Francisca Marvão assina um documentário cheio de música e energia, todo ele no feminino, em que artistas e bandas de hoje trazem de volta a música da primeira pessoa a gravar uma canção rock em Portugal.
O rock português não nasceu com Rui Veloso, nem com José Cid, nem sequer com os Conchas, geralmente considerados o primeiro grupo de rock em Portugal, nos anos 1960. O primeiro disco do género, hoje bastante esquecido, surgiu pela mão de uma mulher, Zurita de Oliveira de seu nome.
De uma família de artistas, irmã do comediante Camilo de Oliveira, Zurita tinha já gravado vários discos de música ligeira ao longo da década de 1950 quando, no primeiro ano da década seguinte, decide aventurar-se pelas novas sonoridades vindas dos EUA e gravar aquela que é hoje reconhecida como primeira canção rock n'roll da história da música portuguesa: chamava-se O Bonitão do Rock.
Além de cantar, Zurita tocava ainda guitarra elétrica, algo muito raro para uma mulher na época. Mais tarde, formaria o seu próprio conjunto, com que percorreu várias salas de espetáculos em Portugal. Acabaria depois por dedicar-se a escrever fados para a sua grande amiga e cúmplice Ada de Castro. Morreu em 2015, aos 84 anos.
Francisca Marvão ouviu falar desta figura histórica mas pouco conhecida quando fazia pesquisas para o seu anterior filme, Ela é uma Música. Fascinada, quis saber mais e logo nasceu a ideia de fazer um documentário: Quem tem medo de Zurita de Oliveira?. "Diz-se que foi a pioneira do rock em Portugal, mas foi mais do que isso. Foi música, letrista, dramaturga, intérprete... foi, sobretudo, uma mulher que nos anos 1960 teve a ousadia de fazer grandes solos de guitarra elétrica num grande palco para um grande público", conta a cineasta.
Além do financiamento, para o qual Francisca Marvão teve de recorrer a um crowdfunding, o documentário enfrentou outro grande desafio: o facto de muito poucas imagens de Zurita de Oliveira terem sobrevivido até hoje: "O tempo passa, não se guardou muitas coisas em relação a ela, pelo que me disseram. Ela gravava, por exemplo, ensaios e perdeu-se isso. Várias pessoas que a conheceram e que talvez tivessem alguma coisa morreram entretanto e as coisas foram-se perdendo", diz Francisca Marvão.
Por exemplo, o único registo filmado conhecido de Zurita de Oliveira, em que canta a canção humorística brasieira "O Namoro da Vovó", é propriedade dos arquivos da RTP, que se recusaram ceder as imagens gratuitamente para o documentário. Tudo isto obrigou a puxar pela cabeça e, por vezes, da necessidade nascem grandes ideias.
Assim, Marvão decidiu, por um lado, fazer encenações com atores, incluindo de uma entrevista com Zurita, baseada em várias declarações da artista a revistas da época. Por outro, convidou várias cantoras e bandas exclusivamente femininas a cantar e reinterpretar vários temas escritos ou originalmente cantados por Zurita de Oliveira, incluindo alguns completamente inéditos. Para interpretar O Bonitão do Rock, foi criada uma banda de raiz, batizada Zuritas Elétricas: É uma forma de dar palco às mulheres que fazem música hoje em dia e resgatar a Zurita para o presente", acrescenta a realizadora.
O filme conta ainda com toda uma série de testemunhos de pessoas que conviveram de perto com Zurita de Oliveira, como Ada de Castro, os membros da banda ou ainda a viúva de Camilo de Oliveira, Paula Marcelo, que se revelou uma peça essencial para o documentário e deixou Francisca Marvão com uma preciosa recordação, ao oferecer-lhe uma guitarra usada por Zurita.
A rapper Dama Bete, uma das artistas convidadas a participar, ficou emocionada ao ver o filme pela primeira vez: "Conseguirmos dar vida a letras que estavam esquecidas, que nunca foram interpretadas pela Zurita, que nunca foram gravadas. Ao ouvir o que cada artista fez ao dar voz a estas canções, consegui sentir mais e identificar-me mais com a causa da Zurita e com o que ela queria dizer", conta.
Além de Dama Bete, o filme conta com participações de A Garota Não, Frik.são, Trypas Corassão ou Vitória & The Kalashnicoles, toda uma colheita recente da música alternativa portuguesa feita no feminino.
"Quem tem medo de Zurita de Oliveira?" estreou na edição deste ano do IndieLisboa.