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Países da UE defendem unidade para evitar cair na armadilha do enviado especial à Rússia

Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE reúnem-se em Chipre
Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE reúnem-se em Chipre Direitos de autor  Petros Karadjias/Copyright 2026 The AP. All rights reserved
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De Jorge Liboreiro
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O debate sobre quem deve ser o enviado especial da UE para negociar com o Kremlin é "uma armadilha em que a Rússia quer que caiamos", disse Kaja Kallas, quinta-feira, num encontro informal de ministros dos Negócios Estrangeiros em Chipre.

Para que a União Europeia avance para conversações diretas com a Rússia, o mandato pesa mais do que a pessoa, disseram os ministros dos Negócios Estrangeiros, reunidos em Chipre para um encontro informal em que o tema dominou a agenda.

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Alertaram que a falta de unidade só jogaria a favor de Moscovo e enfraqueceria a Ucrânia.

"Considero que é uma armadilha em que a Rússia quer que caiamos: estarmos a discutir quem fala com eles, enquanto já vão escolhendo quem lhes convém e quem não. Não caiamos nessa armadilha", afirmou na manhã de quinta-feira a Alta Representante, Kaja Kallas.

Kallas aludia de forma implícita à sugestão descabida do Kremlin de indicar o antigo chanceler alemão Gerhard Schröder como principal negociador do bloco. Schröder é hoje uma figura marginalizada na política europeia dominante, em grande parte devido às relações calorosas que continua a manter com o presidente russo, Vladimir Putin, e à defesa de várias empresas energéticas russas.

"As negociações são sempre um trabalho de equipa", prosseguiu Kallas. "Há os 'polícias bons' e os 'polícias maus', há uma estratégia sobre a forma como se vai para a mesa. Por isso, o conteúdo é muito mais importante do que quem lá está."

Kallas, que fez circular um documento confidencial com concessões e expectativas que a Rússia deverá cumprir no quadro de um acordo, sugeriu que a UE encare as negociações a partir de uma posição "maximalista" para contrariar as exigências igualmente "maximalistas" de Putin.

Questionada sobre se estaria interessada em assumir o cargo de enviada especial, Kallas desvalorizou a ideia com uma gargalhada.

"Sou a Alta Representante da União Europeia e podem ler a minha descrição de funções nos tratados", respondeu.

"Temos de estar unidos, e essa é uma mensagem muito importante: precisamos de trabalhar juntos enquanto Europa, e não como membros individuais em separado. Porque, individualmente, somos todos muito mais fracos do que quando estamos juntos".

Kaja Kallas presidiu à reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros.
Kaja Kallas presidiu à reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros. AP Photo

A ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, Maria Malmer Stenergard, reforçou a mensagem de prudência, defendendo que a UE deve evitar deixar-se "distrair por homens que querem ficar para a história".

"Não devemos correr para a mesa das negociações nem deixar que seja a Rússia a decidir as condições", disse Stenergard aos jornalistas.

"Pelo contrário, devemos assegurar que aumentamos a pressão sobre a Rússia e reforçamos o apoio à Ucrânia, alterando assim o cálculo de forma a que eles queiram mesmo sentar-se à mesa das negociações e alcançar a paz, porque é isso que queremos".

O neerlandês Tom Berendsen afirmou que "o mais crucial" é que a UE disponha de "um mandato claro" antes de escolher um enviado, enquanto o espanhol José Manuel Albares sublinhou a necessidade de falar "a uma só voz" para evitar uma cacofonia de 27 Estados-membros.

"Precisamos de aproveitar a oportunidade criada pela decisão dos Estados Unidos de suspender a sua participação no processo de negociação entre a Ucrânia e a Rússia", declarou o belga Maxime Prévot. "É fundamental estar à mesa e agir, não ficar apenas a assistir."

Antonio Tajani, ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália, cujo país foi dos primeiros a defender conversações diretas com a Rússia, afirmou que seria "impossível assinar um acordo de paz sem a Europa".

Uma só voz europeia

O debate sobre conversações directas, que tem entrado e saído da agenda política desde Janeiro, ganhou novo fôlego no início deste mês depois de o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, frustrado com o foco da Casa Branca no Médio Oriente, ter pedido aos europeus que assumissem um papel mais ativo no processo e escolhessem um responsável para essa missão.

Entre os nomes avançados para o cargo de alto risco estão o presidente finlandês, Alexander Stubb, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, o antigo primeiro-ministro italiano Mario Draghi e a antiga chanceler alemã Angela Merkel.

A ministra finlandesa dos Negócios Estrangeiros, Elina Valtonen, disse que Stubb "é certamente uma pessoa muito qualificada para falar com muitos interlocutores, incluindo Putin", mas salientou que as discussões ainda estão numa fase inicial e que a prioridade deve ser definir a posição comum.

"Prevejo que este será um processo longo", afirmou Valtonen, procurando travar expectativas de um avanço repentino.

Apesar do burburinho, os europeus ainda não conseguiram definir em termos concretos qual deverá ser o seu papel. A reunião informal desta quinta-feira pretende aproximar posições entre os Estados-membros e fazer avançar a discussão antes da cimeira de líderes da UE, prevista para meados de Junho.

A pairar sobre o debate está o recente ataque em larga escala da Rússia contra Kiev e a ameaça explícita dirigida aos diplomatas estrangeiros aí colocados, que provocou indignação generalizada.

O ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Andrii Shyiiba, que se deslocou a Chipre para a reunião, afirmou que o bloco deve concentrar-se em "passos concretos e exequíveis" que possam complementar, e não substituir, o processo de paz liderado pelos Estados Unidos – entre eles a libertação de detidos civis, a desmilitarização da central nuclear de Zaporíjia e a criação de corredores humanitários.

"Não precisamos de começar por escolher uma pessoa ou um grupo para liderar este esforço", disse. "Precisamos de clarificar o mandato, e esse mandato tem de representar uma só voz europeia".

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