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Juros da dívida europeia atingem máximos de vários anos com vendas globais em curso

Arquivo - Especialista Meric Greenbaum trabalha no piso da Bolsa de Nova Iorque, quarta-feira, 14 de junho de 2017.
Arquivo – O especialista Meric Greenbaum trabalha no piso da Bolsa de Nova Iorque, quarta-feira, 14 de junho de 2017 Direitos de autor  AP Photo/Richard Drew
Direitos de autor AP Photo/Richard Drew
De Doloresz Katanich
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Os rendimentos das obrigações soberanas europeias de longo prazo mantêm-se perto de máximos de várias décadas, com os receios sobre inflação e juros a prolongar a correção

Juros da dívida pública voltaram a disparar esta semana, com alguns prazos a atingirem níveis só vistos na altura da crise financeira global, numa altura em que a escalada do conflito no Médio Oriente ameaça manter elevados os preços da energia e, consequentemente, a inflação.

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Sem fim à vista para o conflito, os investidores preparam-se para uma nova vaga de inflação que poderá pressionar os bancos centrais a apertarem ainda mais a política monetária, encarecendo o custo do crédito.

As perspetivas para o abastecimento de crude deterioraram-se ainda mais depois de os rebeldes Houthi do Iémen, apoiados pelo Irão, terem atingido vários alvos energéticos sauditas e avançado em direção ao estreito de Bab el-Mandeb.

Aquela via marítima é uma rota alternativa crucial para o transporte mundial de energia, numa altura em que o estreito de Ormuz continua praticamente encerrado e os combates entre forças norte-americanas e o Irão não dão sinais de abrandar.

O Brent, referência internacional, tem sido negociado acima dos 100 dólares por barril nos últimos dias. Na manhã de sexta-feira, o contrato de primeira posição era transacionado ligeiramente abaixo dos 106 dólares por barril.

Os custos de financiamento dos governos na Europa aumentaram rapidamente depois de o Banco Central Europeu ter subido as taxas de juro na quinta-feira, elevando a taxa de depósito de 2,25% para 2,5% e avisando que a inflação poderá permanecer “muito acima do objetivo durante um período prolongado”.

A revisão em alta das previsões de inflação e o tom mais duro do BCE levaram os investidores a subir as expectativas de novas subidas de juros.

Na manhã de sexta-feira, a rendibilidade das obrigações alemãs a dez anos situava-se em cerca de 3,5%. A equivalente francesa era cerca de 94 pontos base mais alta, em torno de 4,44%. As obrigações italianas a dez anos rendiam aproximadamente 4,37%, enquanto as espanholas se situavam perto de 3,96%.

No Reino Unido, a rendibilidade da obrigação do Tesouro britânico (gilt) a dez anos recuou para perto de 5,35% na sexta-feira, à medida que os preços da energia recuavam face aos máximos de quinta-feira, antes de um importante relatório sobre a inflação nos EUA.

Na quinta-feira, a rendibilidade da gilt a dez anos tinha atingido 5,378%, o valor mais alto desde 2007. As rendibilidades das gilts a 20 e 30 anos subiram para 5,895% e 5,948%, respetivamente, os níveis mais elevados desde 1998.

Em paralelo, as rendibilidades das obrigações do Tesouro norte-americano de longo prazo atingiram novos máximos de vários anos, depois de dados mostrarem uma subida da inflação grossista nos EUA, alimentando expectativas de que a Reserva Federal possa aumentar as taxas de juro na próxima semana.

Na sexta-feira, a rendibilidade da obrigação do Tesouro dos EUA a 30 anos ultrapassou 5,38%, o nível mais alto desde 2007. A rendibilidade da Treasury a dez anos aproximou-se da barreira dos 5% e era negociada em torno de 4,95% na manhã de sexta-feira na Europa, perto do valor mais elevado em três anos.

A pressão aumentou ainda mais depois de o Departamento do Tesouro dos EUA ter recompprado 5,2 mil milhões de dólares (4,5 mil milhões de euros) em obrigações, abaixo do limite de 6 mil milhões de dólares da operação e de menos de metade dos 10,5 mil milhões oferecidos pelos investidores.

Na Ásia, a rendibilidade da obrigação do Tesouro japonês a dez anos subiu para cerca de 2,98%, ligeiramente abaixo dos 3% atingidos no início deste mês, pela primeira vez desde 1996.

Dívida ligada à IA disputa capital dos investidores

Os governos procuram captar investidores numa altura em que enormes volumes de dívida ligada à inteligência artificial também estão a chegar aos mercados globais.

Grandes operadores de computação em nuvem (hyperscalers), incluindo a Alphabet e a Amazon, emitiram mais de 200 mil milhões de dólares (172 mil milhões de euros) em dívida só em 2026, mais do dobro do montante angariado em todo o ano passado, segundo dados da LSEG citados pela Reuters.

Uma estimativa mais abrangente do Goldman Sachs, que inclui dívida associada a centros de dados e outra infraestrutura de IA, apontava, no início de agosto, para uma emissão de dívida ligada à IA de quase 500 mil milhões de dólares (431 mil milhões de euros).

As empresas tecnológicas norte-americanas recorrem cada vez mais ao mercado obrigacionista da zona euro para financiarem os seus investimentos. Segundo um artigo publicado no blogue do BCE em 31 de agosto, estas empresas deverão necessitar de mais de 1 bilião de dólares (862 mil milhões de euros) em despesas de capital até 2028.

O euro representa perto de 10% do total de obrigações emitidas por estes hyperscalers. A sua chegada dá aos investidores europeus em obrigações uma exposição maior a empresas tecnológicas.

Este fenómeno é particularmente relevante porque o setor tecnológico tem um peso muito mais reduzido nos índices obrigacionistas da zona euro: vale cerca de um terço da ponderação registada em índices norte-americanos comparáveis.

Investigadores do BCE referem que a crescente presença destes hyperscalers pode, a prazo, fazer subir os custos de financiamento em vários setores. Os investidores podem vender ou evitar outras obrigações para abrirem espaço nos seus portefólios para grandes emissões de empresas tecnológicas, obrigando os mutuários concorrentes a oferecer rendibilidades mais elevadas.

Os mesmos investigadores consideram que esta pressão poderá, eventualmente, estender-se à dívida pública e às obrigações de instituições supranacionais. No entanto, salientam que, à data da análise, não havia sinais de tais efeitos de contágio na zona euro, refletindo a escala ainda limitada das emissões das grandes tecnológicas e a resiliência dos mercados de dívida soberana.

Outras fontes • AFP

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