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Alterações climáticas: estas cidades europeias não poderão receber Jogos Olímpicos de Inverno

Anéis olímpicos expostos junto a uma pista do Centro de Esqui Stelvio, palco do esqui alpino e do esqui de montanha, nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026
Anéis olímpicos expostos junto a uma pista do Centro de Esqui Stelvio, que acolherá o esqui alpino e o esqui de montanha, nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026. Direitos de autor  AP Photo/Luca Bruno, File
Direitos de autor AP Photo/Luca Bruno, File
De Jennifer Mcdermott and Pat Graham com AP
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Chamonix e Oslo estão entre os locais considerados de risco para acolher futuros Jogos Olímpicos.

A biatleta belga Maya Cloetens não consegue deixar de pensar no futuro dos desportos de inverno enquanto treina para os Jogos Olímpicos do próximo mês, em Milão-Cortina, Itália.

Os sinais das alterações climáticas estão por todo o lado nas montanhas acima de Grenoble, França, onde a atleta, de 24 anos, se apaixonou pela modalidade que combina esqui de fundo e tiro

Grenoble acolheu os Jogos Olímpicos de Inverno de 1968, mas os invernos são hoje mais curtos e amenos, com nevões menos regulares. Quando os Jogos regressarem aos Alpes franceses, em 2030, Grenoble deixará de estar no centro.

"Cresci lá e noto bem a diferença da neve", diz Cloetens. "Em 15 anos, mudou completamente".

Com o planeta a aquecer a ritmo recorde, a lista de locais que podem acolher com fiabilidade uns Jogos de Inverno vai encolher substancialmente nos próximos anos, segundo investigadores

Maya Cloetens, da Bélgica, compete na prova de sprint de 7,5 km, na Taça do Mundo de Biatlo, em Oberhof, Alemanha
Maya Cloetens, da Bélgica, compete na prova de sprint de 7,5 km, na Taça do Mundo de Biatlo, em Oberhof, Alemanha Hendrik Schmidt/dpa via AP, File

A situação é tão séria que o Comité Olímpico Internacional (COI) pondera rodar os Jogos entre um conjunto permanente de locais adequados e antecipar o calendário, porque março está a tornar-se demasiado quente para os Jogos Paralímpicos, diz Karl Stoss, que preside à Comissão de Futuros Anfitriões.

Escasseiam candidatos a acolher os Jogos de Inverno

De 93 locais de montanha que atualmente dispõem de infraestruturas para receber competição de elite, apenas 52 deverão ter espessura de neve e frio suficientes para acolher uns Jogos Olímpicos de Inverno na década de 2050, segundo investigação de Daniel Scott, professor na Universidade de Waterloo, e Robert Steiger, professor associado na Universidade de Innsbruck, que o COI está a utilizar. O número pode cair para apenas 30 na década de 2080, dependendo da redução da poluição por dióxido de carbono.

Além disso, o COI dá prioridade a locais com pelo menos 80% de instalações existentes, o que reduz ainda mais o leque.

A situação é ainda mais difícil para os Jogos Paralímpicos de Inverno, normalmente realizados nos mesmos locais duas semanas depois dos Jogos de Inverno. Ainda assim, Scott diz que ele e Steiger concluíram que antecipar ambos cerca de três semanas quase duplicaria o número de locais fiáveis para os Paralímpicos. A modelização pressupõe produção de neve avançada e conclui que quase não haverá locais capazes de acolher de forma fiável as modalidades de neve sem neve artificial a meio do século

Grenoble não é o único anfitrião do passado que, segundo os investigadores, deixará de ser "fiável do ponto de vista climático" na década de 2050. Chamonix, França, Garmisch-Partenkirchen, Alemanha, e Sochi, Rússia, também ficam de fora, enquanto antigos palcos em Vancouver, Canadá, Palisades Tahoe, Califórnia, Sarajevo, Bósnia-Herzegovina, e Oslo, Noruega, seriam "arriscados do ponto de vista climático".

"As alterações climáticas vão mudar a geografia de onde podemos realizar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno. Não há dúvidas", diz Scott. "A única questão é: quanto?".

Dependência da neve artificial, por agora

A neve artificial foi usada pela primeira vez nos Jogos de Inverno de 1980, em Lake Placid, Nova Iorque. Pequim foi a primeira, em 2022, a depender quase totalmente da produção de neve.

Para estes Jogos, o comité organizador planeia produzir quase 2,4 milhões de metros cúbicos de neve. Em contraste, quando Cortina acolheu os Jogos de 1956, não se recorreu a neve artificial, embora o exército italiano tenha levado camiões de neve desde os Dolomitas.

A empresa italiana que fornece quase todos os novos sistemas de produção de neve, a TechnoAlpin, desenvolveu tecnologia para produzir neve com temperaturas bem acima de zero. A empresa diz ter enviado o seu "SnowFactory" para Antholz, local do biatlo, para garantir cobertura suficiente.

Alguém trabalha num canhão de neve numa colina com vista para um treino de esqui de fundo antes dos Jogos de Inverno de 2022, na China
Alguém trabalha num canhão de neve numa colina com vista para um treino de esqui de fundo antes dos Jogos de Inverno de 2022, na China AP Photo/Aaron Favila, File

Davide Cerato coordena as operações de produção de neve em vários recintos olímpicos. Com os sistemas mais recentes, diz, conseguem produzir muita neve, de forma eficiente, mesmo em temperaturas-limite para a produção de neve, por agora

"Mas no futuro, não sei", afirma.

O norte de Itália é conhecido pelos invernos frios e nevados. Mas a queda de neve sazonal diminuiu bastante em todo o arco alpino, com as quebras mais acentuadas sobretudo nos últimos 40 anos devido ao aumento da temperatura

O climatólogo italiano Luca Mercalli recorda olhar, há 50 anos, para os Alpes a partir de sua casa, em Turim, e ver as montanhas brancas de neve de finais de outubro até junho. Agora, muitas vezes vê cinzento.

Neve artificial tem limites

Um dos maiores especialistas na construção de pistas de competição é o rancheiro do Wyoming Tom Johnston. Para ele, a neve artificial é preferível à que cai naturalmente, com uma reserva: "Preciso de temperaturas mais frias", diz Johnston

O equipamento tradicional de produção de neve exige frio e baixa humidade.

Produzir neve exige enormes quantidades de energia e água. Se a eletricidade vier de combustíveis fósseis, agrava as alterações climáticas e pode piorar a pressão sobre a água em regiões onde é escassa. Para Milão-Cortina, a parceira Enel garante eletricidade totalmente renovável e certificada.

Pessoas esquiam numa encosta com neve artificial perto de Bayrischzell, Alemanha
Pessoas esquiam numa encosta com neve artificial perto de Bayrischzell, Alemanha AP Photo/Matthias Schrader, File

O comité organizador estima necessitar de 946 milhões de litros de água, o equivalente a quase 380 piscinas olímpicas, para a produção de neve. Foram criadas novas albufeiras em altitude para a armazenar.

"Sem água, não há Jogos", diz Carmen de Jong, professora de hidrologia na Universidade de Estrasburgo.

Critica a construção de albufeiras que alteram o ecossistema natural, mas não vê alternativa: a procura de neve artificial só vai aumentar com as alterações climáticas.

Planear o futuro

Eventos como os Jogos atraem participantes e adeptos de todo o mundo e sempre contribuíram para as alterações climáticas. Há voos, constroem-se novas instalações e consome-se muita eletricidade, emitindo grandes quantidades de dióxido de carbono.

Perante isto, o COI está a exigir que os anfitriões minimizem o consumo de água e eletricidade e evitem construções desnecessárias. Poderá ter de reduzir o número de modalidades, atletas e espectadores, diz Stoss, presidente da Comissão de Futuros Anfitriões.

Sendo a organização de referência do desporto, diz Stoss, cabe ao COI mostrar como proteger os desportos de inverno a longo prazo.

O COI escolheu os Alpes franceses para os Jogos de Inverno de 2030 e Salt Lake City, Utah, para 2034. Mantém conversações exclusivas com a Suíça para 2038. Stoss diz apreciar a Suíça pela infraestrutura existente e pelo excelente transporte público.

Afirma que este é o futuro: escolher países com boas condições e padrões elevados de proteção do clima. E elogia Milão-Cortina pelo uso maioritário de instalações existentes e pela redução do impacto ambiental dos Jogos.

Diana Bianchedi, diretora de estratégia, planeamento e legado do comité organizador, diz que, desde o início, procuraram modelar um futuro mais sustentável, tanto para o movimento olímpico como para uma transformação social mais ampla.

"Este é o momento em que temos de mudar".

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