Algumas exposições já são apontadas como dos eventos artísticos mais aguardados do ano
A 61.ª edição da Bienal de Veneza vai pôr artistas de todo o mundo a transformar não apenas os pavilhões dos Giardini e do Arsenale, mas também palácios nobres e canais por toda a cidade.
Estas exposições paralelas são vibrantes e variadas – e estão longe de ser simples complementos da mostra principal. Algumas são já apontadas como dos acontecimentos artísticos mais aguardados do ano e todas contribuem para transformar Veneza, no seu conjunto, numa tela para a arte contemporânea.
Perante a profusão destes eventos colaterais, convém ir com um plano definido. Eis as nossas principais sugestões para lá da Bienal.
Da Índia a Veneza
Rume ao Palazzo Barbaro, residência patrícia do século XV no bairro de San Marco, para entrar num mundo esotérico de arte espiritual indiana. O pichwai é uma intrincada tradição têxtil com vários séculos, que em tempos só se vislumbrava fugazmente por detrás dos ídolos do templo de Shrinathji, uma representação querubínica do deus Krishna. O nome deste ofício deriva do sânscrito e significa, à letra, «aquilo que pende atrás».
Nascidos no século XVII em Nathdwara, no Rajastão, estes grandes panos pintados foram concebidos como atos de devoção, cheios de pormenor simbólico e de narrativa. Os pichwais representam rituais do templo, ciclos das estações e geografias sagradas através de composições complexas.
Hoje, sob a orientação da mecenas cultural Pooja Singhal, esta forma de arte está a ser cuidadosamente revitalizada para um público contemporâneo: o ateliê que fundou há uma década recupera materiais, volta a formar artesãos e alarga, com cautela, a linguagem deste ofício.
No Palazzo Barbaro estarão expostas dez obras de grande formato que reinventam este género com 400 anos; se antes serviam para representar o haveli (casas senhoriais organizadas em torno de pátios) de Shrinathji e a cidade de Nathdwara, aqui as composições são recriadas a partir da cidade de Veneza.
A exposição de Singhal prolonga o papel histórico de Veneza como ponto de encontro entre a Índia e o Ocidente, trazendo para o centro das atenções internacionais um património têxtil frágil mas vivo e apoiando os mestres artesãos que o mantêm.
Chihuly: Veneza 2026
Trinta anos depois de um ambicioso projeto que espalhou obras em vidro pelos canais de Veneza, o artista norte-americano Dale Chihuly regressa à cidade.
Apresentada pela Pilchuck Glass School e pelos Frederik Meijer Gardens & Sculpture Park, a mostra Chihuly: Veneza 2026 inclui três novos candelabros escultóricos ao ar livre instalados ao longo do Grande Canal, acompanhados por um centro interpretativo e de arquivo sediado no Istituto Veneto di Scienze, Lettere ed Arti.
As três obras monumentais ao ar livre, com alturas entre quase 5 metros e 9,5 metros, serão instaladas em jardins de palácios e ficarão todas visíveis da Ponte da Accademia. Procure as torres tentaculares que evocam grandes plantas aquáticas em tons de dourado cintilante e azul-marinho. Vale a pena passar à noite para as ver iluminadas, como se fossem bioluminescentes.
Of Woman Born
Encomendada pelo Kiran Nadar Museum of Art (KNMA), a obra da galardoada com o Prémio Kyoto Nalini Malani transformou os Magazzini del Sale, na Fondamenta Zattere do bairro de Dorsoduro, numa “câmara de pensamento” em constante mutação sobre mulheres, mito e conflito global.
A mostra inspira-se no mito grego de Orestes, que matou a mãe e o amante desta para vingar o assassínio do pai. Perseguido pelas Fúrias pelo seu ato, acaba salvo do castigo pela deusa Atena.
Malani reflete sobre este mito e sobre a sua ressonância nas guerras de hoje, em que a responsabilização é uma exceção e as mulheres continuam a suportar o peso da violência patriarcal. Transforma o relato antigo em 67 animações, com mais de 30 mil desenhos feitos em iPad projetados nas paredes.
Os desenhos e a paisagem sonora de 20 minutos com vozes de mulheres formam um ambiente estratificado, visceral e em constante mutação, no qual o público é levado a criar as suas próprias narrativas a partir dessas sucessivas sobreposições.
Jenny Saville em Ca’ Pesaro
Vale a pena visitar a Galeria Internacional de Arte Moderna de Ca’ Pesaro para uma exposição de referência dedicada à artista britânica Jenny Saville.
A primeira grande exposição da obra de Saville em Veneza apresenta pinturas que percorrem a carreira da artista desde a década de 1990 até hoje, incluindo muitas obras seminais das últimas décadas.
A prática de Saville está profundamente enraizada na história da pintura italiana, com uma forte ligação à escola veneziana. Em Ca’ Pesaro, as suas telas monumentais dialogam com os grandes mestres do passado, criando uma ponte entre a pintura contemporânea e o património artístico da cidade.
A última sala da exposição apresenta um ciclo inédito de obras criadas pela artista em homenagem à cidade de Veneza.