Moradores, comerciantes e voluntários de Urda ofereceram comida, mantas, material médico e as suas próprias casas para assistir os feridos e acompanhar os familiares das vítimas da tragédia ferroviária, que já provocou pelo menos 69 mortos.
“Eu acho que a solidariedade humana do povo espanhol é fantástica, fantástica. Demonstrámo-lo ontem”: Antonio García, farmacêutico em Urda há 55 anos, resume assim a reação dos habitantes desta localidade de Toledo depois do acidente ferroviário que provocou pelo menos 69 mortos e mais de 180 feridos.
Foi uma das primeiras pessoas a chegar ao local do acidente e, ao perceber a dimensão da tragédia, voltou à farmácia para procurar material médico e regressar - juntamente com a família - para ajudar as vítimas.
“Eu achava que era um acidente muito ligeiro, quando não vi absolutamente nenhuma ambulância”, relata García. Mas, ao aproximar-se da cabine do AVE, deparou-se com uma cena “dantesca” que nunca esquecerá.
“Foi aí que vi uma tragédia dantesca. Havia ali um amontoado de ferros com cadáveres e vítimas moribundas a pedir-te um bocadinho de ajuda”, conta em entrevista à Euronews em frente à sua farmácia, uma das duas que existem nesta vila de cerca de 2 500 habitantes.
O farmacêutico recorda sobretudo o silêncio que encontrou entre os destroços dos comboios. “Eu acho que era porque já nem tinham forças para gritar”, explica. A primeira reação foi tentar aliviar o sofrimento dos feridos, colocando-lhes as cabeças de forma a estarem mais confortáveis, sem os mover, enquanto chegavam as equipas de emergência.
Quando se apercebeu de que não tinha os meios necessários, voltou a correr para a farmácia. “Levei todo o material médico que podia ajudar: soros, compressas, analgésicos, seringas, de tudo”, recorda. Depois regressou ao local do acidente com a mulher, os dois filhos e o genro. “Ali tentámos aliviar a dor de todos os que pudemos. Não sei se terá resultado ou não, mas pelo menos a dor física e mental acalmámos bastante”, afirma.
Comida, mantas e casas abertas às famílias
A resposta solidária não se limitou ao local do acidente. No pavilhão preparado para receber os familiares dos passageiros, os moradores organizaram-se para oferecer comida, bebida, mantas e tudo o que fosse necessário a quem aguardava notícias dos seus entes queridos.
Ana Pérez foi uma das voluntárias que ajudaram nestas instalações, onde também era prestado apoio psicológico. Ali assistiu a alguns dos momentos mais duros do dia, quando os médicos comunicavam às famílias a morte dos seus familiares.
“Houve pelo menos dois casos que eu vi em que eram falecidos. A uma mãe que perdeu o filho e depois a outra mulher que estava à espera do marido também lhe deram a notícia”, recorda durante a conversa com a Euronews. “Era horrível ver como aquela mulher... Eu tenho um filho de 20 anos e a mim partiu-se-me a alma, mesmo”.
Numa altura em que se viviam essas cenas, os moradores tentaram que nada faltasse a quem aguardava notícias. “Não faltava comida, mantas, tudo o que pudemos”, explica Pérez, que realça a implicação de lojas, bares, trabalhadores independentes e particulares. Cada um deu o que tinha ao seu alcance, desde alimentos até pratos descartáveis para poder servir comida quente.
“Os supermercados, os trabalhadores independentes, os bares... cada um levou o que pôde de casa”, relata. A voluntária recorda que alguns vizinhos levaram mantas e outros compraram utensílios para apoiar as famílias. “Mas, enfim, ontem o importante eram os familiares, eram as vítimas e fizemos o que tínhamos de fazer e pronto”, afirma.
Vila de Urda, “entregue” a vítimas e famílias
Por seu lado, Pilar Fernández, vereadora do município de Urda, também destaca a resposta espontânea dos habitantes do concelho. “A vila de Urda entregou-se por completo”, afirma.
Segundo explica, os moradores foram ao pavilhão com sacos, caixas de água e alimentos, enquanto outros ofereciam as suas casas para alojar quem precisava de um lugar para descansar ou para manter conversas privadas.
“Só se vê a qualidade das pessoas quando acontece uma tragédia destas”, afirma Fernández, que se mostra agradecida pela resposta dos seus vizinhos. A solidariedade chegou também aos familiares que ainda desconheciam o estado dos seus entes queridos e que foram recebidos no pavilhão, onde havia profissionais de apoio psicológico.
A vereadora explica que alguns vizinhos prepararam espaços nas próprias casas para que as companhias ferroviárias pudessem falar com os familiares num ambiente mais íntimo. A ajuda surgiu de forma espontânea, sem necessidade de organização prévia, e o município começou depois a redistribuir os alimentos perecíveis que já não fossem necessários pela Cáritas e por outros centros locais.
Entretanto, as autoridades continuam os trabalhos de busca e identificação das vítimas do acidente, ocorrido às 8:54 de quarta-feira na linha de alta velocidade entre Madrid e Andaluzia, perto de Urda. Na colisão estiveram envolvidos um comboio AVE da Renfe e outro da Iryo, em que viajavam mais de 500 pessoas.
Além dos 69 mortos, mais de uma centena de pessoas ficaram feridas, 18 delas em estado muito grave, segundo o balanço divulgado pelo Governo de Castela-Mancha. A investigação procura esclarecer as circunstâncias da colisão, enquanto as equipas de emergência continuam o trabalho na zona.
Em Urda, a tragédia deixou imagens de dor difíceis de esquecer, mas também uma resposta coletiva que os moradores reivindicam com orgulho. Para García, que está há mais de meio século atrás do balcão da sua farmácia, o que aconteceu mostra que a solidariedade continua a ser uma das principais forças da sociedade. “Eu acho que a solidariedade humana do povo espanhol é fantástica, fantástica”, insiste.