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Aterro em Ushuaia, na Argentina, pode ser origem do surto de hantavírus

Imagem de acesso livre de um aterro sanitário
Imagem de acesso livre de um aterro sanitário Direitos de autor  Pixabay DS_30
Direitos de autor Pixabay DS_30
De Cristian Caraballo
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Oito pessoas foram infetadas, três das quais morreram devido ao surto de hantavírus no MV Hondius. As autoridades apontam um depósito de lixo nos arredores de Ushuaia como o ponto onde tudo começou.

Um depósito de lixo nos arredores de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, tornou-se o epicentro da investigação sobre o surto de hantavírus a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius. As autoridades sanitárias acreditam que foi ali que o casal neerlandês que encabeça a cadeia de infeção entrou em contacto com o vírus durante uma viagem de observação de aves.

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A zona atrai os viajantes precisamente devido à abundância de aves que a sobrevoam, mas as mesmas condições que a tornam popular entre os ornitólogos amadores fazem dela um ambiente favorável aos roedores portadores do hantavírus. A transmissão ocorre através do contacto com os excrementos, a saliva ou a urina destes animais.

O que torna este caso particularmente complicado é a variante identificada: a estirpe Andes, a única estirpe do vírus que se sabe ser capaz de se propagar de pessoa para pessoa. Isto explicaria por que razão, uma vez a bordo do Hondius, a infeção se propagou para além do par inicial.

Uma longa viagem com um final trágico

Os dois turistas chegaram à Argentina a 27 de novembro de 2025 e passaram meses a percorrer o país de carro. Visitaram o Chile e o Uruguai antes de regressarem à Argentina no final de março. A 1 de abril, embarcaram em Ushuaia.

Pouco tempo depois, começaram os sintomas. O homem de 70 anos morreu na ilha de Santa Helena. A sua mulher, de 69 anos, morreu na África do Sul quando tentava regressar à Europa. No total, o surto deixou oito casos confirmados, entre os quais três óbitos.

Os dados de base não são tranquilizadores. Na Argentina, a taxa de mortalidade por hantavírus subiu de 17% entre 2019 e 2024 para mais de 33% no último ano, um salto que fez soar o alarme tanto a nível nacional como nas organizações internacionais.

As autoridades também salientam que a Terra do Fogo não registava casos há décadas: o último caso na província remonta a 1996. Para confirmar a hipótese de o aterro ser a origem do surto, equipas técnicas deslocar-se-ão à zona para capturar roedores e procurar vestígios do vírus. A Argentina também ativou canais de cooperação internacional e enviará material genético da estirpe para laboratórios em Espanha, África do Sul, Países Baixos e Reino Unido, com o objetivo de melhorar os protocolos de deteção e diagnóstico.

Argentina fora da OMS

O surto trouxe à tona um pormenor fundamental: a Argentina já não é membro da Organização Mundial de Saúde. A sua saída, tal como a dos Estados Unidos, entrou em vigor em meados de março.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, aproveitou a conferência de imprensa sobre o hantavírus para pedir a ambos os países que reconsiderassem a sua decisão, embora o governo argentino tenha respondido que não precisa de pertencer à organização para cooperar com outros países em questões de saúde. Por enquanto, mantém relações técnicas com a Organização Pan-Americana da Saúde a nível regional.

O rato transmissor do vírus

O Oligoryzomys longicaudatus, conhecido como rato de cauda longa, é o principal transmissor da estirpe dos Andes. É um pequeno roedor selvagem, castanho claro, que vive no Chile e no sul da Argentina. Pesa menos de 30 gramas, tem orelhas pequenas e olhos grandes, e a sua cauda pode ter o dobro do comprimento do resto do corpo.

É uma espécie autóctone e está protegida. Cumpre funções ecológicas: dispersa sementes e faz parte da cadeia alimentar de outros animais. Noturno, desloca-se por saltos graças às suas longas patas traseiras, e prefere terrenos arbustivos ou arbóreos, perto de fontes de água.

Estes roedores são o reservatório natural da estirpe dos Andes e infetam-se uns aos outros principalmente durante as lutas ou o acasalamento. Os animais infetados não desenvolvem a doença, embora alguns estudos sugiram que o vírus reduz a sua esperança de vida, estimada em um ano.

Não se sabe quantos animais existem, pois as suas populações flutuam muito em função do clima, da disponibilidade de alimentos e de fatores como a desflorestação ou a expansão agrícola.

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