“Disclosure Day”, de Steven Spielberg, estreia forte nas bilheteiras apesar das críticas mistas. A equipa de Cultura da Euronews sugere filmes menos conhecidos do realizador.
O thriller de ficção científica Disclosure Day, de Steven Spielberg, está a revelar-se um sucesso de bilheteira, depois de uma estreia global que já rendeu 93 milhões de dólares.
O filme marca o regresso do consagrado realizador ao tema do contacto entre humanos e vida extraterrestre, centrando-se numa missão de denúncia para expor uma conspiração governamental sobre alienígenas que visitam a Terra.
Embora o filme esteja a caminho de se tornar o título original com melhor desempenho do realizador, de 79 anos, nos Estados Unidos, as reações têm sido mistas.
As opiniões dividem-se. Por um lado, o argumento irregular prejudica o esforço de Spielberg e o terceiro ato resvala para uma paródia lamechas. Ainda assim, Disclosure Day confirma que poucos realizadores conseguem equilibrar entretenimento de grande espetáculo e cinema de prestígio como Spielberg. E, num mundo a combater um cinismo galopante e escolas de pensamento à la Elon Musk que defendem que a empatia é uma fraqueza, parece mais vital do que nunca recordar que a comunicação e a compaixão continuam a ser a “vantagem evolutiva” da humanidade.
Leia aqui a nossa crítica completa de Disclosure Day.
Ao longo de uma carreira que já leva 55 anos e 37 longas-metragens, não é exagero dizer que o rapaz de Ohio redefiniu o panorama de Hollywood. Spielberg assinou alguns dos maiores blockbusters (Jaws, a trilogia original de Indiana Jones, Jurassic Park), dramas históricos marcantes (Schindler’s List, Saving Private Ryan), pérolas de ficção científica (Close Encounters of the Third Kind, Minority Report) e filmes “para crianças” adorados por gerações (E.T. The Extra-Terrestrial, The BFG).
No entanto, apesar dos títulos premiados e dos êxitos de bilheteira, alguns filmes de Spielberg foram ficando pelo caminho.
A equipa de Cultura da Euronews escolheu algumas das suas obras mais subestimadas – aquelas que vale a pena descobrir ou rever se Disclosure Day não satisfizer totalmente a sua curiosidade sobre OVNIs.
Duel (1971)
Tendo em conta que Duel foi originalmente feito para televisão, esteve quase a não entrar nesta lista. Mas é demasiado bom para ser ignorado.
Tecnicamente o segundo filme de Spielberg (o Firelight de 1964 conta, mesmo estando parcialmente perdido), Duel é uma autêntica lição de suspense de roer as unhas. Adaptado do conto do lendário escritor de terror e ficção científica Richard Matheson, é um relato seco e implacável de homem contra camião: um thriller de gato e rato de 74 minutos que deixa qualquer um a suar em bicas. Sobretudo porque o motivo por detrás da obstinação do invisível camionista em aterrorizar o nosso protagonista é deixado deliberadamente pouco claro.
Ressentimento? Sadismo? Simplesmente porque pode? É como perguntar a um tubarão-branco porque gosta de atacar nadadores – e este road movie de suspense preparou claramente o terreno para Jaws, quatro anos mais tarde.
Spielberg tinha apenas 25 anos quando realizou Duel, e já em 1971 mostrava um talento ímpar para compreender o medo e oferecer emoções fortes. DM
The Sugarland Express (1974)
Entre o telefilme aclamado pela crítica Duel (1971) e o grande êxito de bilheteira Jaws (1975), The Sugarland Express é facilmente relegado para segundo plano – apesar de ser a primeira longa-metragem de Spielberg estreada em sala.
Baseado numa história verídica de 1969, acompanha uma Goldie Hawn de olhar ingénuo no papel de mãe disposta a tudo para recuperar o filho, sob tutela do Estado. Depois de ajudar o marido (William Atherton) a fugir da prisão, o casal faz refém um agente da patrulha rodoviária do Texas e lança-se numa perseguição automóvel a alta velocidade com a polícia.
É um filme invulgar, e facilmente esquecido, pela sua simplicidade; destaca-se sobretudo pela forma como constrói a tensão, pelo trabalho de câmara muito físico e pela atmosfera do sul dos Estados Unidos, que envolve por completo o espectador. Mas por baixo da ação de pequena escala, a voz de Spielberg já é nítida, ainda que não totalmente amadurecida.
Através de jogos de perspetiva – olhares e pistas na paisagem refletidos nos espelhos do carro –, o realizador desenha um retrato íntimo de personagens desastradas e desajustadas, bem-intencionadas, mesmo quando as suas ações dizem o contrário.
O resultado transforma uma clássica história de foras da lei em fuga em algo que, embora tonalmene irregular, antecipa o misto de charme acolhedor e espetáculo de grande coração que viria a definir a carreira de Spielberg – e a tornar os seus filmes tão duradouramente queridos. AB
Hook (1991)
Hook costuma ser maltratado e o próprio Spielberg já admitiu publicamente que nunca ficou satisfeito com o resultado do filme de aventuras de 1991. Compreensível. Não conhecemos os dramas de bastidores nem o que o realizador tinha em mente.
Ainda assim, para nós continua a ser a abordagem mais ousada e interessante ao Rapaz Que Nunca Cresceu, de J.M. Barrie, já que Spielberg faz Peter Pan crescer, esquecer a sua verdadeira identidade, tornar-se advogado corporativo viciado em trabalho e pai ausente. O realizador aprofunda o mito da personagem, explorando o espaço liminar entre a infância e o mundo triste dos adultos.
O resultado é um blockbuster familiar perfeito, cheio de visuais em cores garridas, duelos de capa e espada e muito coração. Robin Williams é um prazer de ver como homem ferido que tenta reencontrar o seu sentido de maravilha interior, e é difícil não gostar de Dustin Hoffman em registo totalmente teatral como Capitão Gancho, com Bob Hoskins a roubar cenas como o viscoso Smee.
Pode não ser o melhor filme familiar de Spielberg (E.T. continua a levar esse título), mas Hook é certamente uma das suas obras mais subestimadas e ambiciosas. E consegue um equilíbrio bem mais afinado entre adrenalina, emoção e sentimentalismo do que Disclosure Day.
Por fim, deixamos uma pequena experiência social: entre numa sala e grite “RU-FI-OOOOOOOOOOO!”
Quem sorrir ou alinhar assim que ouvir o nome do líder dos Meninos Perdidos... Essa pessoa é um amigo em potência. Pelo menos alguém de grande bom gosto. DM
A.I. Artificial Intelligence (2001)
Embora não seja propriamente subestimado, A.I. Artificial Intelligence tende a ser esquecido quando se faz o balanço da filmografia de Spielberg – talvez por ser tão devastador do ponto de vista emocional.
Baseado no conto de Brian Aldiss de 1969, “Super-Toys Last All Summer Long”, foi na verdade Stanley Kubrick quem comprou os direitos nos anos 70. Perfeccionista como sempre, passou mais de duas décadas a desenvolver o projeto numa alegoria sombria em modo Pinóquio sobre um rapaz-robô em busca de sentido, moralidade e identidade num mundo corrompido.
Enquanto esperava que a tecnologia avançasse, Kubrick acabou por entregar o projeto a Spielberg em 1995, que – num gesto de homenagem ao lendário colega – lançou o filme em 2001.
O título marcou também uma viragem de tom para Spielberg, iniciando a sua trilogia não oficial do “homem em fuga” – que inclui Minority Report (2002) e Catch Me If You Can (2002). Todas exploram personagens em fuga, mas também cruzam questões filosóficas cativantes com espetáculo de tirar o fôlego.
Embora Haley Joel Osment seja sobretudo recordado por Sixth Sense (1999), a sua interpretação de David, o primeiro rapaz Mecha a quem é dada a capacidade de amar incondicionalmente, é bem mais poderosa. Em cada gesto rígido e fala robótica há um poço de desejo profundamente humano captado em cada olhar azul. O seu companheiro-robô, Teddy (Jack Angel), é também um dos ajudantes mais adoráveis da história do cinema.
Numa era de rápidos avanços na inteligência artificial, o filme ganha uma nova atualidade. À medida que a IA ocupa espaços nas indústrias criativas e cada vez mais pessoas recorrem a chatbots para companhia, instala-se a desconfortável perceção de que deixámos de assistir a um mundo que poderia vir a existir – e passámos a vivê-lo. É difícil não sentir, como David observa, que os nossos “cérebros estão a cair-nos”. Mas há algo de esperançoso que A.I. Artificial Intelligence nos oferece: a ideia de que nada substitui a alma humana e a sua capacidade de sonhar, estabelecer ligações e criar. Sem isso, a humanidade transforma-se num conto de fadas congelado, algo a que só conseguimos agarrar-nos em versões artificiais.
É melhor não chegarmos a esse ponto. AB
Munich (2005)
Entre as obras mais negligenciadas na filmografia de Spielberg, Munich – adaptado do livro “Vengeance”, de George Jonas – chegou às salas com uma receção discreta nas bilheteiras e pouca atenção nos prémios, e foi sendo afastado da conversa cultural desde então. É uma pena, porque é um dos seus filmes mais brutais, complexos e inquietantes.
O filme conta a história da caça clandestina, por parte do Mossad, aos operacionais de Setembro Negro responsáveis pelo massacre de Munique em 1972, em que onze atletas israelitas foram feitos reféns e mortos. O que começa como um thriller de espionagem meticulosamente estruturado transforma-se gradualmente em algo bem mais desconfortável: um estudo sobre a vingança e o custo psicológico de tentar “equilibrar” violência com violência. Munich recusa, assim, traçar fronteiras claras entre terrorismo e contra-terrorismo, sugerindo antes que ambos existem dentro de um mesmo ciclo de horror.
Do ponto de vista formal, é indiscutivelmente um dos trabalhos mais fortes de Spielberg. Lentes longas, marcações rigorosas, planos-sequência intrincados, enquadramentos em reflexos de vidros e movimentos de câmara fluidos criam um mundo consumido pela paranoia e pela culpa. Uma sequência que envolve uma cabine telefónica é particularmente memorável e constitui uma verdadeira aula de cinema sobre como construir tensão.
Politicamente, o filme recusa respostas fáceis e abre espaço a perspetivas israelitas e palestinianas, de uma forma que foi controversa na estreia e continua a perturbar espectadores hoje. Mas, vinte anos depois, num contexto de violência persistente em Gaza e na região em geral, Munich mantém-se dolorosamente atual. TF
The Adventures of Tintin (2011)
Como é que um filme com o seguinte currículo não é mais referido? Produzido por Peter Jackson, coescrito por Edgar Wright, com vozes de Andy Serkis, Daniel Craig, Jamie Bell, Toby Jones, Nick Frost e Simon Pegg, e realizado pelo próprio Spielberg.
Este filme tem tudo: aventura, mistério, humor leve, caos de capa e espada e alguns dos movimentos de câmara mais delirantemente inventivos que Spielberg já levou ao ecrã. E, no entanto, continua a passar discretamente por baixo do radar. Talvez a utilização de captura de movimento afaste parte do público – ainda haverá muito trauma mal resolvido dos olhares vidrados e inquietantes de The Polar Express. Compreensível. Mas aqui Spielberg consegue, em grande medida, fugir a esse pesadelo.
O filme de animação, adaptado da icónica série de banda desenhada de Hergé, acompanha Tintim, o seu cão Milu e um gloriosamente bêbedo Capitão Haddock numa caça ao modelo de um navio valioso que os leva a percorrer meio mundo. A mão de Spielberg sente-se em todo o lado: sequências de ação em plano contínuo de tirar o fôlego, iluminação deslumbrante e algumas das transições de cena mais elegantes que se podem ver (sem exagero). A banda sonora de John Williams é também um absoluto regalo. E, com Peter Jackson agora confirmado como argumentista e realizador da aguardada sequela, este é o momento certo para embarcar nesta pérola subestimada. TF
Disclosure Day está atualmente em exibição nos cinemas.