Poucos dias depois de a Michelin lançar o seu primeiro guia de adegas, uma propriedade vinícola da Borgonha pediu para ser retirada.
Consumidores de vinho à procura de validação externa têm agora uma nova fonte de informação, se não de debate.
Na semana passada, a Michelin – empresa de pneus que se transformou num avaliador global de restaurantes – lançou o seu primeiro guia de propriedades vinícolas.
A Michelin Grape Selection (fonte em inglês) começou numa das regiões vinícolas mais famosas do mundo: a Borgonha. Mas, quase assim que a Michelin entrou no mundo milenar do vinho, as primeiras classificações começaram a dar problemas.
Pouco depois de o Domaine Arnoux-Lachaux ter descoberto que lhe tinha sido atribuída uma “uva” Michelin – a distinção de entrada no sistema de três níveis da empresa para propriedades vinícolas –, o produtor da Borgonha devolveu-a.
“Não sabemos como é que a classificação do Domaine (…) pôde ser estabelecida”, escreveu a propriedade nas redes sociais. “Desde 2020, optámos deliberadamente por não submeter os nossos vinhos a críticas ou avaliações da imprensa.”
A recusa pública marcou um início pouco cómodo para a marca, colocando o seu processo de avaliação sob escrutínio imediato, à medida que continua a expandir-se para lá dos guias de restaurantes.
O que são as Uvas Michelin?
Ao contrário dos guias de vinho tradicional, a nova Grape Selection da Michelin não avalia garrafas ou colheitas específicas. Em vez disso, analisa as propriedades com base na qualidade e consistência dos seus vinhos, nas práticas de vinha e de adega e na capacidade de exprimirem um sentido de lugar, entre outros critérios.
As propriedades recebem uma, duas ou três Uvas Michelin, sendo três a distinção máxima. A primeira seleção abrangeu três sub-regiões da Borgonha: Côte de Beaune, Côte de Nuits e Côte Chalonnaise. Noventa e quatro propriedades receberam Uvas Michelin.
Embora a Michelin afirme que o sistema foi concebido para reconhecer a excelência para lá da reputação, a primeira polémica pública envolveu uma das propriedades mais conhecidas da Borgonha.
A aposta da empresa no vinho surge também após críticas às alterações feitas a uma das suas distinções para restaurantes.
No início deste ano, a Michelin deixou de atribuir a sua Estrela Verde para a sustentabilidade, o que desagradou a alguns chefs que tinham ganho a distinção. A estrela foi depois substituída por uma plataforma editorial chamada “Mindful Voices”, que publica histórias sobre sustentabilidade na alimentação, no vinho e na hotelaria.
Um impulso bem-vindo?
Para alguns produtores, porém, o momento escolhido pela Michelin não podia ser melhor.
O vinho francês entra numa das fases mais difíceis das últimas décadas. Bordéus – uma das principais regiões vinícolas do país e o próximo destino previsto para a expansão do guia de Uvas Michelin – enfrenta uma tripla combinação de sobreprodução, queda acentuada de preços e quebra da procura pelos seus vinhos tintos.
No início deste ano, França alargou um programa de arranque de vinhas (arrachage) em grande escala para reduzir os excedentes de uva. Ao mesmo tempo, algumas propriedades olharam para lá da venda de garrafas, reforçando a aposta no turismo para manter os negócios à tona num mar de crises.
Lydia Coudert, coproprietária de quinta geração dos Vignobles Coudert (fonte em inglês), cuja família produz vinho em Bordéus desde 1865, acredita que o novo guia da Michelin pode ajudar propriedades como a sua a chegar a novos consumidores e compradores da restauração precisamente numa altura em que mais precisam.
“É uma nova ferramenta que temos à disposição”, afirma.
Mas acrescenta que a credibilidade da Michelin dependerá, em última análise, da forma como realiza as provas, ecoando as preocupações que estiveram na origem da rejeição pública, pelo Domaine Arnoux-Lachaux, da distinção Michelin e que ganharam destaque mediático.
“A dificuldade está, na verdade, em saber quão independentes serão as provas, quão [anónimas] serão as garrafas”, explica. “Espero que façam algo ético.”