Encontra-nos
Publicidade

Será que a adesão do Canadá à UE enquanto "membro associado" já está morta?

Primeiro-ministro canadiano Mark Carney e presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen chegam a evento de promessas de alto nível da OceanEye International Alliance
Primeiro-ministro canadiano Mark Carney e presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen chegam a evento de alto nível de promessas para OceanEye International Alliance -  Direitos de autor  The Canadian Press/Justin Tang
Direitos de autor The Canadian Press/Justin Tang
De Luca Bertuzzi
Publicado a
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

O termo "adesão como membro associado" foi retirado do texto da cimeira UE-Canadá na sequência da oposição alemã, o que representou um duro golpe para a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen. No entanto, ambas as partes continuam empenhadas em reforçar a sua parceria.

Apenas algumas semanas depois de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ter revelado um novo e ousado plano para as relações com países terceiros, a começar pelo Canadá, a ideia de "adesão associada" foi discretamente abandonada. Será que a sua grande visão já encalhou?

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Na quarta-feira, todas as referências ao estatuto de membro associado foram retiradas da declaração conjunta que deverá ser adotada na cimeira UE-Canadá desta semana, na sequência de objeções de vários Estados-membros, liderados pela Alemanha.

Em vez disso, o texto acordado pelos Estados-membros refere o desenvolvimento de uma "associação cada vez mais estreita" entre a UE e o Canadá, sem chegar a abordar a adesão plena.

"Teria sido muito melhor ter unidade entre os Estados-membros quanto à redação inicial, mas temos uma base sólida que foi acordada. E estamos a concretizar os pormenores. Mas, acima de tudo, temos uma abordagem comum no que diz respeito ao objetivo que pretendemos alcançar", afirmou na quinta-feira a porta-voz principal da Comissão, Paula Pinho.

Pode parecer uma distinção semântica, mas equivale a um revés político embaraçoso para von der Leyen, que em setembro apresentou a ideia de o Canadá se tornar o primeiro membro associado da UE, com grande aparato.

Ao chegar a Montreal para a cimeira, von der Leyen mostrou-se determinada a avançar de qualquer forma.

"Temos uma nova ambição: aproximar o Canadá mais do que nunca, enquanto membro associado da UE. E queremos levar a nossa parceria única ainda mais longe", escreveu no X.

No entanto, apesar do jogo de palavras, o texto final deixa poucas dúvidas de que o formato tão alardeado não conseguiu conquistar o apoio dos governos europeus, que von der Leyen não consultou antes de fazer a sua grande proposta ao Canadá.

O seu próprio país, a Alemanha, liderou a iniciativa para remover o termo, argumentando que o conteúdo da nova parceria deveria ser definido antes de se atribuir um rótulo com potenciais implicações jurídicas, e não o contrário.

Há aqui uma ironia. O estatuto de membro associado foi proposto em maio passado pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, como uma forma de oferecer à Ucrânia garantias de segurança enquanto trabalhava para a adesão plena à UE.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy rejeitou a proposta, que nunca foi devidamente discutida entre os países da UE. Berlim, claro, nega que esta seja a verdadeira razão pela qual se opôs tão veementemente à adesão associada do Canadá.

"O que a UE pode fazer é de natureza técnica, é uma abordagem setor por setor. A 'adesão associada' proporcionava um pacote para isso; atribuía um rótulo à parceria", afirmou um diplomata da UE à Euronews, falando sob condição de anonimato.

Talvez ainda mais revelador, o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, nunca aderiu plenamente à ideia de von der Leyen, preferindo a noção de uma "Aliança para o Futuro".

“A presidente usou ambos os termos. A nomenclatura exata é uma questão que cabe à Europa", afirmou Carney numa conferência de imprensa após o discurso de von der Leyen, quando questionado sobre se se sentia à vontade com o conceito de "adesão associada".

Mais uma vez, a semântica esconde visões de mundo diferentes. Para Carney, a Aliança para o Futuro é um conceito aberto: um grupo de potências médias que ele defendeu no seu discurso histórico em Davos, em janeiro, como um novo quadro para salvaguardar a estabilidade global e a ordem baseada em regras.

A UE, em contrapartida, não se considera uma potência média, como os responsáveis em Bruxelas gostam de lembrar a quem quer que os ouça. A adesão associada destinava-se a colocar o bloco no centro de uma nova coligação internacional de democracias — não meramente como um parceiro entre iguais, mas como o seu líder.

É por isso que qualquer acordo que a UE celebre com o Canadá tem importância para além das relações bilaterais. Outros países com visões semelhantes, como a Austrália, a Coreia do Sul e o Japão, estão a acompanhar de perto este processo, à procura de um possível modelo para a forma como Bruxelas interage com países terceiros.

"No mundo em que vivemos hoje, que não é dos mais fáceis, esta é a resposta certa: ter a coragem de pensar fora da caixa, ter a coragem de fazer algo novo e ter a coragem de definir uma visão", afirmou um responsável da UE, também sob condição de anonimato.

Von der Leyen pode ter exagerado, prometendo uma parceria que não conseguiu concretizar porque se antecipou demasiado aos Estados-membros. Ainda assim, é difícil ignorar que as relações entre a UE e o Canadá nunca foram tão fortes como nos últimos meses.

Desde a exploração conjunta de matérias-primas críticas e a constituição de reservas comuns até ao acesso mútuo ao mercado em setores estratégicos como a IA e a nuvem, passando pela integração sistemática nos programas de defesa da UE e pela consulta atempada em áreas políticas importantes, a relação está em franca expansão.

Bernd Lange, o eurodeputado alemão que preside à Comissão do Comércio Internacional do Parlamento Europeu, afirmou que o desacordo sobre a terminologia não deve ofuscar os laços crescentes da UE com o Canadá.

"Deixar-se levar pelo debate sobre o nome da parceria apenas distrai do que realmente importa. Por isso, chamem-lhe o que quiserem, mas o que importa são ações concretas, não palavras. O impulso está aí", escreveu ele no X.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

UE retira referência a Canadá como “membro associado” da declaração conjunta

UE e Canadá estão mais próximos do que nunca. E o mundo está a ver

China: eurodeputados pressionam Pequim para travar exportações