Cerca de 200 mil postos de trabalho dependem de empresas afetadas pelos incêndios na Gironda, enquanto o turismo regional e a rede elétrica enfrentam crescente pressão
Enquanto Espanha levantava uma ordem de evacuação numa zona afetada por incêndios florestais perto de Madrid, França continuava esta quarta-feira a combater um dos piores fogos das últimas décadas, com as empresas a sofrer perturbações crescentes.
A Câmara de Comércio e Indústria de Bordéus-Gironda disse à Euronews que 40 000 empresas foram direta ou indiretamente afetadas pelo incêndio e pelas respetivas ordens de evacuação. Patrick Seguin, presidente da CCI Bordéus-Gironda, calculou que isso representa cerca de 200 000 postos de trabalho afetados.
“Estamos a viver uma situação sem precedentes. Uma mini-Covid. Uma catástrofe económica para as nossas empresas, já penalizadas pelo atual contexto económico”, afirmou Patrick Seguin, presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Bordéus-Gironda, à Euronews Business.
Por seu lado, o Ministério da Economia francês estima que cerca de 130 000 trabalhadores ficaram impossibilitados de trabalhar devido aos incêndios.
A câmara criou uma linha de crise para empresas, que está a receber um número crescente de chamadas. As empresas procuram sobretudo apoio para problemas de tesouraria, adiamento de pagamentos de créditos e de impostos, pedidos às seguradoras, contribuições para a segurança social e colocação de trabalhadores no regime de desemprego parcial apoiado pelo Estado francês.
Euronews Business já tinha noticiado os primeiros impactos económicos dos incêndios, incluindo o encerramento de instalações de defesa estrategicamente importantes, o que perturbou as operações da ArianeGroup e da Dassault Aviation, entre outras.
Embora o custo económico global ainda não tenha sido calculado, a câmara alertou que as empresas de turismo, que chegam a gerar até 80% do seu volume de negócios anual na época estival, podem enfrentar grandes dificuldades.
De acordo com o jornal La Tribune, 38 parques de campismo e outras zonas de campismo foram evacuados e quatro foram atingidos pelas chamas. Cerca de 4 000 veraneantes foram retirados dos alojamentos em Lacanau na terça-feira.
A Câmara de Comércio e Indústria de Bordéus-Gironda indicou ainda que foi criado um grupo no Facebook, “Gironde Solidarité Entreprises”, para permitir às empresas oferecerem entre si escritórios temporários, espaço de armazém, serviços de logística e outras formas de apoio prático.
“Toda a imagem da região da Gironda e do seu mercado turístico está a ser afetada, mas não só. Todo um setor da nossa economia foi atingido”, afirmou Seguin.
Seguin apelou igualmente a uma rápida mobilização de meios para garantir um apoio inicial às empresas afetadas, em coordenação com os serviços do Estado, sublinhando que “os dirigentes empresariais precisam de sinais fortes”.
O governo francês anunciou na segunda-feira apoios de emergência para as empresas afetadas pelos incêndios na Gironda, nas Landes e no Var. As empresas abrangidas por ordens de evacuação poderão recorrer ao regime de desemprego parcial apoiado pelo Estado.
Uma reunião terá lugar no Ministério da Economia na quinta-feira para dar “respostas mais precisas” às empresas afetadas, adiantou o ministro da Indústria, Sébastien Martin, à BFMTV-RMC.
Entretanto, a rede elétrica da região precisou de ajustes por parte do operador nacional de transporte de eletricidade, a RTE. A empresa informou, em comunicado, que as suas equipas de manutenção se juntaram ao posto de comando dos bombeiros para coordenar ações de proteção das infraestruturas elétricas essenciais ao fornecimento de energia a habitações, quartéis de bombeiros, centros de acolhimento, redes de telecomunicações e outras infraestruturas críticas.
A RTE indicou que desligou determinadas linhas e subestações elétricas para permitir que os bombeiros trabalhem em segurança.
“Em paralelo, as nossas equipas estão a adaptar em tempo real o funcionamento da rede elétrica, em coordenação permanente com a Enedis, para limitar as consequências de qualquer indisponibilidade”, acrescentou a RTE.
Até ao início da tarde de quarta-feira, os meios de comunicação locais não tinham reportado quaisquer interrupções na rede de transporte de eletricidade relacionadas com os incêndios. A última atualização oficial da RTE, divulgada na terça-feira, indicava que não havia, nessa altura, falhas em curso na rede de transporte.
No início da tarde de quarta-feira, o incêndio mantinha-se estabilizado, mas ainda não estava dominado, o que significa que novos focos permaneciam possíveis. Cerca de 42 000 hectares já tinham ardido e mais de 220 000 pessoas foram evacuadas desde o início do fogo. Aproximadamente 60 000 residentes receberam autorização para regressar a casa, embora tenham sido registados vários reacendimentos com a subida das temperaturas e o agravamento do vento.