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Constipação em astronautas no espaço: análises de sangue dão novas pistas

O astronauta da NASA Mike Fincke surge na escotilha Quest da Estação Espacial Internacional antes do início da terceira saída para o espaço da missão STS-134. Crédito: NASA
Astronauta da NASA Mike Fincke é fotografado no módulo de saída Quest da Estação Espacial Internacional antes do terceiro passeio espacial da missão STS-134. Crédito: NASA Direitos de autor  NASA via AP
Direitos de autor NASA via AP
De Alexandra Leistner
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Análises ao sangue de 52 astronautas indicam que as bactérias intestinais degradam mais proteína em voo espacial, o que pode ser relevante para doentes na Terra.

A obstipação é um problema frequente entre astronautas. Mas a razão exata para o abrandamento do intestino no espaço continua pouco clara.

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Agora, investigadores da Universidade de Copenhaga, em colaboração com a NASA, dizem ter encontrado pistas no sangue de astronautas que podem ajudar a explicar o que acontece ao intestino quando o corpo deixa a Terra (fonte em inglês).

Os investigadores analisaram amostras de sangue de 52 astronautas que passaram vários meses a bordo da Estação Espacial Internacional (EEI). Os resultados sugerem que as alterações no intestino começam relativamente pouco tempo depois de os astronautas chegarem ao espaço.

Nas semanas seguintes à partida da Terra, os astronautas mostraram sinais de que as bactérias intestinais estavam a fermentar mais proteína do que o habitual. Essa alteração manteve-se ao longo das missões e desapareceu após o regresso à Terra.

Que alterações sofre o intestino no espaço?

Em condições normais, os alimentos avançam pelo sistema digestivo à medida que o intestino se contrai num processo conhecido como peristaltismo. Sem gravidade, os investigadores suspeitam que os alimentos se movem mais lentamente ao longo do intestino.

Quando os alimentos permanecem mais tempo no intestino, as bactérias intestinais podem consumir toda a fibra disponível e começar a decompor proteínas. Este processo é conhecido como fermentação de proteínas.

As bactérias produzem metabolitos, pequenas moléculas que podem passar para a corrente sanguínea e circular pelo organismo.

Segundo os investigadores, o aumento da fermentação de proteínas é compatível com a ideia de que a microgravidade abranda a passagem dos alimentos pelo intestino, contribuindo potencialmente para a obstipação.

Intestino e cérebro estão ligados

As consequências podem ir além da digestão.

Alguns dos metabolitos produzidos durante a fermentação de proteínas podem entrar na corrente sanguínea e estão associados a efeitos noutras partes do corpo. Os cientistas estão particularmente interessados no chamado eixo intestino-cérebro, a comunicação bidirecional entre o sistema digestivo e o cérebro.

Estudos anteriores associaram alguns produtos da fermentação de proteínas a efeitos na saúde, incluindo alterações de humor e menor capacidade de concentração.

Os investigadores sublinham que a fermentação de proteínas não é invulgar e também ocorre em pessoas na Terra. Mas os níveis sistematicamente mais elevados observados nos astronautas sugerem que algo muda no ambiente intestinal durante as viagens espaciais.

52 astronautas: um grupo de amostra relativamente grande

As conclusões destacam-se porque os estudos sobre voos espaciais costumam basear-se em números relativamente reduzidos de participantes. A nova análise combinou amostras de três estudos diferentes, envolvendo 52 astronautas que participaram em várias missões ao longo de vários anos.

Apesar destas diferenças, os investigadores detetaram um aumento consistente nos marcadores de fermentação de proteínas.

O estudo recorreu a uma abordagem de metabolómica designada não direcionada. Em vez de procurarem um conjunto específico de substâncias, os investigadores analisaram uma vasta gama de metabolitos no sangue e procuraram alterações associadas aos voos espaciais.

Significado destes resultados na Terra

As conclusões poderão tornar-se cada vez mais relevantes à medida que as agências espaciais preparam missões mais longas para a Lua e, potencialmente, para Marte.

Se o intestino abrandar durante voos espaciais prolongados, os astronautas poderão precisar de medidas para manter uma digestão saudável. Os investigadores sugerem que aumentar a ingestão de fibra, recorrer a prebióticos ou a outros tratamentos que estimulem o trânsito intestinal poderá ajudar.

Mas as implicações poderão não se limitar ao espaço. Pessoas acamadas durante longos períodos também podem sofrer de obstipação. Segundo os investigadores, a mesma combinação de movimento intestinal mais lento e maior fermentação de proteínas poderá contribuir para problemas de saúde nestes doentes.

Para já, o estudo fornece uma possível explicação para um dos desafios menos glamorosos das viagens espaciais: quando a gravidade desaparece, o intestino abranda com ela.

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