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Israel: Nadav Lapid abandona festival de cinema em Marselha

Nadav Lapid, galardoado com o Prémio do Júri pelo filme «Ahed's Knee», na cerimónia de entrega de prémios do 74.º Festival de Cinema de Cannes, 17 de julho de 2021
Nadav Lapid, galardoado com o Prémio do Júri pelo filme «Ahed's Knee», na cerimónia de entrega de prémios do 74.º Festival de Cannes, 17 de julho de 2021 Direitos de autor  Vianney Le Caer/2021 Invision
Direitos de autor Vianney Le Caer/2021 Invision
De Serge Duchêne
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O cineasta israelita, crítico de Benjamin Netanyahu e exilado em França há cinco anos, pergunta o que ainda faz no país se a sua presença é considerada inaceitável e pode ser apagado de um evento de cinema

Ninguém é profeta na sua terra, costuma dizer-se, mas por vezes as terras de acolhimento não são muito mais recetivas...

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Os apelos a não trabalhar com instituições israelitas «envolvidas no genocídio e no apartheid contra o povo palestiniano», que recolhem milhares de assinaturas em Hollywood, parecem ter atravessado o Mediterrâneo.

Assim, a participação do israelita Nadav Lapid na 37.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Marselha (FID, de 7 a 12 de julho) foi recebida com reservas por parte de alguns dos realizadores selecionados, que primeiro recusaram vê-lo no júri e, depois, rejeitaram pura e simplesmente a sua presença no festival.

Galardoado com o Urso de Ouro em Berlim em 2019, bem como com prémios do júri em Locarno (2011) e em Cannes (2021), Lapid tinha de apresentar no FID o seu filme Le Policier (2011).

Na origem desta contestação estiveram, pelo menos segundo o que foi dito publicamente, os fundos públicos israelitas utilizados para financiar – de forma muito parcial – o mais recente filme de Lapid, Oui, apresentado em Cannes em 2025, na Quinzena dos Cineastas.

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Quer por ironia do destino, quer por um certo cegamento militante que vê apenas a cor do passaporte – ou do dinheiro –, Oui, incandescente como toda a filmografia do realizador, traça o retrato de uma sociedade israelita deformada pela sede de vingança após 7 de outubro e indiferente às mortes palestinianas em Gaza.

Nadav Lapid é, além disso, conhecido como feroz crítico de Benyamin Netanyahu; mudou-se para França há cinco anos precisamente para protestar contra a política do governo israelita.

Quanto aos fundos israelitas utilizados na produção do último filme incendiário de Lapid, «o subsídio israelita de que o filme beneficiou vem de um fundo público e não governamental, e é precisamente o tipo de organismo independente que está a ser atacado pelo governo Netanyahu», declarou à AFP Judith Lou Lévy, produtora de Oui na Les Films du Bal, acrescentando que esses fundos públicos representaram apenas 12% do orçamento do filme.

Depois do apelo interno ao boicote, seguido da retirada de cerca de uma dezena de filmes dos 120 programados neste festival que promove ficção e documentário de cinema independente, o próprio Nadav Lapid acabou por retirar a sua participação no certame em Marselha.

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Arrependimentos de todos os lados?

Em comunicado, o FID lamentou o boicote, considerando «perfeitamente ilegítimo responsabilizar um cineasta pela política racista, colonialista e genocidária levada a cabo pelo governo do seu país».

«Vozes singulares que, como a de Nadav Lapid, procuram pensar a violência própria do Estado e da sociedade de Israel devem, pelo contrário, ser acolhidas e ouvidas, mesmo que depois os relatos sejam contestados ou desconstruídos», lê-se no texto.

Por seu lado, Lapid lamenta, em declarações à AFP, «a resignação» do festival e o apelo ao boicote, que o confrontou com a sua «vulnerabilidade» de exilado em França. «Quando vi as pressões em torno da minha participação no festival, disse para comigo que talvez eu não tivesse lugar em França. Se a minha presença é inaceitável e se se pode simplesmente apagar-me ou varrer-me de um evento de cinema, já nem sei o que estou aqui a fazer», afirma.

Recusando «ter pena de si próprio», Nadav Lapid diz sentir-se «aliviado» por profissionais de cinema terem tomado a iniciativa de lançar uma tribuna em seu apoio, à qual o FID afirma aderir «plenamente».

Intitulado «Convidar um artista para um festival não é transformá-lo em embaixador cultural», o texto, publicado na segunda-feira no Le Monde (fonte em francês), manifesta preocupação por um artista que «denunciou publicamente, em inúmeras ocasiões, o aniquilamento de Gaza» poder ser assimilado a «qualquer forma de embaixada cultural israelita».

Entre os cerca de 350 signatários do texto contam-se os realizadores Arthur Harari, Louis Garrel, Apichatpong Weerasethakul e Claire Denis, bem como a Sociedade de Realizadoras e Realizadores de Filmes (SRF) e o escritor palestiniano Elias Sanbar.

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Entretanto, outro coletivo de cineastas, que inclui o realizador galardoado com um Óscar Michel Hazanavicius e os vencedores da Palma de Ouro Justine Triet e Jacques Audiard, qualificou na terça-feira de «falência intelectual» o apelo ao boicote que levou o realizador israelita a cancelar a sua ida a Marselha.

«O facto de o maior artista dissidente israelita, que trabalha sem descanso para denunciar os desvios fascistas e colonialistas do seu governo e as suas falências morais criminosas, em filmes premiados em todo o mundo, ser levado a retirar-se de um festival francês deve alertar-nos e mobilizar-nos para lá desta aberração», escreve, também no Le Monde (fonte em francês), este coletivo, que integra também a atriz norte-americana Natalie Portman.

Por seu lado, os 12 cineastas que tinham apelado ao boicote a Nadav Lapid justificam, numa mensagem no Instagram, a sua posição com a vontade de «agir contra uma realidade colonial e genocidária aprovada» e denunciam «a insistência» dos festivais em «produzir uma simetria (...) entre produções palestinianas e israelitas».

Outras fontes • AFP, franceinfo

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