São fãs devotos mas não veem a Eurovisão como uma religião, são como uma família. O evento decorre em maio e para os eurofãs contam-se meses de preparação até ao grande dia. Em ano de polémicas, lamentam a polarização de opiniões.
O Festival Eurovisão da Canção acontece em maio mas, para os verdadeiros fãs, a época eurovisiva tem início muito antes.
“Para nós, eurofãs, a Eurovisão começa em setembro", diz João Vargas à Euronews, já que é em setembro que começam a sair as canções dos diferentes países. Depois, vêm as finais nacionais: "Temos a Albânia, que começa logo em dezembro, então para nós começa aí. E é interessante acompanhar basicamente 30, 40 finais nacionais, sábado após sábado, de dezembro até maio”, conta à Euronews.
O termo "eurofã" não vem no dicionário mas pode ser quase um trabalho a tempo inteiro. Estas pessoasseguem atentamente as finais nacionais dos diferentes países como o Festival da Canção, em Portugal, o Melodifestivalen, na Suécia ou o Benidorm Fest, em Espanha, analisando canções, atuações e resultados com alto grau de detalhe.
A dedicação de quem acompanha o processo de seleção das canções que rumam até ao certame internacional anual é inquestionável: “Fevereiro, março, é a loucura total! Há sábados em que nós temos um ecrã dividido em cinco ou seis quadradinhos com as finais nacionais de cada país”, reforça Francisco Rodrigues.
A comunidade destaca-se pelo conteúdo publicado online, principalmente nas redes sociais, entre rankings pessoais, análises vocais e de staging, previsões de votação e comparações estatísticas entre edições. Quem nos explica sabe do assunto. João e Francisco são eurofãs dedicados e partilham o fascínio pelo concurso, que se realiza há 70 anos.
Além de fãs, são criadores de conteúdo dedicado ao festival: reações, análises, partilha de opiniões, tudo vale para transmitir a paixão que os une a uma comunidade.
“Eu acho que nós tentámos, nós começámos por conversar uns com os outros sem termos noção de que estamos a criar essa tribo, sem termos noção de que essa comunidade se está a formar”, explica Helena Almeida, também ela elemento da comunidade de fãs eurovisivos, e deste grupo de amigos.
“Há aqui um sentimento de pertença que nós criámos e que respeitamos” indica a criadora de conteúdos.
“Um sítio que aproxima pessoas”
A ligação e experiência criadas entre cada fã e o festival são únicas. A Euronews falou com seis eurofãs e criadores de conteúdo. Todos contam uma histórica diferente e um momento único que os conectou com o certame internacional.
Fábio Alexandre explicou-nos como encontrou a sua ligação, iniciada através da própria família. “Eu lembro-me de ser muito novo e ver a Eurovisão com os meus avós. O bichinho nasceu aí”, recorda-
“Nós juntávamo-nos sempre para ver o Festival da Canção e a Eurovisão. Tenho memórias de 2004, 2005, mas 2006 foi o ano que mais me marcou, porque foi o ano em que houve um pequeno choque geracional, porque o meu avô ficou muito chocado com quem venceu, que era uma banda de rock, os Lordi, que eram uns monstrinhos com umas caras meio assustadoras e eu adorei aquilo, achei fascinante. É um espaço tão diferente: eu adorar e o meu avô a detestar”, explica o eurofã, que revela como a Eurovisão é um espaço de partilha e pertença.
**“**Há lugar para toda a gente,há lugar para sermos diferentes, há oportunidade para toda a gente. Acho que tudo isso dá-nos esperança e faz-nos querer conhecer mais sobre os artistas, ver e experienciar este espetáculo” revela. “O lema United by Music (Unidos pela Música), não é em vão".
A Eurovisão surge como um espaço livre e de partilha, é pelo menos assim caracterizado por todos os intervenientes. Seja online ou numa arena, a Eurovisão para estas pessoas é muito mais do que um concurso musical. Há quem o defina como uma família.
“Acho que se eu tivesse que resumir este percurso todo, a Eurovisão acaba por ser casa e acaba por ser um sítio que aproxima as pessoas. Pessoas que podem vir a fazer parte da nossa vida, que são a nossa família ou que podem tornar-se na nossa família”, explica Jorge Durões, também ele um eurofã devoto, que acompanha o festival desde os anos 90.
“Este mundo acabou por se abrir ainda mais em 1998, com a vitória da Dana, a primeira transexual a ganhar”, confessa. “Para um rapaz de 13 anos na altura, que andava também aqui a tentar descobrir quem ele era, ter tomado contacto pela primeira vez com um elemento de uma comunidade da qual não sabia ainda que fazia parte, a comunidade LGBT, começou a abrir horizontes", explicou.
"Foi aí que eu senti, pela primeira vez, a Eurovisão como um lugar seguro, um lugar de casa, um lugar onde todos temos o nosso lugar, de partilha, de diversidade mas, acima de tudo um lugar onde nos podemos afirmar e ser como somos”.
"Todos diziam que nunca iria acontecer e aconteceu"
Portugal conta com 55 participações no evento internacional e uma vitória. Salvador Sobral, com a canção "Amar pelos Dois", venceu em 2017 e continua até hoje com o recorde da maior pontuação de sempre, com um total de 758 pontos, o maior total registado desde que o atual sistema de votação foi implementado, em 2016. Posto isto, não é difícil perceber por que razão é fácil nomear a vitória portuguesa como o momento mais marcante do concurso.
"Eu cresci a ouvir toda a gente à minha volta a dizer nunca iria acontecer, e aconteceu", explica Helena.
"Lembro-me de comentar com as pessoas, porque lá está, nós fãs, vamos acompanhando as movimentações, vamos acompanhando os comentários dos outros fãs, vamos vendo as apostas online, e começámos a ver que tínhamos hipóteses, começámos a acreditar. E eu lembro-me de comentar isso com as pessoas à minha volta, e toda a gente achar que eu estava completamente desorientada, que isso nunca iria acontecer, e depois aconteceu!", recorda.
"Foi o histerismo total! Não queríamos acreditar, porque esperar 70 anos para ganhar a Eurovisão, e ganhar daquela forma, ganhar em português, foi uma emoção fantástica" explicou João Vargas. "Recordo-me de estar a ver afincadamente a Eurovisão e dizer: 'nós vamos mesmo ganhar, meu Deus, como assim? Isto é mesmo real'", indicou Filipe Cruz, também ele um eurofã dedicado.
Para quem acompanha, como estes fãs, a final nacional e a Eurovisão, existe uma diferença clara entre o antes e o depois.
"Estávamos sempre a ficar, geralmente, pela semifinal, e quando íamos à final, as classificações também não eram excelentes" explica Filipe Cruz. "Desde aí que temos estado a ter classificações até bastante boas, alguns top 10, ou perto do top 10".
"Música não é fogo de artifício, música é sentimento", foi uma frase marcante e até polémica dita por Salvador Sobral no momento da vitória. Poucos esperavam que uma balada em português conseguisse levar a melhor num festival pautado por ritmos expressivos, coreografias elaboradas, luzes, fogo e tudo quanto uma delegação se conseguir lembrar e pagar para ter em palco. Na opinião destes fãs, a vitória do português trilhou o caminho para estilos menos prováveis mas mais autênticos para os artistas que os interpretam.
"Acho que teve uma influência também lá fora porque, à primeira vista, ninguém diria que uma canção como a do Salvador poderia ganhar, e o facto dele ter vencido fez com que os artistas que foram nos anos seguintes, muitos deles fossem mais mais genuínos," explicou Helena. "Sinto que, desde que o Salvador ganhou, foram abertas portas para que outros artistas que queiram ir à Eurovisão com uma canção menos festiva, mais introspetiva, mais balada, mais até com um toque de jazz, que são estilos que não se encontram tanto por lá, pudessem fazê-lo".
"Iinicialmente ninguém dava muito pela canção dos Napa. Os fãs (da Eurovisão) estavam um pouco desligados e depois, na verdade, tornou-se uma das músicas da Eurovisão mais ouvidas deste ano, o que é um fenómeno interessante", explica Filipe. "Um fenómeno que foi assim meio inesperado. Depois outros artistas podem pensar que, se calhar, o Festival da Canção é uma boa plataforma para crescerem".
Para estes fãs, assistir aos eventos ao vivo é quase obrigatório, pelo menos quando há possibilidade de o fazer. Após a vitória de Salvador, e tal como indicam as regras do concurso, Portugal organizou o evento em 2018. Foi a primeira oportunidade de assistir ao evento ao vivo para muitos.
"Quando entrei, vi aquele palco gigantesco, que ocupava a sala inteira, o Meo Arena inteiro, começei a chorar, completamente! Não sei explicar", confessa Francisco Rodrigues. "Lembro-me de dizer assim: já está feito, já posso ir, estou feliz, o meu sonho está concretizado!".
Festa da Eurovisão não é isenta de polémica
Em 70 anos de Eurovisão, o histórico do concurso apresenta altos e baixos. Este ano, o cerrtame vive numa nova polémica com a participação israelita, contestada devido ao conflito na Faixa de Gaza. A União Europeia de Radiodifusão (EBU), responsável pelo concurso, decidiu em dezembro de 2025 manter o país no evento que este ano se realiza em Viena, Áustria.
Como consequência, diversos países anunciaram que não vão participar em 2026 em sinal de protesto, nomeadamente Espanha, um dos chamados Big Five, que além de não enviar representante também não irá emitir o concurso. Também Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Islândia anunciaram a saída do concurso este ano.
Portugal, através da RTP, optou por participar na edição de 2026, apesar da posição da maioria dos artistas que participam no Festival da Canção, cuja primeira semifinal teve lugar no dia 21 de fevereiro, e que optaram por boicotar o concurso internacional. Vários divulgaram um comunicado conjunto no qual afirmam que, se vencerem a final nacional, não irão representar Portugal na Eurovisão em Viena como forma de protesto.
"Eu acho que o interesse diminuiu drasticamente. Sabendo que 14 dos 16 participantes não querem ir à Eurovisão, acho que faz todo o sentido que lá fora pensem: 'depois logo vemos quem é que ganha', porque de facto, acabou por se perder aqui aquele interesse de competição", explica Fábio Alexandre.
"É um festival atípico, estranho, porque nós estamos habituados a ver aquelas canções a competir para nos representarem lá fora e, no caso, sabemos que aqui são 16, mas não há assim tantas que realmente possam ir a Viena" afirmou Francisco Rodrigues. "Acho que toda a gente aqui é livre de tomar a sua decisão. Não é por dizerem que sim, que vão à Eurovisão, que são a favor do que está a acontecer na Palestina. Portanto, isto é um tema mesmo muito delicado e que mexe, acho eu, com a saúde do próprio concurso. E isso, claro que me deixa apreensivo", reforçou.
Mesmo para quem acompanha tanto as finais nacionais como o principal evento, em maio, a situação traz impactos e desinteresse.
"Acho que todos nós estamos a partilhar um bocadinho desse desinteresse, mais que não seja inconscientemente. Também me apercebo disso em mim, mesmo as semifinais dos outros países que sabemos que vão participar na Eurovisão, quando as canções saem, não vou logo vê-las, que era uma coisa que eu fazia", explica Jorge Durões. "Quer queiramos, quer não, toda a estrutura do ano eurovisivo acabou por ser impactada. Isto está inconscientemente a impactar os fãs e eu acho que muitos de nós estão só à espera para ver aquilo que vai acontecer em Viena, em Maio".
Para justificar a presença israelita, a EBU indica que esta é admitida tendo por base o princípio de que o concurso é um evento entre emissoras públicas, e não entre governos. A organização defende que a Eurovisão é uma competição de radiodifusores membros, no caso israelita, da emissora pública Kan, e não uma representação direta das posições políticas dos respetivos Estados reforçando que o concurso é um evento “apolítico”, cujo objetivo é promover a música e a diversidade cultural.
"Eu não sou daquelas pessoas que diz que isto é um evento apolítico porque a política está em todo lado. A política define tudo à nossa volta, por isso acho que não podemos fingir que não. A partir do momento em as equipas que participam levam a bandeira do seu país, estão a representá-lo, e o evento acaba sempre por ter aqui uma representação política", explica Helena Almeida.
"Tendo em conta aquilo que se passa há quem defenda que determinados países não deveriam participar. Eu também defendo isso. Se fizermos aqui um paralelismo do que aconteceu com a expulsão da Rússia, penso que haveria lugar à expulsão de outros países. Ainda assim, percebo que é difícil, as coisas não são preto e branco", reforça.
"Para mim, é tudo uma questão de respeito pela opinião de cada um. Eu tenho a minha posição" indica João Vargas, que explica como bloqueou o tema da participação israelita dos seus conteúdos. "Eu não publico sobre Israel, não falo de Israel" explica. "É minha posição enquanto eurofã, mas respeito quem o faz", reforça.
Ninguém sabe o que acontecerá com o festival em caso de vitória israelita, um cenário que esteve muito próximo no ano passado. O Festival alterou entretanto as regras relativas à votação e à promoção das canções, na sequência da controvérsia causada pelo resultado de Israel na edição deste ano do concurso e das alegações de "interferência" do governo israelita.
"Eu acredito que o Festival da Canção em Portugal vai continuar a evoluir e este ano seja o início de uma renovação do formato. E acredito que isto também vá acontecer na Eurovisão, e continue a evoluir, as regras continuem a ser trabalhadas dentro de portas, onde as revoluções são efetivamente feitas, e que a Eurovisão continue pujante e continue a evoluir e a crescer e a ser um espaço de segurança para nós", indica Jorge Durões. "Não acredito que ao fim de 70 anos a marca, o conceito, o espaço Eurovisão seja posto em causa. Já muitas vezes se profetizou o fim da Eurovisão e ela não terminou".
No ano passado, o Festival Eurovisão da Canção alcançou recordes de audiência e envolvimento. De acordo com informações da EBU, a grande final, realizada em Basileia, na Suíça, alcançou 166 milhões de espectadores em 37 mercados, o que, segundo a emissora, representa um aumento de três milhões de espectadores em relação ao ano anterior.
Em Portugal, o Festival da Canção apresenta no próximo sábado a segunda semifinal e, no dia 7 de março, a grande final.
Quanto à final da Eurovisão, terá lugar a 16 de maio na capital austríaca, Viena.