Os aumentos das rendas atingiram dois dígitos em vários países europeus em 2025, com a Turquia a destacar-se com 78%. Especialistas apontam a procura a crescer mais depressa do que a oferta em toda a Europa.
Encontrar uma casa decente e a preços acessíveis tem-se tornado cada vez mais difícil em toda a Europa. A habitação representa um quinto do rendimento médio dos agregados familiares da UE. Esta fatia é significativamente superior nalguns países, atingindo 35% na Grécia, segundo o Eurostat.
O aumento das rendas é um encargo significativo para os europeus. Em 2025, as rendas subiram 3,1% na UE. Em alguns países, a inflação das rendas atingiu valores de dois dígitos.
Procura cresce mais depressa do que a oferta
“A dinâmica fundamental é simples: a procura tem crescido mais depressa do que a oferta”, afirmou Kate Everett-Allen, responsável pela investigação residencial europeia na Knight Frank, à Euronews Business.
“As dificuldades de acessibilidade no mercado de compra, sobretudo com as taxas de juro do crédito à habitação ainda relativamente elevadas, levaram mais agregados familiares a optar pelo arrendamento, em especial quem está a tentar comprar casa pela primeira vez.”
Quais foram então os países onde as rendas mais subiram em 2025? Quais foram os principais fatores que determinaram os preços do arrendamento em 2025?
Na UE, a variação média das rendas efetivas de habitação oscilou entre 1% na Finlândia e 17,6% na Croácia.
A inflação das rendas também é elevada na Grécia (10%), Hungria (9,8%), Bulgária (9,6%) e Roménia (8,2%), todas acima dos 8%.
Kate Everett-Allen salientou que a oferta também está sob pressão. Alterações fiscais e regulamentares reduziram o interesse dos proprietários em alguns mercados, enquanto as exigências de eficiência energética e os custos de reabilitação aumentam o encargo de manter imóveis no mercado de arrendamento.
As restrições ao arrendamento de curta duração ajudam na margem, mas não chegam para alterar de forma significativa a oferta global. “O resultado é um mercado de arrendamento mais apertado e uma pressão contínua no sentido da subida das rendas”, referiu.
Três grandes economias abaixo da média da UE
Para além da Finlândia (1%), a inflação anual das rendas ficou abaixo da média da UE no Luxemburgo (1,6%), em Malta (1,7%), na Eslovénia (1,9%), na Alemanha (2,1%), na Dinamarca (2,2%), em França (2,3%) e em Espanha (2,4%).
Isto mostra que as rendas subiram abaixo da média da UE em três grandes economias europeias. Entre as quatro maiores economias da UE, Itália (3,8%) é o único país onde a inflação das rendas superou a média europeia, embora por menos de um ponto percentual.
Chéquia (6,1%), Letónia (5,7%), Lituânia (5,6%), Portugal (5,3%), Suécia (5,3%), Países Baixos (5,1%) e Eslováquia (5,1%) são outros países onde as rendas subiram mais de 5%.
Custos dos proprietários em alta
“Os aumentos das rendas em 2025 foram impulsionados por uma procura forte, já que os preços mais elevados da habitação empurraram mais agregados familiares para o mercado de arrendamento”, afirmou Mikk Kalmet, da Global Property Guide, à Euronews Business.
“O aumento dos custos para os proprietários, sobretudo os mais endividados, foi sendo gradualmente repercutido nas rendas pagas pelos inquilinos, o que fez subir ainda mais os preços do arrendamento.”
Salientou ainda que os países com mercados de arrendamento menos regulados e uma oferta mais limitada têm, em geral, registado subidas mais fortes. Em contraste, os países com controlo de rendas ou níveis já elevados de rendas tendem a registar um crescimento mais lento.
Turquia destaca-se como exceção
Quando se incluem os países candidatos à UE e os países da EFTA, a Turquia destaca-se claramente, com uma inflação anual das rendas de 77,6% entre 36 países. O segundo maior aumento foi registado no Montenegro, com 18,5%, o que mostra a distância a que a Turquia se encontra dos restantes.
“A inflação é excecionalmente elevada [na Turquia], o que significa que explica uma grande parte do crescimento nominal das rendas em termos brutos”, afirmou Everett-Allen.
Sublinhou que a compra de casa se tornou cada vez mais inacessível na Turquia.
A rápida subida dos preços da habitação, as taxas de juro elevadas do crédito à habitação e a limitada disponibilidade de financiamento de taxa fixa a longo prazo deixaram, na prática, muitas famílias fora do mercado de compra, empurrando mais procura para o arrendamento.
Turquia: controlo das rendas tem efeito inverso e faz subir preços
O governo turco limitou as subidas das rendas a 25% em julho de 2022, medida depois prolongada até julho de 2024.
“Os controlos de rendas tiveram efeitos indesejados”, afirmou Everett-Allen. Indicou que os aumentos anuais estavam limitados muito abaixo da inflação para os inquilinos já instalados, o que levou muitos proprietários a tentar recuperar perdas através de fortes subidas nas novas rendas, fazendo disparar as rendas de mercado de referência.
“A habitação é muitas vezes usada como proteção contra a inflação e a desvalorização da moeda, o que faz subir tanto os preços de venda como as rendas”, acrescentou Kalmet.
O salário mínimo líquido na Turquia aumentou 27% em 2026 face a 2025. Quase dois em cada cinco trabalhadores recebem o salário mínimo.
De um modo geral, as rendas subiram significativamente mais na Europa de Leste e nos Balcãs do que noutras regiões, sendo o Kosovo (1%) e a Macedónia do Norte (3,3%) exceções.
Mikk Kalmet referiu que Montenegro e Croácia também registam um crescimento forte, sobretudo por serem destinos atrativos de arrendamento, tanto de curta como de longa duração, em especial quando comparados com alguns mercados historicamente consolidados, como Espanha e o sul de França.
A relação entre salários líquidos e rendas nos centros das cidades europeias varia bastante. A Euronews Business já analisou anteriormente as melhores e piores relações renda-salário na Europa.