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Espanha: igreja relança debate sobre paz entre mouros e cristãos

ARCHIVO: Achados em torno da igreja paleocristã no Cerro de la Virgen revelam um cenário até agora desconhecido.
ARQUIVO: As descobertas em torno da igreja paleocristã do Cerro de la Virgen desenham um cenário até agora desconhecido Direitos de autor  Dmytro Petishkin / Creative Commons
Direitos de autor Dmytro Petishkin / Creative Commons
De Rafael Salido
Publicado a Últimas notícias
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O sítio arqueológico do Cerro de la Virgen, em Calasparra, no sudeste de Espanha, revela que uma comunidade cristã manteve o culto até ao século IX. Arqueólogos defendem que o achado sugere convívio mais harmonioso entre cristãos e muçulmanos do que se pensava.

Colina situada no noroeste de Múrcia está a obrigar os historiadores a repensar algumas das ideias mais consolidadas sobre os primeiros séculos de Al-Andalus. As escavações no Cerro da Virgem de Calasparra trouxeram à luz uma igreja paleocristã que não só sobreviveu à conquista muçulmana de 713, como se manteve em uso durante quase mais dois séculos.

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Publicado na revista científica ‘Salduie’, o estudo (fonte em espanhol) dos investigadores David Martínez e Rubén Fernández documenta a existência de um templo fundado algures na primeira metade do século V que terá mantido o seu carácter religioso pelo menos até ao século IX. Se esta cronologia se confirmar na íntegra, representará uma das evidências mais sólidas da continuidade do culto cristão na Península Ibérica durante os primeiros anos de ocupação moura.

A igreja foi identificada graças às várias campanhas de prospeção e escavação realizadas na zona desde 2021. Os arqueólogos descrevem-na como um edifício de nave única e cabeceira tripartida, configuração que consideram característica de certos templos “tardo-antigos”.

“Isto representa um modelo arquitetónico com notáveis paralelos em igrejas visigóticas como Santa Cristina de Lena”, sublinham os autores do estudo, em referência a este templo situado nas Astúrias. Além disso, assinalam que as sacristias e os ábsides apresentam paralelos com algumas igrejas “paroquiais e episcopais” da Síria, ligação que evidencia o recurso a modelos arquitetónicos semelhantes no Mediterrâneo durante a Antiguidade Tardia.

Muito mais do que uma questão de cronologia

As datações com recurso à técnica do carbono-14 colocam a construção do edifício entre os anos 410 e 440 da nossa era. A estes juntam-se análises cerâmicas e estratigráficas que sustentam a hipótese de uma ocupação prolongada do sítio. O sítio arqueológico já tinha chamado a atenção dos investigadores em campanhas anteriores, quando surgiu uma invulgar luminária paleocristã em bronze, em forma de pomba eucarística, então considerada uma peça excecional no contexto europeu.

Ainda assim, o aspeto mais relevante do novo estudo não é a antiguidade do templo, mas a sua sobrevivência como tal após a conquista muçulmana da Península. Tradicionalmente, muitos relatos históricos descrevem a chegada das tropas mouras, no início do século VIII, como um momento de rutura relativamente nítido com as tradições visigóticas. As descobertas de Calasparra, porém, desenham uma realidade bem mais complexa.

Os investigadores defendem que não há evidências de que a igreja tenha sido transformada em mesquita, nem de que tenha perdido de imediato a sua função religiosa. De facto, afirmam que “o registo, com presença de recipientes e cerâmica de cozinha, não deve ser entendido como evidência de uma dessacralização do templo ou da sua conversão em habitações islâmicas”, lê-se no estudo.

O estudo tipológico e estratigráfico da cerâmica aponta para uma continuidade do carácter litúrgico da igreja até bem entrado o século IX
David Martínez y Rubén Fernández
Autores do estudo

“Pelo contrário, estes materiais devem ser analisados como indicadores de um uso continuado do espaço em práticas comunitárias que incluíam tanto o culto como a gestão de recursos”, sustentam. Esta leitura é reforçada pela conclusão central do trabalho: “O estudo tipológico e estratigráfico da cerâmica aponta para uma continuidade do carácter litúrgico da igreja até bem entrado o século IX”.

A investigação enquadra ainda este fenómeno no contexto da kūra de Tudmīr, entidade administrativa que surgiu após o acordo firmado em 713 entre as autoridades muçulmanas e o nobre visigodo Teodomiro. Esse acordo permitiu a numerosas comunidades cristãs conservar, durante algum tempo, parte das suas estruturas políticas, religiosas e económicas em troca do pagamento de tributos.

A fiscalidade é precisamente outra das chaves do sítio. Entre os materiais recuperados surgem balanças, pesos e outros objetos ligados ao controlo económico e à cobrança de impostos. Um desses pesos conserva mesmo uma inscrição árabe cuja tradução é “a justiça é de Deus”.

Crença cristã, impostos muçulmanos

A presença destes objetos revela que o Cerro da Virgem desempenhou uma função muito para lá da estritamente religiosa. A sua posição estratégica, dominando importantes vias de comunicação e recursos agrícolas da envolvente, transformou-o num centro de organização territorial e económica. Em suma, a comunidade cristã que utilizava a igreja participava igualmente nos mecanismos fiscais do novo poder andalusino.

Os autores resumem esta situação com uma afirmação contundente: “O cerro foi uma comunidade cristã sujeita aos impostos do Estado islâmico e obrigada a inserir-se nos circuitos fiscais e comerciais regionais”.

Para os investigadores, o caso de Calasparra ajuda a compreender melhor como se processou a islamização da sociedade peninsular. Longe de uma substituição imediata de populações ou instituições, o processo terá sido marcado por décadas de adaptação, convivência e transformação gradual.

Segundo explicam, a população cristã “foi ficando progressivamente encurralada entre duas dinâmicas convergentes: por um lado, a crescente capacidade do Estado andalusino para reordenar o território e garantir a extração fiscal; por outro, a islamização funcionou também como via de acomodação social e jurídica”.

O estudo conclui que o desaparecimento destas comunidades cristãs não se deveu necessariamente a episódios de destruição ou expulsão por parte dos mouros, mas a um processo lento de integração na nova sociedade andalusina.

“A hierarquia eclesiástica foi incapaz de manter os pactos vantajosos do momento da conquista, enquanto a crescente centralização, a eficácia fiscal e a atração urbana de Córdova foram erodindo a base produtiva de igrejas, mosteiros e elites cristãs”, afirmam Martínez e Fernández no seu estudo.

Mais de 13 séculos depois, as ruínas do Cerro da Virgem oferecem assim uma nova janela para observar um dos períodos mais decisivos da história da Península Ibérica. E sugerem que a transição entre o mundo visigótico e Al-Andalus foi, pelo menos em alguns territórios, muito mais gradual, negociada e complexa do que durante décadas se julgou.

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