiro. Erler considerou a medida “um sinal importante”, mas sublinhou que o impacto real ficou aquém das expectativas iniciais.
Um estudo encomendado pela Câmara de Indústria e Comércio de Berlim (IHK) dá respaldo às exigências das companhias aéreas por maior competitividade. Segundo o Instituto de Investigação Económica Aplicada (IAW), de Tubinga, sete destinos adicionais de longo curso a partir de Berlim poderiam gerar cerca de 3,2 mil milhões de euros de valor acrescentado bruto por ano.
Num horizonte de dois a cinco anos, além do aumento de valor acrescentado, poderiam ser criadas várias dezenas de milhares de postos de trabalho. Para tal, a IHK recomenda, entre outras medidas, melhor promoção e maior previsibilidade, como já noticiado pela Euronews.
Preços do combustível e regras da UE tornam voar mais caro
Também os preços do crude e de produtos refinados como o querosene dispararam após o início da guerra com o Irão e o fecho de facto do estreito de Ormuz. O Brent do Mar do Norte, principal referência internacional, era negociado na quarta-feira a 109,86 dólares, próximo de um máximo de cinco meses.
Os custos aumentam ainda devido a uma regulamentação válida em toda a UE que pretende tornar o transporte aéreo mais sustentável. Desde janeiro de 2025, as companhias aéreas são obrigadas a misturar uma determinada percentagem de Sustainable Aviation Fuel (SAF, combustível de aviação sustentável) ao querosene. Trata-se de um substituto do combustível fóssil produzido a partir de matérias-primas não fósseis, como óleos alimentares usados, resíduos biológicos ou combustíveis sintéticos.
Com esta medida, a UE pretende reduzir as emissões de CO2 da aviação e fixou, numa primeira fase, uma quota de mistura de 2 %. Até 2030, a meta sobe para 6 % e, até 2050, para 70 % de SAF no total do combustível. Segundo a Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA), este combustível não fóssil é, porém, 2,8 vezes mais caro do que o querosene convencional.
Transporte aéreo cresce de forma desigual na UE
Ao contrário do que acontece na Alemanha, o tráfego aéreo europeu está a crescer, segundo os dados mais recentes do Eurostat. Em junho, o número de voos aumentou 2,1 % em termos homólogos e, em julho, 2,8 %, apesar da pressão dos preços mais elevados do combustível.
Em agosto, porém, o crescimento não foi uniforme entre os Estados-membros. Em 19 países da UE houve mais voos regulares do que no ano anterior, enquanto em oito países, incluindo a Alemanha, o número de ligações recuou. Alguns mercados mais pequenos da Europa Central e de Leste e da região mediterrânica, como a Eslováquia, Malta e a Estónia, registaram uma evolução particularmente dinâmica.
Numa previsão divulgada em junho, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) estimou que o lucro líquido conjunto das companhias europeias desça dos cerca de 13 mil milhões de dólares (11,5 mil milhões de euros) em 2025 para 9,6 mil milhões de dólares em 2026. A principal razão apontada pela associação prende-se com os custos de combustível, que representam uma fatia muito significativa das despesas operacionais e se refletem rapidamente nas contas quando os preços sobem.