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Cannes 2026: drama político «Fjord», de Cristian Mungiu, vence a Palma de Ouro

Tilda Swinton, à esquerda, posa com Renate Reinsve, Cristian Mungiu, galardoado com a Palma de Ouro por 'Fjord', e Sebastian Stan durante a cerimónia de entrega de prémios.
Tilda Swinton, à esquerda, posa com Renate Reinsve, Cristian Mungiu, galardoado com a Palma de Ouro por «Fjord», e Sebastian Stan na cerimónia de entrega de prémios Direitos de autor  AP Photo
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De Sertac Aktan com AFP
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"Minotaur", de Andrey Zvyagintsev, conquistou o Grande Prémio, com o realizador a usar o discurso para apelar a Vladimir Putin que pare o banho de sangue na Ucrânia

Anunciaram-se este sábado, na cerimónia de encerramento, os vencedores da 79.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, que voltou a reunir na Riviera Francesa grandes autores, realizadores estreantes e candidatos à época de prémios.

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A Palma de Ouro de 2026 foi atribuída a Fjord, de Cristian Mungiu, sucedendo a A Simple Accident, de Jafar Panahi, galardoado em 2025.

O filme, inspirado em vários incidentes recentes da vida real, assume-se como um estudo de caso sobre o aprofundamento do fosso entre valores progressistas e tradicionais. Acompanha a família Gheorghiu, fervorosos evangélicos romenos que se mudam para uma pequena localidade norueguesa à beira de um fiorde.

Mihai, interpretado por Sebastian Stan, acabado de ser aclamado pela sua encarnação de Donald Trump em The Apprentice (2024), de Ali Abbasi, é um engenheiro aeronáutico romeno casado com uma norueguesa, Lisbet. Quando o casal regressa ao país natal dela, ele reaproxima-se de parte da família alargada e consegue emprego como programador informático na comunidade evangélica local. Profundamente religiosos, educam os filhos com disciplina rígida e intensa devoção, como expressão da fé. No início, instituições e vizinhos recebem-nos de braços abertos. Tudo muda quando, um dia na escola, uma professora repara em nódoas negras inexplicáveis no corpo de uma das filhas.

O filme "Minotaur", do realizador e argumentista russo Andrey Zvyagintsev, conquistou o Grande Prémio de 2026, sucedendo a "Sentimental Value", de Joachim Trier, distinguido em 2025.

Zvyagintsev deixou uma mensagem política no discurso de aceitação, dirigindo-se ao presidente russo, Vladimir Putin, e apelando-lhe para que "pare com a carnificina", numa referência à invasão russa da Ucrânia, que dura há mais de quatro anos.

"Há outra pessoa a quem gostaria de me dirigir hoje, em meu próprio nome. Não está a usar uma VPN para seguir esta cerimónia em direto, mas estou certo de que tem neste momento decisões muito mais importantes a tomar", disse em russo Andrey Zvyagintsev.

"Milhões de pessoas, de ambos os lados da linha de contacto, sonham apenas com uma coisa: que os massacres acabem de vez. E a única pessoa que pode pôr termo a esta carnificina é o presidente da Federação Russa, pondo fim a este banho de sangue. É isso que o mundo inteiro espera", acrescentou Zvyagintsev.

O Prémio de Melhor Realização foi para Javier Ambrossi e Javier Calvo, por La Bola Negra, e para Pawel Pawlikowski, por Fatherland, sucedendo a Kleber Mendonça Filho, galardoado em 2025 por L'Agent secret.

"O cinema tem de refletir a situação política, mas não segundo condições ditadas. É preciso coragem, neste mundo, para falar do que as pessoas realmente veem. Tem de existir um espaço de liberdade para a arte. Há cada vez mais gente convencida de que está do lado certo", disse Pawel Pawlikowski em palco, numa altura em que o caso da plataforma anti-Bolloré abalou o Festival de Cannes. "O cinema tem de resistir, foi por isso que fizemos este filme", concluiu.

Tributo ao escritor palestiniano Mahmoud Darwish

Antes de anunciar o prémio de melhor realização, o cineasta e argumentista quebequense Xavier Dolan prestou homenagem ao escritor palestiniano Mahmoud Darwish, citando-o assim: "Nesta terra, há aquilo que merece a vida: a hesitação de abril, o cheiro do pão ao amanhecer, as opiniões de uma mulher sobre os homens, os escritos de Ésquilo. O princípio do amor. A erva sobre a pedra. As mães, de pé, sobre o fio de uma flauta. E o medo que a memória inspira nos conquistadores."

O júri da competição principal foi presidido pelo realizador sul-coreano Park Chan-wook e a seleção oficial do festival integrou 19 longas-metragens em competição.

Principais tendências de 2026

A edição de 2026 de Cannes está marcada por alguns temas claros: maior foco no cinema de autor e independente, uma aposta visível em filmes sobre guerra, exílio, deslocação e conflito político e uma presença de Hollywood e dos blockbusters mais discreta do que o habitual.

O festival destacou também histórias mais internacionais e enraizadas na História, com vários filmes a usarem o passado para falar das atuais tensões autoritárias e sociais.

Os filmes de autor e centrados nos realizadores dominaram a conversa, com críticos a descreverem a seleção deste ano como mais íntima e arriscada do que orientada por franquias.

Os temas ligados ao conflito tiveram grande destaque, em especial a guerra, a migração, a identidade, o luto e os efeitos psicológicos da violência.

O papel cultural mais alargado do festival também está a crescer, com a moda, o luxo, o bem-estar e a tecnologia a ganharem mais atenção ao lado dos próprios filmes.

No ano passado, o realizador iraniano Jafar Panahi venceu a Palma de Ouro com It Was Just an Accident, enquanto o norueguês Joachim Trier arrecadou o Grande Prémio com Sentimental Value. Juliette Binoche presidiu ao júri de 2025, sucedendo a Greta Gerwig, que liderara o painel em 2024.

A edição de 2026 contou ainda com Teenage Sex and Death at Camp Miasma, de Jane Schoenbrun, como filme de abertura da secção Un Certain Regard, sublinhando a mistura constante entre nomes consagrados e novas vozes no festival.

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