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Estados Unidos: Fed mantém juros perto das intercalares, dois pedem nova subida

ARQUIVO. Presidente do Conselho da Reserva Federal Kevin Warsh fala durante conferência de imprensa em Washington, 16 set. 2026
ARQUIVO. O presidente do Conselho da Reserva Federal, Kevin Warsh, fala numa conferência de imprensa em Washington, 16 set. 2026 -  Direitos de autor  AP Photo/Mark Schiefelbein
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De Quirino Mealha
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Reserva Federal mantém juros seis dias antes das intercalares, mas 2 responsáveis, incluindo Lisa Cook, que Trump quer demitir, votam subida, inflação em 3,7% e investidores a contar com aumento em dezembro

A Reserva Federal manteve, esta quarta-feira, a taxa de juro directora entre 3,75% e 4%, interrompendo o ciclo após ter aumentado o custo do crédito em setembro pela primeira vez em três anos.

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Ainda assim, o comité de política monetária dividiu-se, com dez votos contra dois: a governadora da Fed Lisa Cook, que o presidente norte-americano Donald Trump procura afastar, e a presidente da Fed de Cleveland Beth Hammack defenderam ambas um novo aumento de um quarto de ponto percentual.

A decisão surge a menos de uma semana das eleições intercalares nos EUA e, com a inflação em 3,7% e os preços da energia em níveis elevados, os mercados continuam a esperar uma nova subida de juros em dezembro.

A divisão contrasta com setembro, quando o comité de fixação de taxas da Fed aprovou a subida de forma unânime.

A presidente da Fed de Dallas, Lorie Logan, também apontada como possível voto a favor de juros mais altos, apoiou a decisão. Alguns economistas tinham argumentado que eventuais votos contra poderiam até ajudar o presidente da Fed, Kevin Warsh, ao mostrarem que continua a haver apoio no comité para uma política monetária mais restritiva.

No comunicado, a Fed afirma que “a inflação permanece elevada”, acrescentando que a recolha de mais informação ajudará a decidir a orientação necessária “para assegurar um regresso atempado da inflação” ao objectivo de 2% e reiterando que “vai garantir a estabilidade de preços”.

A formulação mantém em aberto as opções da Fed. Em setembro, o banco tinha afirmado que a subida apoiaria um retorno “mais célere” ao seu alvo.

ARQUIVO. Kevin Warsh, presidente do Conselho da Reserva Federal, fala numa conferência de imprensa em Washington, 16 set. 2026
ARQUIVO. Kevin Warsh, presidente do Conselho da Reserva Federal, fala numa conferência de imprensa em Washington, 16 set. 2026 AP Photo/Mark Schiefelbein

A Fed também reviu em alta a avaliação da economia, ao afirmar que a actividade “está a expandir-se a um ritmo forte”, em vez de “sólido”, como em setembro, embora a incerteza se mantenha elevada “em parte devido a desenvolvimentos geopolíticos”.

Em junho e julho, nas duas primeiras reuniões presididas por Warsh, o banco apontava antes para “o conflito no Médio Oriente” e atribuía a inflação acima da meta, em parte, a choques de oferta em sectores “incluindo a energia”.

Desde setembro, essas referências desapareceram dos comunicados, que se tornaram menos específicos quanto à guerra com o Irão.

Desde a última subida, vários responsáveis de topo têm minimizado a urgência de voltar a agir. O vice-presidente Philip Jefferson apontou para uma forte subida dos custos de financiamento de longo prazo, enquanto o presidente da Fed de Nova Iorque, John Williams, afirmou que “não há necessidade de urgência”.

O voto dissidente de Cook surge numa altura em que o presidente Donald Trump prossegue os esforços para a afastar devido a alegações de fraude hipotecária que ela nega. O chefe de Estado criou um comité de três pessoas para recomendar se existe fundamento para demitir Cook, nomeada pelo antigo presidente Joe Biden, e espera-se que ela compareça perante esse painel na próxima semana.

Em junho, o Supremo Tribunal dos EUA travou uma tentativa anterior de a destituir.

Estados Unidos: inflação mantém pressão sobre a Fed

Os argumentos a favor de uma política mais restritiva continuam presentes.

Os preços ao consumidor nos EUA subiram 3,7% em setembro face ao mesmo mês do ano anterior, enquanto a inflação subjacente, que exclui alimentos e energia, aumentou para 2,6%.

A gasolina, que custa mais de 4 dólares por galão há três meses, foi responsável por mais de metade da subida dos preços em setembro, e o gasóleo atingiu um máximo histórico de 6,53 dólares por galão no final do mês.

O Brent, referência global para o preço do petróleo, caiu mais de 6% na segunda-feira, à medida que a diplomacia em torno da guerra com o Irão ganhou impulso, e era negociado perto de 111,75 dólares por barril no final de quarta-feira, ainda muito acima dos cerca de 72 dólares registados antes do início do conflito, no final de fevereiro.

Os custos de financiamento mais altos já se fazem sentir, com a taxa média das hipotecas a 30 anos nos EUA a atingir um máximo de três anos, de 7,4%, no início de outubro.

A criação de emprego também abrandou de forma marcada, com os empregadores a acrescentarem apenas 29 000 postos de trabalho em setembro e o desemprego a subir para 4,2%, embora a Fed destaque que os aumentos de emprego “têm acompanhado o crescimento da força de trabalho”.

Apesar disso, a economia tem resistido.

No segundo trimestre, o PIB cresceu a uma taxa anualizada de 2,2% e o indicador GDPNow da Fed de Atlanta aponta para 3,5% no terceiro trimestre.

Warsh comenta decisão da Fed

Ao falar com jornalistas após a decisão, Warsh repetiu em larga medida o comunicado da Fed, afirmando que “a despesa interna tem sido resiliente, o crescimento da produtividade é forte e o investimento em capital é robusto”, mas que “a inflação permanece elevada”.

Disse que mais informação ajudará o comité a decidir a orientação necessária “para assegurar um regresso atempado da inflação à meta de 2%”, acrescentando que “o comité vai garantir a estabilidade de preços”.

Warsh tem sido, há muito, um opositor da ‘forward guidance’, a prática de sinalizar ao mercado decisões futuras. Ao falar em Banguecoque no início deste mês, afirmou: “Não tomo decisões antecipadamente sobre as reuniões”.

Anunciou também uma reorganização do calendário do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC), responsável pela definição das taxas de juro nos EUA. O comité continuará a reunir-se oito vezes por ano mas, a partir do próximo outono, algumas dessas reuniões serão dedicadas à discussão de estratégia, em vez de à fixação de taxas.

“Acreditamos que oito reuniões por ano é o número certo para o FOMC, mas em 2027 uma reunião será dedicada exclusivamente à estratégia ampla de política monetária, sem votação sobre a taxa dos fundos federais nem comunicado de política previsto”, afirmou Warsh.

Acrescentou que espera que “em 2028 tenhamos duas reuniões dedicadas às discussões de estratégia e seis à definição da política”, o que significa que a Fed decidirá as taxas sete vezes em 2027 e apenas seis vezes em 2028, menos do que as oito atuais.

Após a decisão, os mercados passaram a atribuir uma probabilidade de 87,5% a uma nova subida de um quarto de ponto na reunião da Fed de 8 e 9 de dezembro, acima dos 73% de terça-feira, segundo a ferramenta FedWatch do CME Group, que acompanha os futuros sobre taxas de juro.

Os investidores não terão de esperar muito pelos próximos sinais.

Esta quinta-feira, às 13h30 CET, os EUA divulgam a primeira estimativa do crescimento no terceiro trimestre e os dados de setembro do indicador de inflação preferido pela Fed, o índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE).

Depois, o foco desloca-se para a Europa.

O Banco Central Europeu anuncia a sua própria decisão na quinta-feira e é amplamente esperado que mantenha a taxa de depósito em 2,5%, numa altura em que a turbulência no mercado obrigacionista francês domina a atenção dos investidores.

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