Em entrevista à Euronews, o tenista helvético, que conta no seu palmarés com três títulos do Grand Slam e chegou a ser o terceiro classificado na hierarquia mundial, confidenciou que encara o fim da carreira, que se aproxima, "sem arrependimentos" e com gratidão por tudo o que conquistou.
Stan Wawrinka é uma figura incontornável do ténis internacional. O atleta natural de Lausanne, na Suíça, é detentor de uma das carreiras mais notáveis da sua geração, tendo conquistado três títulos do Grand Slam (Open da Austrália, Torneio de Roland Garros e Open dos EUA)numa era dominada por Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer, três dos maiores nomes da história da modalidade e presenças constantes no topo do ranking mundial.
No final de 2025, anunciou que 2026 seria o seu último ano como tenista profissional. Em entrevista à Euronews, no Millennium Estoril Open, que está a decorrer em Portugal até 26 de julho, Wawrinka faz um balanço de mais de duas décadas no circuito ATP, assegurando ter alcançado "muito mais do que alguma vez poderia ter sonhado".
O suíço fala ainda sobre a forma como está a viver os últimos meses da carreira, garante que aproveitou todas as oportunidades "até à última gota", reflete sobre a filosofia de vida inspirada em Samuel Beckett e recorda aquela que considera ter sido a maior conquista do seu percurso.
Euronews: Stan, anunciaste há alguns meses que este é o teu último ano a competir no circuito profissional. Como é que um atleta lida com as expectativas e as emoções sabendo que é o seu último ano a jogar ao mais alto nível?
Stan Wawrinka: Para mim, tem corrido bem até agora. Estou satisfeito com os primeiros seis meses do ano. O mais importante é que, tal como no ano passado, quero sentir-me bem em campo, dar o meu melhor, sentir-me competitivo e continuar a jogar a um bom nível. É isso que procuro fazer todos os dias: dar o meu máximo nos treinos, na esperança de conseguir ganhar mais alguns encontros este ano. Tenho tido uma atmosfera incrível e adeptos fantásticos em todos esses torneios, por isso, estou super grato.
Euronews: Confessaste recentemente que a forma como o público continua a torcer por ti e a apoiar-te foi uma das razões que te fizeram continuar a jogar profissionalmente. Consideras que esse foi, realmente, um fator importante para conseguires atingir um nível tão elevado na modalidade?
Stan Wawrinka: Sim, foi mesmo. Acho que a emoção que se sente ao jogar ténis, em grandes estádios ou mesmo em courts mais pequenos, com os adeptos a torcerem a teu favor ou contra ti, não importa... Mas é impossível encontrar este tipo de emoção noutro lado. Assim, também isso foi algo de que gostei imenso na minha vida, no ténis. Por isso, sim, estou grato por ter tido a oportunidade de jogar durante tantos anos.
Euronews: Tens uma citação famosa tatuada no braço, da autoria do escritor Samuel Beckett ("Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.") Após tantas conquistas na tua carreira, como os torneios de Roland Garros, Open da Austrália e Open dos EUA, essa tatuagem ganhou um novo significado? Ou o fracasso continua a ser o teu maior "mestre"?
Stan Wawrinka: Penso que não é apenas sobre fracasso. Trata-se de aceitá-lo, aprender com isso e fazer melhor, tentar melhorar, esforçar-me sempre ao máximo. No ténis, em especial, acabamos sempre por perder alguma coisa: perder um jogo, perder um ponto. Por isso, é preciso encontrar sempre o lado positivo em todas as situações. Isso é realmente importante numa carreira longa.
Euronews: Se pudesses destacar apenas uma das principais conquistas que alcançaste ao longo da carreira, em particular devido à tua performance ou ao significado dessa vitória, qual seria?
Stan Wawrinka: É sempre difícil escolher apenas uma. Mas se tiver de fazê-lo, diria a final do Open de França [Torneio de Roland Garros] de 2015, contra o Novak Djokovic. Para mim, foi uma sensação incrível, um jogo incrível. Jogar contra o Novak, o número um do mundo na altura, num ambiente fantástico... Cresci a jogar em terra batida, cresci a aprender ténis em terra batida, por isso, Roland Garros foi sempre muito especial para mim.
Euronews: Em relação aos torneios do Grand Slam, existe também Wimbledon, que foi o único que não conseguiste vencer. Chegas agora ao final da carreira com a sensação de que esse é o troféu que ficou a faltar ou estás em paz com esse facto?
Stan Wawrinka: Não vejo as coisas dessa forma. Penso que alcancei muito mais do que alguma vez poderia ter sonhado, muito mais do que esperava para a minha carreira. Por isso, só vejo aspetos positivos de todas as vitórias que conquistei.
Acho que, no fim de contas, Wimbledon sempre foi um grande desafio. Sempre me esforcei ao máximo. Cheguei a alguns quartos de final [2014 e 2015], a um excelente nível. Portanto, não me falta nada. Não sinto que me tenha escapado nada, que tenha falhado em nada. Acho que alcancei muito mais do que alguma vez poderia ter sonhado.
Euronews: Quando eras criança e começaste a jogar, o que esperavas então alcançar neste desporto?
Stan Wawrinka: Quando era miúdo, era apaixonado por ténis. Queria ser jogador profissional de ténis, estar entre os 100 melhores do mundo e, quem sabe, desempenhar um papel de destaque nos grandes torneios. Esse era o meu sonho. Mas, claro, o meu sonho também foi sempre dar o meu melhor, tentar ultrapassar os meus próprios limites e melhorar. Sem qualquer limite, continuar simplesmente a melhorar.
Euronews: Acreditas que essa mentalidade foi uma peça-chave para ires superando os desafios que te iam aparecendo pela frente?
Stan Wawrinka: Claro, ajudou-me imenso. A minha mentalidade sempre foi a de voltar ao campo, treinar, tentar aprender, melhorar e esforçar-me ao máximo, tentar superar constantemente os meus próprios limites. Porque todos temos limites diferentes. Todos temos expectativas diferentes, sonhos diferentes. O meu sonho era viver do meu trabalho. Eu era apaixonado e continuo a ser apaixonado pelo ténis. Acho que é uma vida fantástica e tenho muita sorte por ter esta carreira há mais de 20 anos.
Euronews: Na conferência de imprensa de antevisão do Millennium Estoril Open, mencionaste que, por enquanto, querias aproveitar os momentos em campo e, depois, tirar algum tempo para relaxar e desfrutar, também, dessa nova fase da tua vida. Porém, a médio prazo, imaginas-te a fazer algo relacionado com o ténis ou tens outros planos?
Stan Wawrinka: Acredito que o ténis fará sempre parte da minha vida. Sou apaixonado por este desporto. Adoro ténis, adoro falar sobre ténis e conversar com jogadores ou com outras pessoas sobre ténis. Por isso, o ténis fará sempre parte da minha vida; isso é certo.
Mas, por agora, ainda tenho alguns meses para jogar. Quero dar o meu melhor, tentar encontrar o melhor equilíbrio possível entre desfrutar e tentar ganhar alguns jogos. E, depois disso, precisarei de relaxar um pouco, fazer uma pausa, claro. A vida no ténis é incrível, mas é muito intensa, sempre a viajar, sempre com novos objetivos, novos torneios todas as semanas. Por isso, quero abrandar um pouco o ritmo.
Euronews: É uma vida desafiante, mas existirão situações de que, naturalmente, sentirás falta no futuro. De que achas que terás mais saudades?
Stan Wawrinka: Penso que a emoção que se sente ao disputar jogos num grande estádio: com os adeptos, com todo o ambiente, esse tipo de emoção é algo que não se encontra em mais lado nenhum. Mas tive a sorte de continuar a jogar a um bom nível até aos 41 anos, de ainda ter a oportunidade de viver isso. Por isso, sei que aproveitei ao máximo, até à última gota, e estou super grato e feliz por isso.
Euronews: Se pudesses estar à conversa com o Stan Wawrinka de 19 anos, que estava a dar os primeiros passos na sua carreira profissional, que conselho lhe darias que sabes agora que seria importante para a sua vida tenística?
Stan Wawrinka: Acho que apenas continuar a desfrutar, a dar o máximo, a fazer o que adora fazer, a treinar. Continuar a lutar por isso, sem hesitações. Como disse, sempre fui apaixonado por este desporto, sempre tentei ultrapassar os meus próprios limites. Consegui mais do que alguma vez poderia ter sonhado e, por isso, estou muito grato.
Euronews: Algum arrependimento?
Stan Wawrinka: Nenhum arrependimento.