Na sequência de um acordo para travar as importações de carros híbridos chineses, eurodeputados exigem medidas semelhantes noutros setores industriais e alertam que o modelo económico chinês baseado nas exportações ameaça empregos e indústrias europeias.
Uma delegação de eurodeputados alertou a China de que o seu modelo económico assente nas exportações é insustentável para a Europa, exigindo limites às importações baratas em mais setores industriais, numa altura em que Bruxelas aumenta a pressão sobre Pequim para reequilibrar o comércio.
O alerta surgiu durante uma visita à China de 12 eurodeputados, que instaram Pequim a desenvolver o acordo alcançado no início deste mês para limitar as exportações de carros híbridos chineses para a UE.
O défice comercial da UE com a China atingiu o valor recorde de 360 mil milhões de euros e continua a aumentar, à medida que importações chinesas de baixo custo inundam o mercado europeu, ameaçando empregos e indústrias.
“O recente acordo TIC [Trade and Investment Consultations] sobre importações de carros híbridos é um bom ponto de partida para estabilizar um comércio justo e gerar benefícios para as pessoas no terreno”, afirmou o eurodeputado socialista alemão Bernd Lange, presidente da comissão de comércio do Parlamento Europeu, após a visita.
“No entanto, deixámos claro aos nossos homólogos chineses que esperamos ver mais setores a seguir a mesma abordagem no futuro.”
Ao abrigo do acordo de outubro, a UE vai introduzir quotas específicas por país que permitem a entrada anual de 350.000 carros híbridos chineses no mercado europeu durante quatro anos, com uma taxa de ajustamento anual fixa de 6%.
Mas limitar só as importações de carros híbridos fará pouco para inverter o desequilíbrio comercial crescente.
A UE e a China entraram numa nova fase de negociações, com as conversações a deverem prolongar-se pelo menos até março de 2027, quando o comissário europeu do Comércio, Maroš Šefčovič, se deverá reunir com o seu homólogo chinês, Wang Wentao.
“Perdas de emprego significativas”
O tema foi levantado durante uma reunião entre a delegação de eurodeputados e Wang na China, onde as exportações se tornaram uma pedra basilar da estratégia industrial de Pequim.
“O modelo de exportação chinês simplesmente não é sustentável para a UE”, afirmou também o eurodeputado liberal francês Pascal Canfin, relator permanente para as relações comerciais com a China.
Face à urgência, os líderes da UE encarregaram a Comissão Europeia, numa cimeira no início deste mês, de impor quotas e tarifas unilaterais às importações de produtos químicos e maquinaria industrial, outros dois setores seriamente ameaçados pela concorrência chinesa.
Enquanto as negociações prosseguem, a Comissão trabalha também num “kill-switch” que cortaria o acesso da China ao mercado único em caso de distorções provocadas por pressão económica.
A UE está igualmente a enfrentar práticas comerciais desleais da China através de investigações produto a produto, mas os países da UE consideram isto insuficiente, dado que as importações chinesas ameaçam setores inteiros da indústria europeia.
Na sexta-feira passada, depois de se reunir com os 27 ministros do Comércio da UE, Šefčovič afirmou que todos os chefes de Estado ou de governo estão “preocupados” com a possibilidade de haver “grandes perdas de postos de trabalho”.
“Temos de avançar não só com as técnicas tradicionais de comércio, mas também com uma abordagem muito política”, acrescentou.