Vários milhões de euros angariados serão doados à Fundação para a Investigação da Doença de Alzheimer.
Um engenheiro parisiense, apaixonado por arte, ganhou um quadro original de Picasso, avaliado em mais de um milhão de euros, num sorteio solidário. E só lhe custou 100 euros.
Ari Hodara, de 58 anos, é o vencedor do sorteio realizado numa cerimónia transmitida em direto pela leiloeira Christie's, ontem. Foram vendidos 120 mil bilhetes a 100 euros cada. A verba angariada será doada à investigação sobre a doença de Alzheimer.
O prémio era um retrato de Dora Maar, uma das musas de Picasso. Intitulado «Tête de femme» («Cabeça de mulher»), este guache em tons profundos de cinzento e azul foi pintado em 1941 e provém da galeria Opera, um negociante privado de arte, que irá receber 1 milhão dos 12 milhões de euros angariados.
Gilles Dyan, fundador da galeria, disse ter oferecido um preço preferencial para o quadro, sendo o preço público de 1,45 milhões de euros.
«Como é que sei que isto não é uma brincadeira?», perguntou Hodara quando foi contactado pela leiloeira, depois de o seu nome ter sido escolhido entre compradores de bilhetes de 52 países.
Diz-se amante de arte, com particular fascínio por Picasso, e explicou que comprou o bilhete no fim de semana, depois de ter dado por acaso com o sorteio solidário enquanto comia fora.
«Vou contar primeiro à minha mulher, que ainda não voltou do trabalho», diz Hodara, engenheiro de vendas. «E, numa primeira fase, acho que vou desfrutar do quadro e ficar com ele.»
Os organizadores, liderados pela jornalista francesa Peri Cochin e com o apoio da família e da fundação do pintor, já realizaram duas rifas semelhantes, em 2013 e 2020, para oferecer obras do mestre espanhol.
No primeiro sorteio, em 2013, uma norte-americana de 25 anos, da Pensilvânia, que trabalhava numa empresa de sistemas de extinção de incêndios, ganhou «Man with an Opera Hat», uma obra do mestre espanhol pintada em 1914, durante o seu período cubista.
«Still Life», um óleo sobre tela, foi posto em jogo em 2020 e caiu na sorte de Claudia Borgogno, contabilista de Ventimiglia, no noroeste de Itália, a quem o filho tinha oferecido o bilhete no Natal.
Pintado em 1921, o quadro foi adquirido para esta rifa ao bilionário colecionador de arte David Nahmad, que afirmou que Picasso teria aprovado que a obra fosse posta em jogo.
Os 11 milhões de euros restantes serão doados à Fundação para a Investigação sobre a Doença de Alzheimer.
A fundação, que organiza a rifa solidária, está sediada no Hospital Pitié-Salpêtrière, um dos principais hospitais públicos de Paris, e afirma ter-se tornado, desde a sua criação em 2004, o maior financiador privado da investigação médica sobre a doença de Alzheimer em França.
Os organizadores referem que as duas tombolas anteriores dedicadas a Picasso arrecadaram mais de 10 milhões de euros para projetos culturais no Líbano e programas de água e saneamento em África.
«O financiamento da investigação é irrisório», afirmou na terça-feira Olivier de Ladoucette, diretor da fundação. «Nas nossas sociedades desenvolvidas, continuamos sem perceber que se trata de um grande problema de saúde pública e que todos têm de se envolver.
«Esta iniciativa em torno de Picasso é mais uma pedra no edifício que um dia fará da doença de Alzheimer algo do passado», acrescentou.