Secretário da Guerra dos EUA Pete Hegseth cita por engano um versículo inventado como bíblico e é alvo de troça por evocar o 'evangelho' de Quentin Tarantino
No ano passado, defendemos (e até provámos?) que a administração Trump pode ser culturalmente analfabeta – sobretudo no que toca ao cinema.
Agora, Pete Hegseth veio acrescentar mais uma pedra a esse edifício duvidoso.
O secretário da Guerra dos EUA, um nacionalista cristão que tem invocado a Bíblia e Jesus Cristo em vários dos seus discursos belicistas e inflamados, citou um falso versículo bíblico do adorado clássico de Quentin Tarantino Pulp Fiction durante um serviço de oração no Pentágono.
Não, não estamos a inventar.
Hegseth apresentou erradamente esta passagem inventada como se fosse um versículo autêntico – parecendo querer superar Samuel L. Jackson, que proferiu as frases originais no filme de 1994.
Introduziu a citação dizendo que se tratava de uma oração recitada pela Sandy 1 – uma das equipas de Busca e Salvamento em Combate da Força Aérea norte-americana envolvidas no resgate de um piloto da Força Aérea dos EUA que ficou encurralado atrás das linhas inimigas no Irão, no início deste mês.
«O caminho do piloto abatido é fustigado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e pela tirania do homem maligno», recitou Hegseth, em tom dramático. «Bendito aquele que, em nome da camaradagem e do dever, guia os perdidos pelo vale das trevas, pois é verdadeiramente o guardião do seu irmão e o descobridor das crianças desaparecidas. E castigarei com grande vingança e furiosa ira aqueles que tentarem capturar e destruir o meu irmão, e sabereis que o meu indicativo é Sandy 1 quando fizer cair sobre vós a minha vingança. Ámen.»
Pete HegsethPete Hegseth
Para efeitos de comparação, aqui fica o icónico monólogo de Pulp Fiction, em que a personagem de Jackson, Jules Winnfield, recita a falsa citação bíblica de Ezequiel 25:17 antes de abater uma personagem: «O caminho do homem justo é fustigado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e pela tirania dos homens malignos. Bendito aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, guia os fracos pelo vale das trevas, pois é verdadeiramente o guardião do seu irmão e o descobridor das crianças desaparecidas. E castigarei com grande vingança e furiosa ira aqueles que tentarem envenenar e destruir os meus irmãos. E sabereis que o meu nome é o Senhor quando fizer cair sobre vós a minha vingança.»
Como se vê, tirando algumas adaptações militares feitas por Hegseth, além de um «Ámen» acrescentado, é bastante parecido.
Samuel L. Jackson em Pulp FictionSamuel L. Jackson em Pulp Fiction
Sean Parnell, porta-voz principal do Pentágono, divulgou um comunicado na X, escrevendo: «O secretário Hegseth partilhou na quarta-feira uma oração personalizada, referida como oração CSAR, usada pelos corajosos combatentes de Sandy-1 que lideraram a missão de resgate em plena luz do dia de Dude 44 Alpha, retirando-o do Irão, oração que foi obviamente inspirada no diálogo de Pulp Fiction. No entanto, tanto a oração CSAR como o diálogo de Pulp Fiction eram reflexos do versículo Ezequiel 25:17, como o secretário Hegseth afirmou claramente nas suas palavras durante o serviço de oração. Quem disser que o secretário citou mal Ezequiel 25:17 está a vender notícias falsas e não percebe a realidade.»
Para referência, o livro de Ezequiel do Velho Testamento, na versão King James da Bíblia, diz: «E executarei sobre eles grande vingança, com duras repreensões; e saberão que eu sou o Senhor, quando fizer cair sobre eles a minha vingança.»
Portanto... Ninguém está a engolir a versão de Parnell nem a defesa de que quem o contesta «não percebe a realidade».
Hegseth tem sido alvo de chacota por citar o evangelho segundo Tarantino, o que lhe valeu acusações de ser um «cristão falso» e um «palhaço».
Espreite algumas das reacções à gafe de Hegseth, que mais parece a abertura de um sketch do Saturday Night Live, incluindo uma recriação de pesadelo do cartaz de Pulp Fiction, partilhada por Gavin Newsom:
Tarantino e Jackson ainda não reagiram à recitação de Hegseth. Por enquanto. Talvez mais tarde lhes apeteça ir «all medieval on (his) ass»...